quarta-feira, 29 de março de 2017

O Reino dos Fantasmas Famintos (Hinduísmo e Budismo)



A cosmologia hinduísta e budista é marcada por um grande universo cósmico composto por seis grandes reinos, três superiores e três inferiores. Os reinos superiores são: o reino dos devas (deuses), o reino dos asuras (semi-deuses) e o reino dos humanos. Já os reinos inferiores são: o reino dos animais, reino dos pretas e por fim os reinos infernais. Tais reinos são marcados por características peculiares, onde os seres que neles habitam podem vivenciar tormentos terríveis ou viver de grande prazer e deleite, porém tais condições são geradas a partir das heranças kármicas que acumulou-se ao longo de várias vidas predecessoras. Todavia, esse tema entraria no campo da mística budista e não convém a nós trabalhar com esse terreno nebuloso e de difícil acesso racional.

Com base nisso, muitos filósofos e mestres budistas preferiram reinterpretar os seis reinos como estados mentais, isto é, disposições emocionais que as pessoas manifestam ao longo de suas vidas. Por exemplo, pessoas com grandes posses materiais, fama e riqueza podem viver de grande prazer e deleite, pouco se preocupando com os problemas da vida, tais pessoas estariam com estados mentais típicos de deuses, muito embora a dor e o sofrimento da doença, velhice e morte também chegarão para elas no futuro. 

Uma pessoa que vive invejando aqueles que têm vidas abastadas e prazerosas, estariam habitando o reino dos asuras (semi-deuses), isto é, passam todo o tempo trabalhando, guerreando e correndo atrás das condições necessárias para se tornarem deuses, porém, perdem todo seu precioso tempo de vida com atividades inúteis, que irão conferir pequenos momentos de prazer e quando menos esperarem estarão velhos, doentes e próximos da morte. Enfim, este reino é marcado pela inveja, competitividade e certa insatisfação com a vida e suas condições presentes. Como exemplo desse tipo de estado mental podemos citar as pessoas que vivem no mundo corporativo, sempre buscando ser melhores uns que os outros, competindo e "guerreando" pelo melhor cargo e posição.

No reino dos humanos, as pessoas estão maculadas por um desejo e um apego interminável por sensações prazerosas, é um reino onde o prazer é possível, embora tenha um custo razoável para se conquistar, precisa-se trabalhar por isso e inclusive passar por determinados sofrimentos até conseguir o objeto de desejo. Quando conquistado o objeto de desejo, surge o apego, ou seja, o ser se agarra ao objeto e não quer mais soltá-lo, perdê-lo jamais, ele quer cultivá-lo ao máximo, mas isso se torna impossível, pois tudo está fadado a mudar ou acabar. Quando o objeto de desejo e prazer deixa de existir da forma que o indivíduo quer, ocorre a dor, o sofrimento. Um bom exemplo para demonstrar isso são os relacionamentos amorosos. Estamos o tempo todo tentando nos agarrar a uma pessoa como se ela fosse o real motivo de nossa felicidade e prazer, porém esta pessoa está constantemente se transformando e quando deixa de corresponder a nossos desejos e anseios, sofremos. Ou ainda, quando você bate com o carro que você lutou tanto para conquistar e sofre por vê-lo destruído, mas aquilo não passa de um monte de lata, ferro e outros materiais.

Já no reino dos animais, a marca mental mais clássica é a obtusidade mental e a preguiça, a falta de vontade de pensar, de questionar. O sentido da vida inexiste, simplesmente está-se preocupado em conseguir o básico: comida, água e abrigo. Nada mais é necessário. Neste reino, as pessoas tendem a ficar acomodadas com situações muita das vezes horríveis, ou mesmo se acostumarem com certos tipos de sofrimento. "A vida vai mal? Sim, mas faz parte, as coisas são assim mesmo...". Sabe aquele fim de semana que você passa horas e horas na maratonando séries na Netflix, comendo porcaria e sem vontade de viver? Bom esse seria um bom exemplo de uma mente em estado animalesco, de acordo com a visão budista.

