terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A História da Xilografia

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse de  Albrecht Dürer (1496/1498)
1 - Introdução:
Muito se ouve falar sobre a invenção da famosa imprensa que impulsionou a produção de livros no fim da Baixa Idade Média e como esta foi imprescindível ao desenvolvimento cultural que deu origem ao chamado Renascimento. Acredito que muitos de nós, apreciadores da Era Medieval, já tenha se deparado com aquelas gravuras e letras singulares e imaginado como eram feitas e pensadas. Desta forma, trago hoje, um breve histórico da Xilografia, a célebre técnica de imprensa amplamente utilizada na Idade Média que floresceu em diversas obras do século XII ao XVII, chegando inclusive a ser praticada por nós brasileiros.


2 - Etimologia:
A Xilogravura (Do grego Xilon = madeira; grafó = escrever/gravar) é uma técnica de gravura na qual se utiliza uma matriz de madeira para produzir estampas em materiais adequados como papel e tecido. Em síntese, seria uma espécie de impressão feita a partir de um carimbo de madeira.


3 - Histórico:
As origens da técnica xilográfica ainda são uma incógnita para os historiadores e arqueólogos que estudam tal temática. Embora a xilogravura mais antiga que se tem conhecimento advenha da China, mais precisamente do ano de 868, a qual representa um exemplar da oração budista, Sutra Diamante, editada por Wang Chieh, pouco se sabe sobre sua invenção e menos ainda sobre seu(s) inventores(s). Especula-se, contudo, que tal técnica tenha realmente surgido no Extremo Oriente alguns séculos antes, as quais eram usadas para estampar tecidos, muito provavelmente com início na Índia.


Xilogravura colorida de Buddha do século X, Shanxi, China
No Ocidente, mais especificamente na Europa, o exemplar mais antigo é um tecido do século XII, todavia há aqueles que afirmem que a manufatura de tecidos europeia já utilizasse das xilogravuras desde o século VI. Após o século XIII, em especial nos séculos XIV e XV, a xilogravura passou a ser imensamente utilizada pela Europa, especialmente para a produção de imagens para livros, imagens sacras e cartas de baralho.

Ainda na passagem do século XIV para o século XV, temos o importante papel do artista alemão Albrecht Dürer (1471-1528), que inovou a antiga técnica com sua série “Apocalipse”, de 1499. Foi através desta série que ele elevou a técnica, buscando extrair “as potencialidades da madeira, dando-lhe uma linguagem plástica peculiar e notável”¹. Suas xilogravuras inspiraram nos anos seguintes diversos artistas alemães.
Xilogravura de Jost Amman (1568) ilustrando a produção da xilogravura.
Além da Alemanha, outro país difusor de grandes e belíssimas imagens xilográficas foi a Itália Renascentista, com destaque para as cidades de Veneza e Florença. Apesar de muito ligada à ilustração de livros, as xilogravuras italianas foram inovadoras em vários aspectos, especialmente em seu caráter miniaturista na qual seus adeptos expressavam um notável alvedrio de ornamentação.

Após ser disseminada por toda Europa e ser amplamente utilizada, a xilografia começa seu período de decadência, perdendo terreno para a gravura em metal. A partir do século XVI a imprensa de metal começa a ganhar campo, já que diferentemente da madeira, permitia a elaboração de imagens mais ricas, com traços finos, delicados e mais detalhamento. “Embora a matriz de metal entalhado tivesse a desvantagem de exigir uma segunda impressão, pois é entintada de modo diferente do praticado para a tipografia, que é técnica de matriz em relevo, aquela vantagem fê-la levar a melhor”¹.

Em contrapartida, no Japão, a velha xilografia ganhava um novo momento de apogeu, com a magnânima Escola de Ukyio-e. Lançada principalmente na atual região de Tókio (antigamente conhecida como Edo) entre os séculos XVII e XIX, a gravura Ukyo-e representou elementarmente a separação entre a xilografia e a produção de livros, isto é, passou-se a produzir gravuras em folhas isoladas e em grande escala. Tal fenômeno se deu graças ao trabalho em equipe empreendido por grupos de entalhadores e impressores reunidos em oficinas coletivas. Além disso, foi nesse período que as cores aparecem intensamente nas xilogravuras e passaram a representar elementos comuns do dia-a-dia e paisagens, o que contrapunha à arte aristocrática Japonesa que nesta época imitava a tradição chinesa, muito mais ligada aos simbolismos do que à realidade. Os maiores representantes da xilografia Ukyo-e foram Utamaro Kitagawa (1753-1806), Hokusai Katsushira (1760-1849) e Hiroshige Ando (1797-1858).
A Grande Onda de Kanagawa por Katsushika Hokusai (1830—1833)
No século XVII, na Europa, a xilografia retornaria com mais força, começando a ser profundamente empregada para ilustrar livros, jornais e revistas, devido ao surgimento da técnica de topo, que se difundiu durante o século XIX através do trabalho do xilógrafo inglês Thomas Bewick (1753-1828). Bewick, em 1775, conquistou o prêmio de gravura da Sociedade de Arte, de Londres, e deu início ao reinado da xilografia gravada em topo, regimento que perdurou um século, sem confrontação com outras técnicas, e nutriu muitas oficinas de trabalho coletivo necessárias para acatar à enorme demanda advinda das editoras. Todavia, o segundo período de esplendor da xilografia em topo – também conhecida por xilografia de reprodução ou xilografia de interpretação – viu-se definhar gradativamente entre o fim do século XIX e início do XX, quando o inovador clichê metálico, produto da fotografia aliada à decomposição química de metais, tornou-se mais vantajoso.

