quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Origem dos Cavaleiros Templários


1 - Apresentação:
A Ordem dos Cavaleiros Pobres de Salomão, ou simplesmente, Ordem dos Cavaleiros Templários constitui-se em um dos elementos mais misteriosos e fascinantes da história medieval. Durante séculos, historiadores e arqueólogos trabalharam para desvendar as dezenas de mistérios que rondam esta célebre ordem de monges guerreiros, mas poucos foram solucionados e muitos outros permanecerão irresolutos.

Muitos dos leitores da Taberna nos pediram um texto sobre tais cavaleiros e hoje tive a oportunidade de escrevê-lo. Espero que possa contribuir para o esclarecimento de algumas dúvidas a respeito deste assunto e ao mesmo tempo aumentar o fascínio de nossos camaradas sobre essa incrível história e seus grandes mistérios.

Antes de começar a abordagem é importante frisar que nem todas as informações acerca dos Templários são verídicas e muitas não passam de especulações, mas que não deixam de encantar os amantes da historiografia mediévica. Contudo, creio que as informações presentes nesse post sobre a fundação da Ordem sejam fidedignas em sua grande maioria.

2 - Introdução:
Para falar da Ordem dos Cavaleiros de Salomão é indispensável comentar alguns fatos do contexto em que ela nasceu e se desenvolveu. Desta forma, remontaremos à Europa Ocidental do século XI. Um período marcado, especialmente, pela grande religiosidade e fé do homem medieval que, acima de qualquer título de nobreza ou classe social, se identificava como cristão. O cristianismo, firmado pelo imperador romano Constantino no século IV, agora era a religião oficial da Europa e sob o comando “radicalista” da Igreja Católica, taxava as práticas de qualquer outra religião pagã como heresia.

Neste contexto, muitos católicos embarcavam em longas viagens até a Terra Santa, as vezes como prova de sua fé e/ou satisfação religiosa. Todavia, Jerusalém manteve-se durante séculos sob o comando de reis muçulmanos, e consequentemente não gostavam da presença de cristãos na região. Ataques e saques às caravanas de peregrinos católicos eram copiosas e isto despertou a atenção do Papa Urbano II que, visando uma difusão do cristianismo pelas terras do oriente e ao mesmo tempo fim das opressões, estimulou os adoradores de Cristo a ingressar numa batalha contra os inimigos da Igreja, oferecendo em troca a misericórdia divina. Além do Papa, outro famoso membro da Igreja que incentivou as campanhas militares contra os inimigos muçulmanos foi São Bernardo, o pároco de Clairvaux.

Com a aprovação desta doutrina de combate aos muçulmanos pelas autoridades da Igreja Católica, houve um grande investimento da mesma nas célebres Cruzadas. Neste mesmo período, a Europa havia passado por uma séria de dificuldade com os invasores vikings que tinham como base militar o respeito pela morte, isto é, morrer em campo de batalha era uma das maiorias demonstrações de honra e inclusive um “passaporte” para a morada dos deuses. Desta forma, a Igreja tentou inserir uma concepção semelhante aos cruzados e demais fiéis. Com isso, um soldado de Cristo deveria apresentar piedade, benevolência e jamais temer a morte quando estava na luta contra os inimigos do Senhor. Nesses mesmos anos, foi criada a Militia Sancti Petri pelo Papa Gregório VII, um verdadeiro exército de elite da Igreja.

Entretanto, os Templários só foram criados durante a Primeira Cruzada (1096 – 1099) ou "A Cruzada dos Nobres", na qual outras ordens como os Hospitalários e Teutônicos também foram fundadas.


3 - A Primeira Cruzada e a fundação dos Templários:
Após incessantes batalhas entre Cristãos e Muçulmanos, estes primeiros conseguem conquistar Jerusalém em 1099. A primeira cruzada fora um sucesso. Os cavaleiros católicos eram aclamados por toda a Europa. Especula-se que o número de mortos girou em torno de setenta mil.

Em 1100 Balduíno I, sobe ao trono e torna-se o rei de Jerusalém, caindo sobre suas mãos a grande responsabilidade de proteger a cidade sagrada de novas invasões muçulmanas. O perigo era constante, não só para os habitantes da cidade, mas também para os viajantes e peregrinos europeus. Com o sistema tributário desorganizado e muito mal aplicado à defesa da região, a segurança tornava-se cada vez mais frágil e centralizada em Jerusalém.

