quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Criaturas Femininas I - Sereias, harpias e ninfas


1 - As Sereias:
É bem corriqueiro encontrar na literatura mitológica uma infinidade de seres híbridos. Infinitas misturas de humanos com outros animais fazem parte do mundo fantástico criado pelos homens antigos. Centauros, Harpias, Minotauro, entre outros milhares de exemplos são facilmente encontrados, principalmente, na cultura grega que via no hibridismo a estreita relação entre os homens e os animais (veja nossos demais textos sobre seres mitológicos).

Outro fator muito comum nas narrativas mitológicas é a presença da mulher, como um ser encantador, que pode trazer ao homem tanto prazer quanto desgraça. A mulher é vista como uma criatura bela e infinitamente “perversa”. Tal perversidade não seria proposital, mas uma consequência da beleza feminina que encanta o homem de tal maneira a leva-lo ao infortúnio. Um exemplo clássico é a lenda de Loreley a sereia do Rio Reno e famosa pelo seu belo canto que levava os marinheiros da antiguidade a se chocarem contra os rochedos da região.

Falando em Loreley e em sereias, percebam que tais criaturas são uma verdadeira mistura mitológica: mulheres híbridas e que encantavam os viajantes que passavam próximos de suas moradas. Neste caso iremos discorrer um pouco sobre estas criaturas que tanto habitaram o imaginário humano (especialmente, o masculino) durante milhares de anos.

1.2 - Grécia:
Na Grécia Antiga, as sereias se assemelhavam demasiadamente com as Harpias, sendo criaturas metade mulher e metade águia. Além disso, moravam em ilhas e viajavam pelos mares, contudo não eram classificadas como criaturas do mar. Uma característica diferencial das sereias e harpias é que estas primeiras possuíam o dom do canto, e com ele podiam enfeitiçar marujos descuidados. Certos autores, ainda atribuíam a elas a capacidade de devorar tripulações inteiras após o naufrágio, mas acredita-se que isso venha de uma interpretação errônea do poema Odisseia.

Ainda na versão grega do mito, as sereias habitavam uma ilha no Mediterrâneo próximo ao Mar Tirreno, cercada de rochedos e recifes, onde muitos dos navios jamais escapavam.

A linhagem das sereias é um tanto confusa, mas em geral são consideradas filhas do deus rio Aqueloo e da musa Melpône, sendo este um outro fator de distanciamento das harpias. Em outros casos são consideradas filhas de Gaia, como disse Eurípides em Helena. Homero atribuía a elas a capacidade de ver o futuro, outra questão que condiz com as divindades nascidas da titã Gaia.

Odisseu e as sereias representado em vaso de 480-470 a.C.
Sem dúvida a Odisseia é a maior referência grega a tais seres, sendo igualmente válidas as menções nas obras Argonáutica, de Apolônio de Rodes, e Suda. Porém, a Odisseia permanece como a mais “confiável” por ser a mais antiga.

Na viagem de Odisseu, elas aparecem durante o retorno do herói para casa, em um momento em que tentam encantá-lo junto à sua tripulação, usando seus belos cantos. Como saída Odisseu pediu aos seus homens para que tapassem os ouvidos com cera de abelha enquanto ele mesmo permaneceria amarrado ao mastro, para que de lá não saísse.

Na arte as sereias eram constantemente representadas como pássaros grandes com rosto e busto de mulher, ou então como mulheres belas com patas e asas de aves. Sua imagem era muito comumente utilizada em jarros, vasos, frisos, monumentos funestos, estatuetas e joias. A figura das sereias tem origem oriental e foi introduzida na Grécia por contato comercial com o Oriente. Segundo o site www.greciantiga.org (vale a pena conferir) “Havia um templo dedicado às sereias perto de Sorrento, e uma delas era cultuada em Neápolis, no sul da península italiana”.

Há ainda uma estreita relação ao corpo de ave com o canto das sereias tornando a relação ainda mais interessante, já que os pássaros são os animais com os mais belos cantos da fauna, em qualquer local do mundo.

Urna funerária representando uma sereia - Século VI (Kerameikos)

1.3 - Celta/Medieval:
Com o tempo surgiu uma segunda versão para as sereias, onde o corpo de ave dá lugar a uma ilustre cauda de peixe e da cintura para cima permanecia características humanas.


