segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A Lenda de Lorelei


Introdução:
Desde as mais antigas lendas e mitos da humanidade, tem-se como um dos principais elementos narrativos o encanto do homem perante a beleza da mulher que é vista ao mesmo tempo como um "objeto" de desejo e perdição - a satisfação carnal e a ruína do mesmo. Em algumas dessas estórias e, principalmente, em grande parte dos mitos, com destaque para a mitologia grega, tal questão é muito comum: um protagonista ou personagem aventureiro, que realizou grandes feitos, cairá perante os encantos de uma bela mulher, sendo esta um verdadeiro infortúnio em sua jornada.

Vemos isto constantemente em poemas épicos como “A Ilíada”, de Homero, que conta a guerra de Troia causada pela fúria de Rei Agamenon contra o príncipe Páris que "sequestra" Helena, trazendo o fim a todo um império. Este é apenas um pequeno exemplo da questão feminina nas obras literárias que percorrem o mundo desde a antiguidade. Outro exemplo é o poema épico "A Odisseia", no qual o herói Odisseu, retornando da batalha de Troia, depara-se com sereias e uma feiticeira que tentam a ele e aos seus navegantes, levando muitos deles à morte e fazendo-o passar várias vezes por situações de perigo.


Durante a Idade Média tal elemento literário, da mulher encantadora e inalcançável, torna-se ainda mais comum. As cantigas de Amor entoadas pelos trovadores e bardos são grandes exemplos, nas quais, geralmente, apresenta-se um pobre cavaleiro destinado a morrer no campo de batalha e que jamais terá seu amor concretizado, pois sua donzela amada encontra-se “presa” em uma torre esperando seu retorno incerto e a lamentar a triste espera a que foi submetida.

Lorelei:
Dentre esses contos e mitos da Idade Média, onde a mulher era vista como fonte de desejo e, ao mesmo tempo, como intocável e a personificação da desgraça do homem, temos a famosa lenda de Lorelei ou Loreley (grafia medieval). Uma lenda germânica que contava sobre uma belíssima sereia, de cabelos longos e loiros, que vivia no rio Reno, cantando e atraindo os navios dos viajantes para um rochedo da região de modo a naufragá-los em meio às águas violentas e fragmentos de rocha.

Neste local havia (e ainda há) um enorme penhasco, onde lá de cima, aos 120 metros de altura a esplêndida sereia realizava suas belíssimas canções. A lenda mostra a ambição do homem em possuir aquilo que o encanta, porém não está ao seu alcance, levando-o a pagar um preço alto: sua vida. O rochedo inclusive carrega o nome da sereia. 

Monumento às margens do Reno em homenagem à lenda de Lorelei

Outra versão bem antiga da lenda coloca Lorelei como uma donzela muito bela que se encontrava angustiada, sentada sobre a pedra a esperar o retorno do amante, observando todos os dias os navios que ali passavam. Todavia seu amante infiel nunca mais voltou, então ela se jogou do penhasco de cabeça na água, entregando-se à morte. Segundo a lenda, o espírito de Lorelei permanece sentado na rocha a pentear o bonito e longo cabelo, cantando uma melodia suave. Aparentemente, seus olhares são tão encantadores que os marinheiros que passavam acabavam distraídos e antes de poder vê-la por completo, naufragavam nas rochas. Há quem diga que Lorelei naufragava os navios em busca de vingança contra seu amante, esperando que um daqueles navegantes um dia seja ele.

De tempos em tempos, um som pode ser ouvido murmurando nas proximidades da rocha, que se diz ser a sua melodia hipnotizante. O sopro é um som que é causado pelo eco de uma cachoeira próxima e correntes fortes que saltam para fora da costa rochosa. A "Canção Lorelei" é raramente ouvida hoje, devido à imensa urbanização que a região sofreu nos últimos cem anos.


Deixando a lenda um pouco de lado e analisando a realidade, vemos que algumas características da lenda de Lorelei são tidas como verdadeiras e são alvos de estudos científicos por parte de historiadores e arqueólogos. Na região onde se encontra o penhasco, uma área de estreitamento do rio Reno, objetos como uma gargantilha de três mil anos foram encontrados, mostrando a presença de mulheres ali. Além desse, outros objetos de grande valor arqueológico como peças de bronze e cerâmica mostram que o Vale do Reno é habitado há milênios.

Literatura:
Atualmente existem diversas variações da história de Lorelei. O trabalho mais importante da literatura sobre a estória dela talvez seja um poema do século XIX, escrito por Heinrich Heine, chamado "Die Lorelei". Este poema ainda é conhecido como um dos poemas mais famosos já escritos em língua alemã. Tal poema já foi adaptado por diversas vezes em músicas e por cantores diversos.