As estradas eram locais de carnificinas e pratos cheios para os bandoleiros e saqueadores sarracenos e/ou beduínos. Como os cristãos nunca conseguiram controlar toda a região palestina, diversas batalhas irrompiam ao redor da cidade sagrada. Jerusalém ficou, durante bom tempo, ilhada pelos territórios muçulmanos e inclusive sofreu alguns cercos. Devido à sua importância histórico-religiosa, nunca deixou de ser cobiçada pelos muçulmanos e muito menos pelos cristãos.

Já no ano de 1118, ainda sob o domínio cristão, os caminhos e estradas que davam acesso à cidade estavam cada vez piores e as emboscadas eram uma realidade constante. Facínoras dos mais diversos tipos que viviam nas cavernas da Judeia aguardando a passagem dos peregrinos em Jafa ou Cesareia. Outro local de grande significância religiosa era o rio Jordão, onde os viajantes cristãos vinham para um batismo nos moldes de João Batista.
Hugo de Payens
Sob a iniciativa de proteger tais caminhos dos saqueadores, surge então uma ordem de cavaleiros cristãos formada inicialmente por três respeitáveis personalidades francesas: Hugo de Payens, São Bernardo e Hugo de Champagne. Durante uma viagem até sua terra natal, Hugo de Campagne conheceu São Bernardo, um grande seguidor das doutrinas de Santo Agostinho de Hipona que justificava a violência quando utilizada para fins de defesa pessoal. Tal forma de pensar foi adotada pela mente papal que desde então incentivou seus fiéis a viajarem armados, para que pudessem revidar os ataques e emboscadas nas estradas.

Antes de retornar ao Oriente, Hugo brindou Bernardo com a Abadia de Clairvaux, como selo da amizade que firmaram durante a visita deste primeiro à Europa. Após grandes conversas e influências de São Bernardo, Campagne, retornou a Jerusalém, onde seu vassalo Hugo de Payens estava a esperar e futuramente fechar o triângulo que fundaria a ordem de cavaleiros mais famosos da Idade Média.

Chegando lá, Campagne apresentou a Payens as doutrinas e convicções que absorvera de São Bernardo. Ambos agora comovidos pelos infortúnios que os peregrinos cristãos passavam e impregnados pela doutrina de São Bernardo, aliaram-se a um terceiro nobre chamado Godofredo de Saint-Omer e fundaram uma ordem militar-religiosa conhecida pelo título Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis, isto é, “Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”. Com o tempo abreviações do título foram ocorrendo até ficarem conhecidos somente como Templários. Como divisa adotaram a frase: Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam - "Não para nós, Senhor, não para nós a glória, mas só em teu Nome".

O Selo/Símbolo Templário

Seu símbolo de identificação era a famosa cruz de cor vermelha tingida no centro da veste branca e em outras formas de representação, especialmente a arquitetônica, eram concebidos pelo ícone de dois cavaleiros sentados em um único cavalo.

Alguns meses após a fundação da ordem, novos membros de importante renome foram adicionados, dentre eles destacam-se: Geoffroy Bisot, Payen de Montdidier, Archambaud de Saint-Aignan, André de Montbard (tio de São Bernardo), Gondemar e Jacques de Rossal (Silva, 2001).

Balduíno I ofereceu as instalações do Templo de Salomão (Templum Salomonis), em Jerusalém, aos cavaleiros que inicialmente tinham o objetivo de proteger os peregrinos e praticavam os votos de castidade, pobreza e obediência. Mesmo após a saída de Balduíno I do templo, os cavaleiros cristãos lá permaneceram e daí a origem do título de Cavaleiros do Templo de Salomão, a Ordem do Templo ou Ordem dos Templários, cuja nobreza estava não nas posses ou títulos, e sim na defesa da fé cristã mesmo que isso os custasse a própria vida.

Embora seguissem princípios baseados na fé cristã, os Templários não eram adeptos do pacifismo pregado por Jesus e seus discípulos, mesmo porque na era medieval a violência estava intrínseca ao modo de vida das pessoas, onde o lema principal era “matar ou morrer”. Graças a isso e a necessidade da Igreja em expandir a fé cristã pelo mundo muçulmano, o uso da violência pelos cavaleiros de Cristo era justificado pela afirmativa de que estes lutavam por Deus.
No ano de 1120, o governo de Jerusalém encontrava-se demasiadamente empenhado em povoar a cidade com cidadãos cristãos e construir uma grande e resistente muralha ao redor da mesma. Para tal, criaram uma “campanha” para atrair as pessoas: impostos alimentícios foram banidos e os templários tornaram-se uma espécie de guarda da cidade. Segurança e alimento eram as prioridades do governo. No entanto, a campanha não obteve o sucesso esperado e até 1126 nada havia mudado em grande escala. Foi neste mesmo ano que Hugo de Payns, vendo a situação que a cidade se encontrava, partiu para o ocidente com a missão de recrutar um considerável número de cavaleiros europeus.

