sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Hoplitas - A Imponente Infantaria Grega


Introdução:
Os Hoplitas eram guerreiros típicos da infantaria grega durante Antiguidade Clássica. Compunham grande parte da chamada infantaria pesada. O nome dado a eles vinha do Hoplon: grande escudo redondo que carregavam para as batalhas. Eram os principais soldados dos exércitos gregos na antiguidade e possuíam um conjunto de equipamentos típico, composto basicamente de uma lança, um elmo, couraça (proteção peitoral), espada curta, o Hoplon e as grevas (espécie de caneleira). Vale lembrar que o nome Hoplita vem do grego "hoplítes".

Nas batalhas, a infantaria hoplita geralmente organizava-se em uma espécie de coluna com forma de falange, onde as pontas das lanças eram viradas para frente na altura do ombro formando fileiras de espetos que eram usados para estocar os inimigos na região do tórax. A poderosa coluna hoplita movia-se uniformemente de modo que parecesse uma parede de escudos se descolando. Os guerreiros que ficavam por trás empurravam os companheiros à frente e estocavam os inimigos por cima deles. Tais batalhas corpo a corpo eram fatais e uma boa formação militar era indispensável. Além disso, para que esse tipo de formação usada pelos Hoplitas não sofresse falhas, os soldados deviam ter uma boa ordem disciplinar e um ótimo treinamento, pois qualquer tipo de brecha na parede de escudos poderia custar-lhes a vida.

Anteriormente, as batalhas eram basicamente feitas por arco e flecha e por posicionamento de tropas. Com a utilização dos hoplitas, os melhores infantes do mundo antigo, a máquina de guerra grega mudou e estes passaram a dominar os campos de batalha por séculos, até o dia em que os poderosos exércitos romanos surgiram e tomaram seu posto de melhor infantaria do mundo.

Os hoplitas eram conhecidos no mundo todo e muita das vezes temidos pelo inimigos das polis gregas. Além de ótimos guerreiros, eram de fácil manutenção devido ao baixo custo de suas armaduras e armas. A fama dessa elite de guerra era tão famosa que foram citados por vários poetas do mundo antigo em suas obras épicas.

Hoplita Espartano
Após a formação da milícia hoplita, os gregos não receberam ataques permanentes e duradouros, sendo estes últimos raros. Os hoplitas da maioria das cidades-estado gregas eram formados por cidadãos comuns que em tempos de guerra vestiam suas armaduras e empunhavam seus escudos. Todavia, havia uma grande exceção: os guerreiros espartanos, que formavam uma classe especializada de hoplitas e tinham suas terras cultivadas pelos escravos, classes baixas de trabalhadores e familiares não militares, isto é, a milícia espartana não se dedicava a mais nada além do exercício militar. Quando estes estavam em guerra seus empregados ou esposas se encarregavam de cuidar das propriedades. As batalhas eram definitivas: curtas, sangrentas e brutais. Os hoplitas espartanos também eram os mais conhecidos e temidos, pois eram treinados desde a infância para combater e guerrear, a fim de convertê-los numa força infante superior e extremamente disciplinada jamais vista no mundo.

Durante as batalhas ambos os exércitos alinhavam-se numa região, geralmente, plana onde formavam uma coluna retangular de cada lado do campo. As outras forças que não faziam parte da infantaria como a cavalaria (hippeis), a arquearia e a infantaria leve eram considerados indiferentes e localizavam-se nos flancos, sobrando a eles a função de capturar fugitivos e/ou auxiliar os hoplitas.

Representação de uma falange hoplita
História do Hoplitas:
A arma hoplita espalhou-se pela Grécia provavelmente entre 700 e 650 a.E.C., sendo chamada pelos estudiosos de "Reforma Hoplita". Tal fenômeno é citado numa passagem da obra de Aristóteles "A Política', na qual menciona a substituição da cavalaria pela falange de hoplitas. Obras como "A Ilíada" descrevem alguns combates com utilização da infantaria de hoplitas. Nesta mesma época, uma modificação significativa nos equipamentos de guerra gregos ocorreu, o que deve ter contribuído no surgimento de tal espécie de guerreiros.

Muito do que se conhece hoje deve-se também às representações gráficas das guerras em objetos de cerâmica como jarros e vasos. Um bom exemplo é o Vaso dos Guerreiros de Micenas (datado de 1120 a.E.C.), que apresenta filas de soldados de infantaria pesada segurando escudos redondos e levando couraças ao corpo.

