domingo, 6 de dezembro de 2015

Uma breve introdução ao Hinduísmo e ao Budismo


As mitologias são de suma importância no entendimento de certas culturas que atravessaram séculos, ou até mesmo milênios, guiando o estilo de vida de muitos povos e civilizações desde os primeiros agrupamentos humanos. Dentre estas grandes religiões que percorreram a Antiguidade e sobreviveram até os dias de hoje temos as indianas.

A Índia foi, e ainda é, um dos países mais diversificados do globo terrestre. Com uma cultura rica e uma historiografia milenar, seu território foi palco das mais diversas revelações religiosas. Foi ali que tiveram origem duas grandes religiões do mundo oriental: o Hinduísmo e o Budismo.

Este primeiro é a principal religião da Índia e possui muito adeptos em outras regiões como Nepal, Sri Lanka e Bangladesh. Após vários anos de colonização inglesa, em 1947 tornou-se um país independente  e consequentemente instituiu uma república baseada na garantia de direitos iguais e liberdade religiosa, sendo taxado como crime o desrespeito a qualquer forma de religião, racismo e preconceito sexual. Atualmente, sua população religiosa é construída por 80% de hindus, 10% de muçulmanos, 4% de cristãos e os outros 6% variando entre outras religiões.

Já o budismo, apesar da origem indiana, não é muito praticado em sua terra natal, restando poucos adeptos do mesmo no país. Atualmente é mais difundido no Sri Lanka e sudeste asiático. No entanto, o budismo adquiriu uma importante e extensa história na China, no Japão e na Coreia. Estatísticas calculam que cerca de 200 milhões de pessoas, exceto os chineses, exercem a fé budista.


O Hinduísmo:
O hinduísmo é uma das religiões mais antigas e peculiares do mundo. Ao contrário da grande maioria ela não possui um fundador, muito menos um credo fixo ou padronizado, ou ainda uma organização específica. Na verdade é uma religião que desfruta  de uma certa liberdade, o que a caracterizaria como a “religião eterna”, haja vista sua enorme capacidade de aderir novas concepções e formas de pensamento sem quebrar com as antigas tradições. Não possui grandes dogmas inquestionáveis, o que facilita sua assimilação por pessoas dos mais diversos estilos de vida e classes sociais.

Com o simples significado “indiano”, a palavra hinduísta vem da analogia ao rio Indo, sendo uma “mistura” das várias formas religiosas formadas na Índia Antiga, especialmente após os indo-europeus abrirem o caminho para a Índia do Norte há cerca de 3 ou 4 mil anos. Hoje constitui-se em uma das religiões mais complexas do planeta, mas consegue proporcionar ao praticamente a possibilidade de experimentá-la como um todo.

“As raízes do hinduísmo podem ser encontradas em algum ponto entre o ano 1500 a.C. e o ano 200 a.C., quando os chamados arianos (isto é, os ‘nobres’) começaram a subjugar o vale do Indo. As crenças dessas pessoas tinham ligação com outras religiões indo-europeias, como a grega, a romana e a germânica. Sabemos disso pelos chamados hinos védicos (da palavra Veda, ou seja, "conhecimento"), que eram recitados por sacerdotes durante os sacrifícios a seus muitos deuses. O Livro dos Vedas consiste em quatro coletâneas, das quais certas partes datam de cerca de 1500 a.C.” (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 1989, pg. 42)

No culto ariano o sacrifício fazia-se essencial; no qual oferendas eram dadas aos deuses a fim de usurpar suas graças e manter sob controle as forças malignas e caóticas do cosmos.

Segundo Gaarder, Hellern e Notaker, achados arqueológicos no vale do Indo sugerem que existiu uma cultura avançada na Índia, anterior à chegada dos indo-europeus, e certamente tal civilização também colaborou para o hinduísmo contemporâneo. O período conhecido como “védico tardio”, de 1000 a.C. até 500 a.C., assinalou uma virada crucial no desenvolvimento religioso da Índia. Importância especial tiveram os Upanishads, que até hoje são os textos hinduístas mais lidos. Foram escritos sob a forma de prozas entre um mestre e seu discípulo, e introduzem a noção de Brahman, a força espiritual efetiva em que se fundamenta todo o universo. Todos os seres vivos nascem do Brahman, vivem no Brahman e ao morrer retornam ao Brahman.