Diversas excursões foram realizadas pelo chefe dos Templários que utilizando do nome e do apoio de São Bernardo, conquistou uma série de contatos e aliados em todas as regiões que passava. Alguns cronistas medievais, talvez exagerados demais, afirmam que Hugo conseguiu mais aliados que o próprio Papa Urbano II para a primeira cruzada. Outros documentos públicos da época apontam que muitos nobres largaram tudo ou pediram empréstimos para ingressar nas cruzadas ao lado dos Cavaleiros Templários. Hugo durante as viagens, inclusive, enviou uma carta aos membros da Ordem dizendo que a mesma renasceria em breve, além de retomar a glória dos tempos de sua fundação.

Já em 1128, com o apoio exitoso de São Bernardo, ocorre o Concílio de Troyes que reuniu as principais autoridades da Igreja (Bernardo, o abade de Clairvaux, o emissário do papa e os arcebispos de Reims e Sens), os representantes dos Templários e as autoridades de Jerusalém. Neste concílio houve uma análise minuciosa das pretensões da Ordem dos Cavaleiros de Salomão. Por fim, após uma série de análises, os Templários receberam o “hábito branco”, o que transferia a eles o reconhecimento legal do Papa como uma ordem oficial da Igreja Católica Apostólica Romana.


4 - O Regimento Templário:
Após o Concílio que firmou a legalidade da Ordem, um regimento de atributos da mesma foi elaborado, essencialmente, por São Bernardo, onde 72 artigos regravam as atitudes de todos os membros. Neste regimento, conhecido como a Regra, podia-se ver um resgate dos valores da Cavalaria medieval, onde princípios como honra e honestidade eram enfatizados. Como exemplo, tem-se o trecho abaixo, retirado do Livro “História e mistérios dos templários” de Pedro Silva:

"Acima de todas as coisas quem quer que sejais um cavaleiro de Cristo, que escolhais apenas assuntos sagrados, vós que fizestes o juramento deveríeis acrescentar puro zelo e firme perseverança que são valiosos e sagrados e reconhecidos como virtudes elevadas, de modo que, se cumprirdes isso em toda a vossa pureza e eternidade, sereis digno de fazer companhia aos mártires que deram suas almas por Jesus Cristo."

Esse prólogo da Regra embasou todo o restante do regimento que inseriu alguns novos conceitos na tradicional Norma de Cavalaria, especialmente aqueles que dizem respeito à religiosidade.

Outro aspecto imprescindível da Ordem era o Ritual de Iniciação. Os membros da Cavalaria de Cristo, que defenderiam os interesses da Igreja e do Senhor não poderiam ser escolhidos ao acaso, e sim, deveriam passar por um considerável julgamento. Neste teste inicial, eliminavam-se aqueles que não declaravam a fé em Cristo, dispensando-os sem qualquer análise dos motivos que o levaram a tal decisão. Após a seleção dos “recrutas”, era importante inserir na mentalidade deles um caráter de superioridade da Ordem perante os demais grupos cavaleiros.

Os locais onde a Ordem realizava suas cerimônias mais solenes eram conhecidos como “charter” onde, geralmente, se encontram reunidos todos os seus membros. Eram nestes “charter” que os novos membros deveriam se alistar e demonstrar seu interesse pela vida de cavaleiro. Ao mesmo tempo, era apresentado aos novatos todas as regras e princípios da Ordem, de modo que este pudesse decidir sua permanência e obediência à Regra. Silva (2001) ressalta que antes do noviço se apresentar ao “chater” (capítulo) deveria demonstrar habilidade para tarefas simples, como cuidar de animais e cultivar vegetais.



Logo após as primeiras provações, o novato passaria por uma cerimônia, onde os membros mais antigos da Ordem estariam presentes. Caso não houvesse nenhuma contestação ao noviço, um interrogatório seria direcionado ao mesmo pelos membros mais antigos e respeitados. Neste questionário seriam perguntadas questões de cunho pessoal como estado civil, habilidades, profissão, motivo que o levara a servir a Deus, entre outras.