Cratera descoberta na acrópole de Micenas, representando guerreiros armados (1200-1100 a.C., Museu Arqueológico Nacional, Atenas)
A partir do século VII a.E.C., as polis passaram a incorporar cidadãos de classes menos nobres às fileiras hoplitas e os treinamentos passaram a ser regulares dando uma certa coesão ao exército, agora formado basicamente pela classe média, trazendo consequências como o desprezo pelos cavaleiros que foram sendo deixados em segundo plano na formação dos exércitos. Desde então, tal classe social passou a participar efetivamente da defesa das cidades gregas e foram ganhando prestígio, passando a ter um importante papel na defesa da Grécia. Com o tempo, o reconhecimento da classe média guerreira levou-a a adquirir poderes políticos nas Polis de regime político democrático.

Equipamento Hoplita:
Os hoplitas possuíam um armamento simples, porém pesado, podendo pesar no total entre 22 a 27 kg, excluindo-se o escudo, pois com ele o peso total era de 32 a 35 kg. Isso fazia com que eles se armassem pouco tempo antes da batalha, a fim de não se cansarem antes dos confrontos. Cada soldado possuía seu próprio equipamento e este não era uniforme em todo o exército. Isso as vezes tornava-se um grande problema, haja vista que tropas amigas podiam não se reconhecer no caos da batalha.

Normalmente, um hoplita usava uma couraça de bronze com traços que reproduziam o desenho dos músculos do tronco, um capacete de bronze com proteção para o nariz e bochechas, o escudo redondo citado no início do texto (Hoplon ou Aspis). Tal escudo era feito de madeira e/ou bronze com um reforço na parte em que o braço o segurava. Pesava entre 8 e 38 kg. Na cultura espartana, era inaceitável tirar o hoplon de um guerreiro. Dizia-se que ou "se volta para casa com o escudo ou sobre ele".


Cada grego possuía uma armadura feita à sua medida e desenhava no escudo o símbolo de sua família.  A única exceção, mais uma vez, eram os espartanos que pintavam em seus aspis um símbolo comum: a letra grega (Λ), que representava sua terra de origem, Esparta (Lacedemônia/ Lacônia). Todo espartano transportava um manto vermelho, apresentando-se como espartano, porém este nunca era usado durante os combates. (Embora inspirado nos quadrinhos, esse é um dos erros históricos do filme 300 que apresenta os guerreiros espartanos utilizando o manto em combate).

Quanto aos elmos, haviam vários modelos, sendo os mais comuns o coríntio e o trácio:

Elmo Coríntio
- O elmo coríntio era o que tinha maior utilização. Para os espartanos era reservado aos líderes e reis das legiões hoplitas. Tal modelo de capacete muita das vezes vinha acompanhado com adornos, principalmente enfeites de crina de cavalo colorida.

Elmo Trácio
- O capacete trácio tinha viseira na frente semelhante a um boné e, assim como todos os capacetes da época, era feito de bronze.

Em tempos ulteriores, as couraças passaram a ser feitas de linho denominadas linotórax, bem mais resistentes e baratas.  A arma primária do hoplita era a lança que media cerca de 3m de comprimento, chamada doru. Já a segunda arma era uma espada curta de aproximadamente 60 cm chamada xifos, muito utilizada em caso de quebra ou perda da lança ou no fim das batalhas para perseguir os inimigos que tentavam fugir. As grevas que protegiam as pernas eram chamadas cnémidas. Vale lembrar que quase tudo era feito de bronze.

Inicialmente o equipamento era muito caro e somente os nobres podiam obtê-lo. Em muitas ocasiões os guerreiros usavam armaduras herdadas de seus ancestrais. Caso o soldado fosse rico, ele poderia comprar um cavalo e servir na cavalaria comum (Hippei) ou na cavalaria escaramuçada, especializada em atirar lanças (Hippakontistai).

Espada Xiphos
Em algumas Polis o serviço militar de 2 anos era obrigatório, mas o equipamento deviam ser comprado pelo soldado. Depois destes 2 anos de serviço militar o cidadão podia escolher qual rumo tomar: continuar na carreira militar ou dedicar-se a outra profissão. Contudo, em Esparta, cada cidadão era obrigatoriamente um soldado, já que os hilotas (espécie de servo grego de propriedade estatal, diferente dos escravos que eram privados) eram os responsáveis por cultivar a terra e realizar os demais trabalhos extra-militares. Os soldados espartanos tinham direito a uma pensão e outros benefícios.