O motivo de tal mudança ainda não é conhecido com plenitude, pois existem diversas explicações plausíveis ao mesmo. Uma delas seria da cultura celta, onde o peixe, especialmente o salmão, era tido como sagrado e isso daria a metade corporal das sereias como criaturas divinamente mágicas e fantásticas. Outra explicação seria dada pelo peixe ser considerado um alimento simbolicamente ligado a luxuria. E como tal, nada melhor que uma combinação do mesmo com a mulher, formando um ser tipicamente encantador (as famosas “Mermaids” medievais). Muitas outras possíveis explicações devem existir, mas estas duas são as principais.

Uma outra característica diferencial entre a sereia ave e a sereia peixe é que enquanto a primeira vive próxima ao mar, mas não é uma criatura marinha, a segunda é exclusivamente marinha e/ou aquática, raramente saindo do mundo de água e vindo à terra.



2 - As Harpias:
As harpias são seres típicos da mitologia grega e assim como os centauros e sátiros são criaturas híbridas, isto é, com corpo formado tanto por características humanas quanto animalescas. No caso das harpias, seus corpos são semelhantes ao de aves de rapina, especialmente, as águias; enquanto suas faces encontram-se na forma humana. Seus rostos são descritos nos mitos gregos como pálidos e magros como a de quem está sem comer há um tempo formidável. Dizem que as garras das harpias são tão afiadas quanto espadas e poderiam rasgar um homem ao meio. Outra característica humana que as harpias costumam apresentar são os seios que se sobressaem entre as penas torácicas.

Estas criaturas aparecem em dezenas de contos gregos, principalmente naqueles em que narram as viagens de algum navegante ou de tripulações atacadas pelas mesmas. A origem das harpias remonta a uma vontade divina, na qual Zeus as enviou para atormentar a vida de um homem cruel chamado Fineu, que também ficou cego como castigo. Fineu era, também, adivinho e sua maldição não consistia somente em ter que aguentar as harpias, mas este também jamais ter sua fome saciada, pois todos que passavam por sua ilha e lhe dessem comida, as harpias tomariam o presente e o comeria antes do velho.

Durante a viagem de Jasão, o herói ao lado de sua tripulação desembarcou na ilha das harpias, onde tiveram de enfrenta-las e conseguiram expulsá-las de lá após uma violenta batalha.


As mulheres-águia, então sem moradia, migraram para a ilha onde estava o rei Eneias, o refugiado Troiano. Lá estavam a fazer um espetacular banquete, após matarem quase todos os gados da ilha quando apareceram as criaturas voadoras. Eneias e seus homens pegaram suas espadas e travaram uma segunda batalha com as harpias que já haviam sido atacadas por Jasão. Mas seus golpes eram praticamente inúteis, pois as penas das aves funcionavam como armaduras de aço. Foi quando uma delas disse sobre um rochedo:

- É assim que tratam inocentes aves, príncipe dos Troianos? Primeiro matam nosso gado agora atacam a nós? - Antevendo o mau agouro das aves, Eneias e seus guerreiros rapidamente partiram da ilha.

As aves predisseram que os troianos iriam de passar a mesma fome maldita que ela havia passado por anos. E isso se deu num episódio posterior do poema Eneida, no qual os homens de Eneias tiveram de comer as próprias mesas para não se entregarem a morte por inanição.

No episódio de Jasão as harpias foram expulsas graças aos heróis Zéfiro e Calais, que eram alados e puderam partir no encalço das criaturas que foram perseguida em seu próprio “habitat”, os céus.


Em outros relatos dizem que tais criaturas, quando famintas e furiosas, podiam dizimar uma tripulação desavisada em poucos minutos.

Segundo Hesíodo, as harpias eram irmãs de Íris, filhas de Taumante e a oceanide Electra, e seus nomes eram Aelo e Ocípete. Higino lista os filhos de Taumante e Electra como Íris e as harpias Celeno, Ocípete e Aelo, mas, logo depois, dá as harpias como filhas de Taumante e Oxomene. Celeno (a obscura), Ocípete (a rápida no voo) e Aelo (a borrasca)  são as harpias mais famosas e conhecidas da mitologia grega.

Não se tem muitas informações sobre tais criaturas, pois estas se encontram na literatura em menções ligeiras e com pouca importância. Contudo, na maioria dos contos, sua presença foi incontestável para o rumo das histórias.