Já respondidas as questões, os anciões se dirigiam ao Mestre e descreviam todas as informações adquiridas. Mais uma vez, na ausência de contestações, o novato seria levado ao mestre e ajoelhado diante dele diria: “Mestre, vim diante de Deus e diante de vós e diante dos freires, e imploro-vos e solicito, por Deus e por Nossa Senhora, que me acolhais na vossa companhia e nos favores da casa como aquele que continua a querer, de hoje em diante, ser servo e escravo da casa.”¹ O mestre lhe replicava: “Distinto irmão, pedis-me grande coisa, pois da nossa religião não vedes senão a casca exterior. Nela, vedes somente que temos belos cavalos, belos arneses, boa bebida, boa comida e belas roupas, e aqui vos parece que estareis muito a vosso bel-prazer. Mas não sabeis os duros mandamentos que estão por dentro, pois é dura coisa que vós, que sois senhor de vós mesmos, vos façais servo de outrem, pois com grande pena fareis vós alguma vez coisa que queirais: se quiserdes estar na terra do outro lado do mar [no Ocidente], mandar-vos-emos para o lado oposto (...) E, quando quiserdes dormir, sereis obrigado a velar, e, se quiserdes, por vezes, velar, sereis mandado para irdes descansar sobre o vosso leito.” Almejava-se, ao evidenciar todos esses empecilhos, avisar ao candidato a difícil a vida de um membro da Ordem do Templo. Caso este continuasse a persistir e convicto de sua escolha deveria afirmar ao Mestre: “Sim, Mestre, se Deus quiser”.

Após esta demorada passagem, os demais membros convidavam o recruta a rezar em conjunto a oração do Pai Nosso e posteriormente um freire-capelão completaria as orações com uma prece ao Espírito-Santo. Em seguida, o pretendente era novamente questionado para garantir a inexistência de obstáculos à sua aprovação. Esta longa e demorada cerimônia ocorria sem qualquer interrupção e o iniciado por fim se comprometia a seguir os princípios de obediência ao Mestre, pobreza e castidade. Com o consentimento final, o chefe do capítulo concluía da seguinte forma: “Nós, por amor de Deus e por amor de Nossa Senhora Santa Maria, por amor de monsenhor São Pedro de Roma e por amor do nosso pai, o Apóstolo, e por amor de todos os santos do Templo, vos acolhemos a todos os benefícios da casa que foram feitos desde o começo e serão feitos até ao fim, a vós e ao vosso pai e à vossa mãe e a todos os que queirais acolher da vossa linhagem. Vós também, vós nos acolhereis em todos os benefícios que fizestes e que fareis; e nós também vos prometemos pão e água e pobre vestuário da casa e bastante cansaço e trabalho”. Após esta breve oração, um manto sagrado seria colocado nas costas do novato e seria ordenado freire.

Por fim ele teria de ouvir o salmo de aceitação como fim de seu ingresso na Ordem: “Eis que quão bom e quão agradável é Irmãos morarem juntos em União! É como óleo bom sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Aarão, que desce até o colar da sua veste. É como o orvalho do Hermom que desce sobre as montanhas de Sião. Pois ali Jeová ordenou [que estivesse] a bênção, vida por tempo indefinido”.

Com o término do salmo, o novo cavaleiro se levantava a pedido do Mestre e recebia um beijo na boca como símbolo de que sua escolha fora aceita e selada. Neste caso, é importante ressaltar que o beijo não possuía qualquer valor sexual. Com a cerimonia já finalizada, o noviço jamais renunciaria às regras que acabara de aceitar e deveria morrer sob aquele título de Pobre Cavaleiro de Cristo e do Templo de Salomão.



1.(Os trechos entre aspas que demonstram as falas e passagens da cerimônia foram retirados do li
vro de Pedro Silva presente nas referências).

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências:
- SILVA, Pedro. História e mistérios dos templários. Ediouro, 2001.
- National Geographic. Segredos Da Bíblia – Os Cavaleiros Templários. Documentário
- COTRIM, Gilberto. História e Consciência do Mundo 1 – Da pré-história à Idade Média. 1ª Ed. São Paulo. Editora Saraiva, 1992.

Imagens:
http://shawcj.deviantart.com/art/Templar-Knight-Detail-2-172390364
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hugo_de_Payens
https://www.pinterest.com/pin/441845413417549508/
https://www.knightstemplarinternational.com/how-do-the-kti-make-decisions/
http://lacedemon.deviantart.com/art/Siege-of-Acre-1291-Version-3-252036943
http://wraithdt.deviantart.com/art/Templars-Guarding-the-Holy-Grail-551120603

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