O Budismo:
O budismo foi fundado pelo filho de um rajá, Sidarta Gautama, que viveu no Nordeste da Índia entre 560 e 480 a.E.C. Sua vida é narrada nas mais diversas versões, cada uma com suas singularidades, mas todas com um certo lineamento lendário.

O príncipe Sidarta nasceu em meio a fortuna e o luxo. O rajá há algum tempo ouvira um presságio de que seu filho poderia tomar dois caminhos na vida: ou seria um poderoso rei, ou abandonaria sua vida de nobre para sempre. Esta última alternativa só seria consolidada se Sidarta tivesse ciência da desigualdade e pobreza existente no mundo. Para evitar tal destino, seu pai passou a protegê-lo e “prendê-lo” dentro das muralhas do palácio, oferecendo-o grandes regalias e meios de diversão. Ainda na juventude, Sidarta se casou com a própria prima e manteve um harém repleto de belas dançarinas.

Aos 29 anos o príncipe ousou experimentar aquilo que seu pai sempre o negou: um passeio fora do palácio. Embora o rajá jamais o deixasse sair, Sidarta não hesitou e na melhor oportunidade realizou sua fuga (algumas versões apontam que seu pai o liberou apenas uma vez para sair do palácio). Ao sair do seu mundo de riquezas, deparou-se com um mundo arruinado pela miséria. Em seus primeiros olhares avistou um homem doente, um velho e um cadáver em estado de putrefação. Aquilo o estava desanimando e causando certa amargura, até que ao olhar mais adiante, enxergou um ermitão com um semblante feliz. Vendo aquilo, percebeu que não é necessário riqueza e luxo para levar uma vida de felicidade, pois sua existência era sem sentido dentro daquele palácio. Sidarta sentiu então uma verdadeira clemência pela humanidade e pensou que a partir daquele dia tentaria livrá-la do sofrimento. 

Afogado em seus pensamentos ele retornou ao palácio e naquela mesma noite renunciou à sua vida de prazeres e, sequer indo despedir-se, abandonou esposa e filho, partindo para uma vida de andarilho.


Desde então, Sidarta passou a abdicar-se cada vez mais das necessidades mundanas. Diminuía constantemente o consumo de alimentos e, segundo a lenda, chegou a sobreviver comendo apenas um grão de arroz por dia. Além disso, passou a praticar exercícios ascéticos e ioga; contudo nada lhe oferecera o estado de espírito que buscava.

Desta forma, seguiu o “caminho do meio”, procurando a salvação através da meditação. Já com seus 35 anos, após 6 anos na vida de andarilho asceta, alcançou a iluminação (bodhi), enquanto estava sentado em meditação nas margens de um afluente do rio Ganges. Agora Sidarta não era mais um homem comum, pois se transformara num buda, isto é, um iluminado: atingiu a percepção de que toda angústia do mundo é gerada pelo desejo e ganância do homem. Apenas com a supressão de um desejo que podemos nos livrar dos males e das demais encarnações.

Durante sete dias e sete noites, o Buda ficou sentado debaixo de sua árvore da iluminação. Ganhou dessa forma a compreensão de uma realidade que não é transitória, uma realidade absoluta acima do tempo e do espaço. No budismo isso se chama nirvana. Ao dominar seu desejo de viver, que antes o atava à existência, o Buda parou de produzir karma e, portanto, não estava mais sujeito à lei do renascimento. Conseguira alcançar a salvação para si mesmo, e o caminho estava aberto para abandonar o mundo e entrar no nirvana final. O deus Brahma, porém, instou com ele para que difundisse seus ensinamentos. E então, mais uma vez, o Buda sentiu compaixão pelos outros seres humanos e por todos os seres vivos. Ele "contemplou o mundo com um olhar de Buda" e decidiu "abrir o portão da eternidade" para aqueles que o quisessem ouvir. O Buda decidira se tornar um guia dos seres humanos. (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 1989, pg. 57).