Waterhouse Hylas and the Nymphs Manchester - 1896

3 - As Ninfas:
Compreendidas no grupo das Divindades Rurais da Mitologia Grega, as Ninfas são divindades femininas secundárias de participação copiosa em diversos contos mitológicos. Habitam naturalmente as florestas, campos, montanhas e mares. São constantemente associadas à natureza, sendo também a personificação da fertilidade e da fecundidade do mundo natural.

As ninfas se dividem em subgrupos ou categorias relativas aos seus habitats: as Hamadríades ou Dríades eram as ninfas dos bosques, protetoras das árvores e eram mortais - vinham a falecer juntamente com a árvore que as correspondia. Desta forma, cortar uma árvore era o mesmo que matar sua Dríade protetora. Além disso, “as árvores lhes serviam de morada e juntamente com as quais nasciam”.

As Nereides ou Nereidas eram as ninfas marinhas filhas de Nereu, o deus dos mares mais antigo que Poseidon, com Dóris. Haviam no total cinquenta Nereidas, embora alguns relatos apresentem uma centena delas. Dóris era uma das três mil Oceânides, filha de Tétis e Oceano.

Faun And Nymph - Hans Zatzka
Outros três tipos de ninfas eram:
- As Náiades, que governavam os regatos e as fontes;
- As Oréades, ninfas protetoras das montanhas, grutas e cavernas. Não envelheciam e possuíam longevidade descomunal;
- E as Napéias que viviam nos vales e selvas. Estas últimas eram as acompanhantes de caça da deusa Ártemis e faziam parte do cortejo de Apolo enquanto pilotava sua carruagem.

Segundo Homero, eram filhas de Zeus, excetuando-se as Melíades que eram mais antigas e filhas de Urano. Tinham habilidades mágicas como a de profetizar, curar, persuadir e inspirar outros indivíduos. Em muitos contos aparecem como personagens secundários que dão rumo às aventuras de protagonistas ou aparecem como ajudantes de outras divindades.

As Hamadríades geralmente estão associadas ao deus Pã assim descrito por BULFINCH:

Pã, o deus dos bosques e dos campos, dos rebanhos e dos pastores, morava em grutas, vagava pelas montanhas e pelos vales e divertia-se caçando ou dirigindo as danças das ninfas. Era amante da música e, como vimos, o inventor da sírinx, ou avena, e que tocava magistralmente. Pã, como os outros deuses que habitavam as florestas, era temido por aqueles cujas ocupações os obrigavam a atravessar as matas durante a noite, pois as trevas e a solidão que reinavam em tais lugares predispunham os espíritos aos temores supersticiosos. Por isso, os pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente, eram atribuídos a Pã e chamados de terror pânico ou simplesmente de pânico. Como o nome do deus significa tudo, Pã passou a ser considerado símbolo do universo e personificação da natureza, e mais tarde, enfim, foi olhado como representante de todos os deuses e do próprio paganismo.

Além das classes de ninfas supracitadas temos as Melíades, um conjunto especial de ninfas, oriundas do freixo - árvore que simboliza a durabilidade e a firmeza. Tais ninfas eram guerreiras e viviam sob a ânsia de guerrear. Quando Cronos emasculou seu pai, Urano, e atirou seu órgão genital na água, as gotas de esperma geraram as Melíades¹.

Em suma, pode-se aferir que a figura das ninfas faz uma alusão à beleza feminina aliada à idealização da mulher como o ser que encanta e fascina o homem, ao mesmo tempo em que o consome.

Cave of the Storm Nymphs - Sir Edward John Poynter (1902)
Notas:
1 - Alguns outros subgrupos aparecem em pequenos relatos mitológicos, porém pela falta de uma base bibliográfica nos ateremos aqui e estes principais grupos. Em caso de dúvidas e ou correções, entrem em contato.

Referências:
- Thomas Bulfinch - O Livro de Ouro da Mitologia
- Ninfas (mitologia). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
- POUZADOUX, Claude. Contos e Lendas da Mitologia Grega. Companhia das Letras, São Paulo. 2001.

3 comentários:

  1. Achei seu blog por acaso e estou adorando, você parece fazer uma pesquisa bem profunda! Estou lendo sobre muita coisa que não sabia. Parabéns pelo conteúdo!

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