Táticas de Guerra:
O combate surpresa era a grande especialidade dos hoplitas. Seu principal objetivo era romper a linha inimiga ou rodeá-la. Caso isto não fosse possível, a batalha se convertia em uma briga de empurrões, com a retaguarda auxiliando a vanguarda numa tentativa de rompimento da linha inimiga. Tal tática era conhecida como othismo. Eram raras as batalhas que ultrapassassem mais de 1 hora. Uma vez que uma das linhas era rompida, os perdedores realizavam uma manobra de fuga do campo de batalha, sendo perseguidos em seguida pelos cavaleiros ou peltastes. Os peltastes eram tropas leves típica da Trácia e seu nome vem do tipo de escudo que utilizavam o Pelte.

Peltasta Trácio
Caso um soldado hoplita conseguisse fugir e deixasse seu pesado escudo para traz, cairia na desonra perante seus familiares e amigos. Geralmente, nessas batalhas o número de mortos eram pequenos se comparados às guerras, onde as baixas chegavam a 5% do total do exército vencido, entretanto nesse pequeno número podiam encontrar cidadãos importantes como reis, chefes e generais.

Em alguns casos a guerra podia ser decidida em apenas uma batalha e os vencidos deviam pagar aos vencedores seu resgate. Acredita-se que no caso dos espartanos, não havia fuga e todos lutavam até a morte, muito embora existam estudiosos que essa seja uma versão "romantizada" que ficou famosa com a batalha de Termópilas.


Ao tomar posição de combate, um hoplita ficava protegido pela parte direita do seu hoplon levado na mão esquerda e pela esquerda do escudo do soldado ao seu lado direito. Deste modo, o guerreiro do extremo direito da coluna ficava sem proteção pela direita. Nas batalhas era comum uma falange tentar explorar a aba direita da falange opositora em busca de uma fragilidade.

Nas falanges, os homens mais fortes e líderes ficavam nas fileiras à direita. Existia também o instrutor na retaguarda que ia mantendo a ordem do grupo. Antes da utilização da formação Falange os gregos lutavam no "modelo livre" no qual os melhores e mais sortudos sairiam vitoriosos. A base da batalha estava em empurrar os inimigos com o hoplon e estoca-los com as lanças na região do rosto ou torso.  A maior extenuação dessas táticas era o restrito uso combinado de armas, com arqueiros e outras tropas céleres empregadas escassamente. As formações e táticas foram variando com o tempo e tomando uma forma específica em cada cidade estado.

Como um dos maiores problemas da falange hoplita estava a escassa flexibilidade da tropa que levava cada homem a aproximar-se o máximo possível do companheiro para formar uma parede impenetrável. Algumas técnicas foram empregadas para mitigar tal técnica, como tropas que se moviam diagonalmente.


Auge e Fim dos Hoplitas:
O auge e o fim da infantaria hoplita esteve completamente ligado ao auge e o fim das Polis gregas. Em algumas guerras como as Guerras Médicas, as formações hoplitas eram obrigadas a se desfazer para que estes corressem atrás dos arqueiros persas. Em outras batalhas, como a do Peloponeso as tropas armadas com projéteis foram ganhando importância progressivamente, devido a uma maior importância que adquiriram. A partir de então, iniciaram uma forma de batalha mais móbil com homens armados com equipamentos mais leves. Isto dirigiu à formação dos ekdromoi (hoplitas ligeiros). Por fim a falange de hóplons entrou em crise e foi sendo cada vez menos utilizada. Além disso, houveram grandes mudanças na arte da guerra como utilização de máquinas (catapultas, balizas), da marinha , de mercenários, etc.

Tais reformas tornaram as guerras mais pesadas com um crescente número de baixas. Boa parte dessas reformas foram ajustadas pelo General Epaminondas, cujas táticas foram a base do exército de Filipo II da Macedônia. Na Batalha de Queronea (338 a.E.C.) esta nova forma de guerra venceu a última grande falange hoplita, levando Atenas, Esparta e outras cidades-estado a aliarem-se ao Império Helênico.


Herança:
A tática de formação hoplita foi praticada em diversos locais e exércitos do Mediterrâneo, sendo os romanos os grandes desenvolvedores dessa formação, retomando com sucesso a formação falange na poderosa Legião Romana, que dominou o enredo militar do ocidente durante séculos.

Autor/Edição: Áviner Reis, Taberna Do Fauno
Referências:
- Às armas, cidadãos. Com os hoplitas, os gregos formam um exército constituído de cidadãos livres - Laurent Henninger
- Dispositivos táticos na segunda Guerra Púnica e a questão do  Militarismo Cívico na obra de Políbio: Uma reflexão acerca do  limite normativo do modelo ocidental de guerra - Henrique Modanez  De Sant’anna 
- Site: www.enciclopedia.com.pt
- Revista: Galileu - Grécia Em Guerra (março/2007)

3 comentários:

  1. Ótimo post, espero muitos mais como esse, fiquei fã desse site, parabéns, continue assim

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