Outra versão popular da história de Lorelei é uma balada escrita no início dos anos 1800 por Clemens Bretano. No conto original de Bretano, Lorelei chamou a atenção de um bispo proeminente que temendo aos seus encantos a enviou a um convento, mas esta se jogou de um penhasco, pois sabia que nunca poderia estar com seu amor. Alguns anos mais tarde,  Bretano mudou sua versão e fez para a donzela na rocha que atraiu marinheiros em pânico.


Abaixo os poemas de Heinrich e Bretano

The Loreley por Heinrich Heine 
Traduzido para o inglês por Ernst Feise:

I do not know what haunts me, 
What saddened my mind all day; 
An age-old tale confounds me, 
A spell I cannot allay. 
The air is cool and in twilight 
The Rhine's dark waters flow; 
The peak of the mountain in highlight 
Reflects the evening glow. 

There sits a lovely maiden 
Above so wondrous fair, 
With shining jewels laden,
She combs her golden hair
It falls through her comb in a shower, 
And over the valley rings 
A song of mysterious power 
That lovely maiden sings. 

The boatman in his small skiff is 
Seized by a turbulent love, 
No longer he marks where the cliff is, 
He looks to the mountain above.

I think the waves must fling him 
Against the reefs nearby, 
And that did with her singing 
The lovely Loreley.


Lore lay - Clemens Brentano
Her beauty was her undoing.
Lorelei was not willfully seductive, but men could not resist her charms, 
and she could not resist their advances.

She was bringing scandal and disgrace to the respectable town of Bacharach-on-the-Rhine.

There was even talk that she must be a witch or a woman possessed of the devil.

The bishop, however, would not hear of an execution without due process,
and he summoned her to his court.

His questions were at first stern and severe. 
Her answers were simple and sincere.

The bishop's severity, his piety, and his priesthood, 
however, did not prevail, and in the end he pronounced her free of all guilt.

"I cannot continue like this!" she cried. 
"My eyes are the destruction of every man who looks into them. 

I have loved only one man, and he abandoned me and left for a distant land. 
Please let me die!"

But the good bishop could not bring himself to pronounce a death sentence.

Instead, he proposed that she dedicate herself to God,
and called three knights to accompany her to the convent.

Arrangements were made forthwith, 
and the three knights were soon underway with their beautiful ward.

When their path led them past a high cliff overlooking the Rhine, 
Lorelei had one last request of her escorts.

"Please," she said, "let me climb the cliff and have one last look into the Rhine."

Unable to deny her this wish, the three knights tethered their horses,
and the four of them climbed to the top of the cliff.

Standing at the edge of the precipice, Lorelei said, "See that boat on the Rhine.

The boatman is my lover!" 
And with no further warning, she jumped from the cliff into the Rhine.

The three knights also met their death there, without a priest and without a grave.

Who is the singer of this song?
A boatman on the Rhine,
And we always hear the echo
Of the Three-Knight-Stone:

Lore Lay!
Lore Lay!
Lore Lay!

As though there were three of us.

Text von Clemens Brentano (1800)

Conclusão:
A lenda de Lorelei é mais um exemplo do velho antagonismo literário entre prazer e perdição, como podemos ver na lenda de Lorelei, uma bela mulher com longos cabelos loiros (estereótipo germânico de beleza) que era responsável pelos grandes naufrágios da região. Assim vemos a materialização de um mito que faz alusão à natureza que encanta e mata, onde a distração do homem, por poucos instantes, pode custar-lhe a eternidade, sendo a personificação realizada pela simbologia da mulher que aos olhos masculinos também pode encantar e destruir.

Esta lenda nos mostra que é típico da mente humana criar situações, lendas ou mitos alusivos entre o natural e o sobrenatural. Se Lorelei realmente existiu dificilmente saberemos, porém sabemos que a lenda se encaixou muito bem ao preencher o corriqueiro imaginário do homem como insígnia de prazer e desgraça.


Referências:
http://www.dw-world.de
http://www.visitealemanha.com
Impressões sobre Heine em Machado de Assis - Marisol Santos Moreira
The Legend of the Lorelei in Germany
The Lorelei rock in the Romantic Rhine Valley
Angelfire - Legend of Lorelei

6 comentários:

  1. Não era conhecedor desta lenda do folclore alemão. As imagens, entretanto, não deixam saber o que Lorelei era realmente: foi Lorelei uma sereia mesmo (detentora do canto hipnótico típico das sereias) ou uma moça ou virgem que cantava muito bem? Interessante e intrigante, mesmo assim!

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  2. ALÉM DE UMA BELEZA ÍMPAR, ERA UMA SOFREDORA DE AMOR POR O SEU AMANTE NÃO MAIS APARECER!!! JÁ NAQUELA ÉPOCA SE SOFRIA TANTO POR AMOR!!! O AMOR É ASSIM, DELICIOSO MAS AO MESMO TEMPO TÃO PERIGOSO!!!
    LISBOA, 23/1/2016
    ISABEL MESQUITA

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  3. Ler os seus artigos ao som dessa bela playlist é muito bom, realmente me sinto em uma taberna

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