Assim, Buda peregrinou pela Índia, levando seus ensinamentos aos demais monges e muitos deles passaram a segui-lo. Dentre todos os ensinamentos de Sidarta, os mais conhecidos e que marcam profundamente a religião, são as chamadas "Quatro nobre verdades", a saber:

A primeira nobre verdade determina que tudo no mundo é sofrimento. "Nascer é sofrer, envelhecer é sofrer, morrer é sofrer, estar unido com aquilo de que não gostamos é sofrer, separarmo-nos daquilo que amamos é sofrer, não conseguir o que queremos é sofrer." Em termos budistas o sofrimento implica algo mais do que mero desconforto físico e psicológico. Pode-se dizer que a existência como um todo é manchada pelo sofrimento, pois tudo é passageiro. A pessoa que não consegue perceber que o mundo, do ponto de vista do ser humano, é inadequado, é uma pessoa cega. Mas isso não significa que o budismo negue toda felicidade material e mental. Ele reconhece que existe alegria tanto na família como no mosteiro. Todavia, tudo aquilo que amamos e a que nos apegamos simplesmente não vai durar.

Na segunda nobre verdade, Buda afirma que o sofrimento é causado pelo desejo do ser humano. O desejo implica sobretudo desejar com os sentidos, a sede de prazeres físicos. Como essa ânsia nunca pode ser plenamente saciada, ela sempre irá acarretar um sentimento de desprazer. Até mesmo o desejo de sobrevivência do ser humano contribui para manter o sofrimento. Enquanto ele se apegar à vida — e continuar acreditando que tem uma alma —, irá perceber o mundo como sofrimento. O budismo também rejeita o extremo oposto. O desejo de anulação — ou desejo de morrer — igualmente amarra o ser humano à existência. Em primeiro lugar, um tal desejo pressupõe que o ser humano tem uma alma que pode ser eliminada; em segundo, não leva em consideração o carma, que impõe o renascimento. Tirar a própria vida não resolve nada no budismo. Isso não irá libertar a pessoa do eterno ciclo.

A terceira nobre verdade é que o sofrimento pode ser levado ao fim. Isso acontece quando o desejo cessa. E quando o desejo cessa, começa o nirvana. Um pré-requisito necessário para suprimir o desejo é que a ignorância do homem deve ser enfrentada, pois ela é a causadora do desejo. Assim, só o homem que não enxerga sente desejo. A ignorância leva ao desejo, o desejo leva à atividade, a atividade traz consigo o renascimento, e o renascimento origina mais ignorância. Aqui se descreve um círculo vicioso, e para que este círculo vicioso — ou "corrente da causalidade" — seja rompido, o homem deve atacar a raiz do problema: sua própria ignorância.

A quarta nobre verdade afirma que o homem pode ser libertado do sofrimento — e do renascimento — seguindo o caminho das oito vias:
(1) perfeita compreensão; 
(2) perfeita aspiração; 
(3) perfeita fala; 
(4) perfeita conduta; 
(5) perfeito meio de
subsistência; 
(6) perfeito esforço; 
(7) perfeita atenção, e 
(8) perfeita contemplação.

Não entrarei em mais detalhes sobre o caminho das oito vias no presente artigo, finalizando-o aqui. Porém, pretendo entrar no assunto futuramente, explicando adequadamente cada uma delas e com maiores detalhes. No mais, deixo aberta minha disposição para responder qualquer dúvida ou acatar sugestões.


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referência:
O Livro das Religiões (Religionsbuka) - Gaarder, Jostein, Notaker – 1989. Tradução: Isa Mara Lando; revisão técnica e apêndice Antônio Flavio Pierucci. — São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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