O reino dos infernos é o mais temido de todos, a pessoa que habita este reino mental é marcada constantemente pela raiva, ódio e muita dor existencial. É o tipo de pessoa que não consegue ter um único momento de paz, pois sua mente não consegue ver os fenômenos além do sofrimento e da dor causada pelas mais terríveis emoções perturbadoras. Tudo o que aconteça com essa pessoa, até mesmo as coisas boas, são convertidas em coisas ruins e em motivo de sofrimento. É comum associarem a depressão a este tipo de estado mental.

Por fim, temos o reino dos fantasmas famintos ou pretas como são conhecidos em sânscrito. Este reino é o segundo reino de maior sofrimento, só estando acima dos infernos. Nele as criaturas vivem em constante carência, além de fome e sede insaciáveis. Segundo a cosmologia, pessoas muito gananciosas e cobiçosas são as mais propícias a cair neste estado mental, pois nunca estão satisfeitas com a sua situação material, sempre sentem uma profunda necessidade de ter mais e mais. Nunca são saciadas, possuem uma sede e uma fome enormes. 


Por conta disso, os fantasmas famintos são representados como humanoides de bocas muito pequenas e gargantes estreitas, isto é, incapazes de ingerir grandes quantidades de alimento ou água, tais elementos representam a ganância. Além disso, possuem um estômago enorme, ou seja, por mais que consigam ingerir algum alimento, são incapazes de sentir saciedade, tal característica representa a insaciabilidade de sua cobiça e sua carência. Eles também são representados cuspindo fogo pela boca e pelo ânus, uma forma de ilustrar uma espécie de gastrite e dor intestinal constante, ou seja, por mais que eles ingiram uma quantidade suficiente de alimento e água, os mesmos causam um enorme desconforto em seus corpos. Isso pode ser visto como uma forma de apresentar o sofrimento que tais seres têm em manter suas posses e protegê-las da cobiça alheia.

As frustrações no reino dos fantasmas famintos são infinitas, a paz praticamente inexiste entre os indivíduos que estão presos a este estado mental.

No livro "A Essência da Ambrósia" de Jetsun Tanatha, um grande mestre tibetano do século XVI, os pretas são apresentados em diferentes categorias, a saber:

1 - Fantasmas Famintos Vivendo em Serkya: o primeiro tipo de fantasma faminto vive 500 milhas abaixo da terra. Eles vivem na cidade dos fantasmas famintos que se chama Serkya, o Império do Rei Yamadharma, chefe dos fantasmas famintos. Incontáveis fantasmas famintos vivem ao redor desta cidade.

2 - Fantasmas Famintos Vivendo Espalhados por aí: existem incontáveis fantasmas famintos que se movem através do espaço sobre a terra e debaixo da terra. Se tivesse clarevidência seria capaz de perceber que que os fantasmas famintos estão em todos os lugares. Eles são incapazes de simplesmente encontrar um lugar para viver. Existem alguns poucos com grandes poderes milagrosos que são de certo modo felizes. Mas a maioria deles experimenta um grande sofrimento. O grande Sutra Um Lugar (ou Posicionando-se) Próximo da Atenção Plena menciona 36 tipos de fantasmas famintos. Se resumirmos, existem 3 tipos principais: aqueles com obscurecimentos exteriores, aqueles com obscurecimentos interiores e aqueles com obscurecimentos associados com alimentos e bebidas.


3 - Fantasmas Famintos com Obscurecimentos Exteriores: por muitos anos esses fantasmas famintos são incapazes de encontrar alimento e bebida. De tempos em tempos eles vêem montes de comida ao longe, mas quando eles chegam perto, não resta nada. Algumas vezes eles vêem um rio enorme, mas quando chegam na margem ele está seco e não há nada a não ser areia e o fundo pedregoso do rio. Algumas vezes uma árvore verdejante carregada de frutos aparece bem diante deles, mas quando chegavam próximos dela, tudo está seco. Algumas vezes a comida fica guardada por muitos demônios que os impedem de pegá-la.

