sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os Budas de Bamiyan: Uma lamentável história de intolerância


A cerca de 240 quilômetros da capital Cabul, uma região remota do Afeganistão, conhecida como Vale de Bamiyan, foi no passado uma importante localidade que fazia parte da célebre Rota da Seda, sendo um caminho que ligava a Índia à China e consequentemente muito utilizado por caravanas de viajantes e comerciantes.

Devido à proximidade com a Índia, um dos maiores países budistas da antiguidade, o Afeganistão recebeu grande influência dessa religião e consequentemente abrigou seus praticantes, que trouxeram consigo uma ampla bagagem cultural. Templos e monastérios foram erguidos e muitos monges passaram a viver no território afegão, sendo o Vale de Bamiyan uma das regiões mais influenciadas pelo budismo.

Portanto o surgimento de símbolos religiosos e monumentos foi inevitável e em meados do século V d.C. duas enormes estátuas de Buda foram esculpidas nos paredões rochosos que atravessam Bamiyan. A menor possuía 37 metros de altura, enquanto a maior chegava a aproximadamente 55 metros, sendo a segunda maior estátua de buda já construída, ficando atrás somente do colossal Buda de Leshan (China).

Buddhas of Bamiyan por Iwan Lawrowitsch Jaworski (1885)
Do século II ao século IX, o vale foi um importante reduto da arte greco-budista, isto é, uma região de confluência de uma arquitetura tipicamente mediterrânea, greco-romana, com a arquitetura budista indiana, tornando-a assim uma preciosidade para o patrimônio cultural do país. Milhares de monges viveram em cavernas esculpidas ao longo dos paredões rochosos em que as duas estátuas foram erguidas, muitas delas adornadas com afrescos e estuários belíssimos.

Em torno do ano 630, o viajante e budista chinês, Hsüan-tsang, visitou a região e a descreveu como um importante centro budista, com milhares de monge e dez mosteiros. Além disso, enfatizou o fato de ambas as estátuas estarem decoradas com pedras preciosas e ouro.
O Buda menor, fotografia de 1977
No século XII, os Árabes conquistaram a região sob o comando de Mahmud de Ghazni que apesar de seguir o Islã, optou por preservar a arquitetura local. Contudo, ao longo dos séculos, movimentos civis e governamentais contrários ao budismo realizaram ataques contra as estátuas, causando pequenos danos e destruindo detalhes. Um dos principais líderes militares do século XVII, o imperador Aurangzeb [1618-1707] efetuou vários ataques militares na região, incluindo contra os monumentos budistas. Segundo o site, “Obvious”: “Em Julho de 1999, Mullah Mohammed Omar emitiu o decreto ‘O governo considera as estátuas de Bamiyan como um exemplo de uma grande fonte de renda em potencial para o Afeganistão de visitantes estrangeiros. O Talibã declara que as estátuas de Bamiyan não devem ser destruídas, mas protegidas.’”

Últimas explosões realizadas pelo Talibã
Com a disseminação de ideais radicalistas no Afeganistão nos últimos anos do século XX, a intolerância religiosa se tornou frequente e em 2001 clérigos e membros do Talibã declararam que as estátuas deviam ser destruídas, pois no futuro poderiam se tornar ídolos novamente, indo contrariamente ao princípio de que somente Alá mereça ser cultuado. Foi então, em Março do mesmo ano, que foram realizados ataques com dinamites e tiros de tanque contra as estátuas.

Atualmente, restam apenas escombros e os contornos das estátuas nas rochas. Os nichos vazios ainda apresentam alguns detalhes remanescentes e as cavernas da região ainda preservam um pouco da antiga arte budista do vale.

O jornalista afegão Farhad Peikar, assim escreveu após visitar Bamiyan em 2011: “Os nichos agora vazios de Bamiyan, que há dez anos abrigavam as maiores estátuas de Buda no mundo, com 38 e 55 metros de altura, são uma lembrança amarga da ira cega dos radicais islâmicos do Taleban. Não foram apenas as estátuas que eles destruíram, então, mas todo o vilarejo, povoado pela minoria xiita hazara. Essa gente foi torturada. Os Taleban não se deram por satisfeitos apenas em destruir os Budas, eles fizeram com que os moradores os ajudassem, mesmo contra a vontade. Eles tiveram de escalar as estátuas, pendurados em cordas, abrindo buracos na rocha para colocar dinamites. Quem não o fizesse, seria preso. E os habitantes daqui sabiam bem o que significa ir para uma prisão do Taleban, acusado de tortura e mortes. O povo de Bamyian não se esquece dessas atrocidades e odeiam os Taleban.”

Todavia, nos últimos dois anos, após expulsarem o Talibã da região, o governo da coalizão pretende reconstruir as estátuas, a Unesco e os países doadores discutem se irão refazê-las a partir dos escombros ou se reconstruirão do zero. Atualmente, uma equipe de pesquisadores trabalha no local realizando obras de estabilização dos nichos, a fim de preservar o que resta e proteger os visitantes contra possíveis desabamentos.


Fontes:

4 comentários:

  1. Unesco? hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

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  2. O que a intolerância e fanatismo faz com as pessoas, muitos monumentos históricos foram destruídos pelo EI a pouco tempo atrás, um exemplo de muitos é o templo de Nabu, esses caras ainda tem mentalidade medieval, vergonhoso e muito triste....

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    1. Se bobiar,você tem pensamentos sobre a Idade Media com livros do mec!

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    2. O que tem a ver livros do MEC com o que eu me referi com mentalidade medieval? Eu estava me referindo pela barbárie que esses caras cometem e esse fanatismo religioso.

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