Após ser arruinada pela nova técnica de imprensa, a xilogravura perdeu sua função utilitária, condenando milhares de xilógrafos ao desemprego. Porém, pela terceira vez em sua grande história, a gravura com matriz em madeira ressurgiu das cinzas, através do campo das artes. Agora disjunta da velha submissão que os meios de comunicação a impunha, a xilografia começou a ser usada por artistas plásticos nas mais criativas formas, explorando o potencial de expressão da mesma, com base nos contrastantes traçados em preto e branco. “Os precursores dessa nova fase na Europa foram, principalmente, o suíço Felix Valloton (1865-1925), o francês Paul Gauguin (1848-1903) e o norueguês Edvard Munch (1863-1944). Na sequencia, os expressionistas alemães (Kirchner, Heckel, Schmidt-Rottluff, Nolde, etc.) do grupo Die Brücke, de 1906, e, nas mesma época, os fauve franceses (Matisse, Derain, Dufy e Vlaminck) elevaram a xilogravura a um nível de expressão extraordinário”¹.

No Brasil, não foi muito diferente: a xilogravura chegou através da cultura medieval transportada pelos portugueses, principalmente como componente na produção dos meios de comunicação, desenvolvendo-se depois seu caráter popular, em especial na literatura de cordel. A maioria dos xilógrafos populares brasileiros, em especial os nordestinos , têm ligação direta com a cultura dos cordéis. Após perder terreno para as demais técnicas, a xilografia agora considerada uma técnica antiquada, encontrou recanto nas artes plásticas. Seus grandes difusores foram Osvaldo Goeldi (1895-1961) e Lasar Segall (1891-1957).
Xilogravura de Cordel
4 – A Técnica:
Após explanar esse sucinto histórico acerca da xilografia, iremos transcrever os passos realizados de acordo com as informações prestadas pela Casa da Xilogravura:

“Para preparar uma matriz xilográfica é preciso realizar trabalho de entalhe em um pedaço de madeira, deixando em relevo a imagem que se pretende reproduzir. As partes altas (em relevo) receberão tinta e transferirão a imagem para o suporte”¹.

“Quase sempre a impressão é feita com emprego de tinta, que é previamente aplicada sobre a matriz. No entanto, há xilogravuras impressas sem tinta, nas quais o relevo provocado pela pressão da matriz sobre o papel é o bastante para que o observador possa distinguir a imagem. A impressão pode ser produzida por uma prensa de rosca (de parafuso vertical), ou uma prensa de cilindros ou até sem prensa nenhuma. Com a pressão de uma colher de pau (ou outro instrumento arredondado, liso e sem arestas) exercida no verso do papel, pode-se pressioná-lo centímetro a centímetro contra a matriz, provocando a transferência de tinta da matriz para o papel. No Oriente, em vez de colher de pau, usam para essa impressão manual de xilogravuras um instrumento que denominam baren, uma espécie de bolacha feita de um recheio firme e flexível (barbante enrolado, cartão), revestida por folha de bambu e dotada de um pegador do mesmo material. Ao que consta, no século catorze os xilógrafos europeus usavam, para exercer pressão sobre o papel, uns tampões com miolo de crina revestido de pano.”¹

A xilografia divide-se em dois tipos: Xilografia ao Fio e Xilografia de Topo.

“Na xilografia ao fio, também chamada de madeira à veia ou madeira deitada, o artista, para fazer a matriz, lança mão de uma tábua, isto é, de um pedaço de madeira cujo corte se fez da copa à raiz, longitudinalmente ao tronco. Diferentemente, na xilografia de topo, também denominada madeira em pé, não se utilizam tábuas. O xilógrafo faz a matriz entralhando na superfície de um disco de madeira obtido com corte transversal da árvore. Ou seja, ao cortar o tronco, a lâmina da serra opera em um plano perpendicular à direção das fibras.”¹

Nota:
1 - Trechos compilados diretamente da fonte: Museu Casa da Xilogravura

Autor/Edição: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Um comentário:

  1. Interessante pensar que a Xilografia sobrevive como uma forma de arte, uma vez que foi superada como meio de produção de comunicação pela imprensa. Mas esse parece ser o destino de todas as mídias, sempre que aparece uma mais barata e prática.

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