4 - Fantasmas Famintos com Obscurecimentos Interiores: suas bocas são do tamanho do buraco de uma agulha. A princípio eles são incapazes de comer ou beber qualquer coisa. Quando finalmente um pouco de comida consegue penetrar ela se perde na enorme cavidade interna de suas bocas. Se um pouco de líquido penetra ele imediatamente se seca pelo veneno que há na saliva deles. Se eles conseguem uma maneira de colocar para dentro algum alimento ou líquido, normalmente eles não passam pela garganta que é tão estreita quanto a corda de um arco. E mesmo se alguma quantidade consegue passar, uma vez que seus estômagos são do tamanhos de montanhas, eles nunca são satisfeitos.

5. Fantasmas Famintos que tem Obscurecimentos Associados com Comida e Bebida: qualquer comida ou bebida que esses fantasmas tentem ingerir se transforma em fogo que queima o interior de seus corpos. Além disso, tudo que eles conseguem encontrar para comer são coisas desagradáveis que fazem com que eles sofram como: carvões quentes, fezes, urina, pus e sangue. Eles nunca encontram nada bom para comer. Em geral todos esses fantasmas famintos sofrem constante e insuportavelmente de fome e sede. Eles não têm roupas, então se queimam quando está quente e congelam quando está frio. No inverno, mesmo a luz do sol é sentida gelada. No verão, mesmo a luz da lua os queima. Quando chove eles percebem as gotas como carvões quentes queimando suas peles.

Incapazes de encontrar sustento, experimentam a angústia da exaustão e do cansaço, e seus corpos se tornam emagrecidos pela falta de água e comida. Chamas saem das 360 juntas deslocadas dos seus corpos. Porque eles se percebem como inimigos, eles pegam, prendem, batem e apunhalam uns aos outros e experimentam o medo de ser mortos. Além disso, porque eles são naturalmente tímidos e assustados, sentem um terror extremo por nenhuma razão em particular.

Fantasmas famintos experimentam esse tipo intenso de sofrimento. Muitos fantasmas famintos vivem por cerca de 15.000 anos humanos. As preliminares e a conclusão de cada sessão de meditação seguem o padrão das contemplações anteriores.

Percebam que na tradição do budismo tibetano o reino dos fantasmas famintos é tido como um lugar físico, onde seres karma negativo podem vir a renascer e passar por terríveis tormentos. Contudo nas últimas décadas, principalmente após chegar ao ocidente, o budismo readaptou ou reformulou estes importantes elementos de sua cosmologia como estados mentais ou formas de operar no cotidiano, descrevendo detalhadamente como nossas emoções podem configurar modos de vida distintos, ou ainda, como pessoas com vidas materialmente semelhantes, podem apresentar estados mentais distintos devido ao cultivo de emoções diferentes.

Embora haja o costume de apresentar os reinos de forma autárquica, como se fossem autônomos, a nossa mente tende a operar em todos eles ao longo de nossa vida, em certos dias estamos alegres e vivendo com muito prazer como um deva, em outros podemos estar raivosos e sofrendo como um ser infernal, ou ainda vivendo estados concomitantes de desejo, raiva, apego e prazer, como acontece em relacionamentos conturbados. 

Representação Birmanesa dos Pretas

Enfim, mas você deve estar se perguntando por quais motivos o Budismo tenta descrever tudo isso, não é natural da raça humana vivenciar tudo isso? Pode até parecer natural, mas isso, segundo o Buda, é uma ilusão. É a mente ignorante e sua incapacidade de ver a realidade como ela verdadeiramente é. Estamos vivendo sonhos em que tais emoções no tiram do eixo constantemente, nos fazem migrar de um reino a outro, passamos por uma montanha russa de emoções e isso é nada mais que sofrimento, sofrimento este que muitas vezes nem é percebido, pois se apresenta de maneira bem sutil, como um pequeno desconforto ou insatisfação existencial.

É aí que entra toda a filosofia budista nos dizendo que é possível cessar tudo isso, é possível acabar de uma vez por todas com o sofrimento. Essa mente livre do sofrimento é o que ficou conhecido como Nirvana. Mas isto é tema para um artigo futuro.

Fontes:
A Essência da Ambrósia - Jetsun Tanatha
As Palavras do Meu Professor Perfeito - Patrul Rinpoche
Roda da Vida - Lama Padma Samten

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