terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Religião e Poder - As Primeiras Comunidades Cristãs


É cônscio que durante os dez séculos da Idade Média e até mesmo os primeiros séculos da era Moderna, a Igreja exerceu enorme influência sobre os governantes europeus, tanto em questões ideológicas e políticas, quanto territoriais e econômicas. Existem certos autores que chegam ao ponto de avaliá-la como a verdadeira governante da Europa Medieval, haja vista o fato de quase nenhuma atitude governamental era tomada sem o conselho ou consentimento de um membro do clero.

Contudo, não só a Igreja católica exerceu grandes influências no poder político, mas diversas religiões estiveram durante toda a história da humanidade diretamente ligadas ao governo. Desde as teocracias egípcias e indo-americanas até os governos absolutistas da Idade Moderna ou mesmo o nazismo alemão. E é com isso que trago hoje o presente texto sobre a entre religião e poder, onde abordarei a posição da Igreja perante as formas de poder durante os últimos séculos da Antiguidade e início da Idade Média. Mostrando o início dessa relação entre religião e poder, que se encaixaram tão bem durantes os séculos subsequentes.

Para tal trabalharei com o livro “A Realeza Cristã na Alta Idade Média” de Marcelo Cândido da Silva, especialmente, com o capítulo I da segunda parte (“O rei cristão nos escritos episcopais”).

Desde os primórdios da história da Igreja, os autores cristãos nunca se posicionaram contra o sistema político e ao poder dos imperadores romanos, nem mesmo àqueles que foram grandes perseguidores dos cristãos, como Nero e Diocleciano. Um dos maiores exemplos disso está no texto “Epístola aos Romanos”, escrito por Paulo. Para este autor, os governantes, independente de suas atitudes, eram indivíduos escolhidos por Deus para o cargo de imperador e por isso deviam usufruir do respeito e obediência dos cristãos sob seu controle.

Paulo de Tarso
Não só Paulo, mas diversos outros autores acreditavam que os governantes eram eleitos pela vontade de Deus. Contudo, em nenhum momento esses apontaram qual era o papel do governo ou do governante político dentro da comunidade cristã. Na verdade, o que ocorreu foi a difusão de outras perspectivas tão díspares quanto aquelas dos próprios cristãos dos primeiros séculos pós-cristo. Certas versões marcavam o poder como uma realidade momentânea do mundo humano, enquanto outras o apresentavam como a influência do pecado sobre o homem. Deste modo, os principais autores cristãos, mesmo em versões díspares para a “origem” do poder político, apresentavam-no como um instrumento de furor divino, mas que ainda era essencial para a confirmação das profecias bíblicas.

A partir do momento em que o poder é estabelecido pela vontade de Deus, sob o objetivo de trazer ordem e justiça ao mundo dos homens, esses autores deram sustento a uma tradição muito comum nos séculos medievais: impor ao governante, um certo número de deveres estabelecidos pela tradição bíblica. Entretanto, nos três primeiros séculos da Era Cristã, a autoridade do governante se impunha sobre as influências cristãs, já que o mesmo era visto como o escolhido de Deus para promover o bem e destruir o mal na Terra.

Já do século IV em diante, tal perspectiva se metamorfoseia e aparece de maneira diferente nas obras cristãs. O poder deixa de ser um simples aparato de punição aos pecados humanos e passa a ser aparelho de redenção do homem. O Edito de Milão (312) que deu aos cristãos a liberdade de culto e, à Igreja, a legalização religiosa, e principalmente o Edito de Teodósio (392), que conferiu à Igreja o título de religião oficial do Império, cooperaram em demasia para tal transformação. Assim, a antiga visão do Estado como um órgão de punição dos pecados humanos, não mais satisfazia às questões pela nova situação imperial, na qual o Estado também se tornara cristão. Agora a deficiência das obras cristãs estava em estabelecer uma posição para o poder político recém-cristianizado na comunidade cristã e, sobretudo, em relação à Igreja e aos seus componentes.

Tal situação rompia com a visão “pré-Constantino” da Igreja, já que os autores cristãos sobrevieram a comparar o poder imperial à consumação da Parúsia (volta do Cristo no fim dos tempos, para o Juízo Final). Desta forma, “eles elaboraram uma doutrina sobre o comportamento político dos governados e dos governantes, em que a realidade terrestre era ainda vista como provisória, mas na qual a partir de então o poder político participava da economia da salvação” (Silva, 2008). O ponto que marca essa mudança das doutrinas cristãs aparece com Eusébio de Cesaréia, o bispo pioneiro na atribuição de uma função ativa ao Estado na salvação dos princípios bíblicos.

Eusébio de Cesareia
Com as migrações bárbaras entre os séculos IV e V, um certo pessimismo quanto à capacidade do Império à consolidação das doutrinas cristãs foi inevitável.  O império via-se frágil perante os povos pagãos que constantemente empurravam alguma influência cultural e até mesmo religiosa aos romanos. Contudo, as novas monarquias romano-germânicas abriram um novo caminho para os autores cristãos. A própria linha divisória entre os reis germânicos e a Igreja era menos densa do que aquela existente entre os romanos do século III. A necessidade de adoração dos imperadores romanos que tanto empecilhou a religião cristã primitiva, não existia entre os reis bárbaros; fato que facilitou a cristianização dos mesmos. O grande prodígio católico se deu na região da Gália, onde os francos receberam o cristianismo razoavelmente bem, dando aos bispos um status privilegiado de interlocutores da realeza franca. Com isso, ao constituírem um conjunto de servidores da realeza, a Igreja pode se aproximar do rei e consequentemente do poder.

Enfim, muito mais será abordado futuramente sobre o assunto, mas no momento nosso texto se aterá a este breve texto de caráter introdutório, cujo objetivo é abordar de maneira sucinta os principais aspectos da relação entre o governo e a religião nos primórdios da Era Cristã.

Referência: SILVA, Marcelo Cândido da. A Realeza Cristã na Alta Idade Média – Os fundamentos da autoridade pública no período merovíngio (séculos V-VIII). São Paulo: Alameda, 2008.

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