quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Petra: A mítica cidade esculpida em arenito


A história da humanidade é marcada por diversas lendas e mitos, criados ao longo de milhares de anos, em centenas de civilizações nos vários cantos do mundo. Nos mitos eram relatados os mais diversos seres, objetos ou monumentos de um passado sobrenatural, onde deuses, criaturas e humanos conviviam em um mesmo ambiente. Dentre os mais distintos elementos que compunham as mitologias de outrora, tem-se as cidades e monumentos místicos, sendo as mais famosas na cultura ocidental, as cidades de Troia e de Atlântida que enriqueceram as narrativas mitológicas durante séculos. Porém, existe um questionamento que não se pode responder com convicção: Tais cidades realmente nunca existiram?

Essa pergunta foi feita durante 600 anos atrás por estudiosos da antiguidade, sobre uma cidade localizada em um deserto e que segundo documentos e artefatos históricos se localizava no sul do atual território da Jordânia. Esta cidade foi durante séculos taxada como mitológica, fruto apenas da imaginação dos homens da antiguidade, mas em 1812 foi descoberta por um arqueólogo suíço, Johann Ludwig Burchardt.

A Câmara do Tesouro ou El-Khazneh
Estes documentos ancestrais, que descreviam a cidade com exímia perfeição, desde então, passaram a ser reconhecidos como  relatos verdadeiros, pelo menos em sua maior parte. Segundo estas mesmas narrativas, Petra foi obra de um povo conhecido como os nabateus, advindo do Oriente Próximo entorno de 700 e 600 a.E.C*. durante o Império Medo-persa.  Conforme os historiadores da antiguidade, Estrabão e Diodoro da Sicília, os nabateus eram um grupo de beduínos (cerca de 10 mil) que trabalhavam como comerciantes de especiarias, plantas aromáticas, incensos e mirra, levando seus produtos da antiga Arábia Feliz (atual Iêmen e Omã) até o mercado consumidor no Mediterrâneo.

Estes viajantes eternos eram adoradores da liberdade, segundo Jeremias no Velho Testamento, de modo que chamavam o deserto de lar. Não construíam moradias fixas e nem possuíam plantações, mas em um determinado período iriam destruir todas as desconfianças criadas sobre sua capacidade, construindo sua magnifica capital, Petra, num vale rochoso no meio do deserto.

Instalados nas áridas terras de Edon, a sudoeste do Mar Morto, os nabateus se viam dispostos a frente de uma grande muralha rochosa, o magnífico monte Umm el Biyara, onde a grande fortaleza fora esculpida. Acredita-se que esculpiram-na durante o século III a.E.C, levando longos 200 anos. Escondida por siq, um enorme labirinto de gargantas e estreitos rochosos, ficou “perdida” por séculos, após o fim das cruzadas.

Siq que dá passagem a Petra
Quanto a sua localização, podem-se aferir rapidamente bons motivos. Em meio ao deserto, água é recurso preciosíssimo e a região rochosa de Petra a possuía. A porosidade do arenito aliada ao seu passado geológico aquático ou marinho, confere ao subsolo uma desses terrenos riquíssimos lençóis freáticos, fazendo assim com que a cidade em meio ao deserto possuísse grandes rios subterrâneos. Além disso, era um local de difícil acesso para desconhecidos, sendo protegido pelos labirintos de rocha da região. Apesar da dificuldade de acesso, tinha-se grande controle sobre as rotas e caravanas, pois Petra se localizava próxima ao cruzamento de várias estradas importantes que ligavam a Síria ao Mar Vermelho, Arábia Feliz, ao golfo Pérsico e a Índia ao Mediterrâneo.

O labirinto, formado pela erosão eólica do arenito, mede cerca de 3 metros de largura e estende-se por 100 metros profundidade, desembocando em uma abertura que leva ao "majestoso El-Khazneh, ou a Câmara do Tesouro: a decoração superior desse monumento, considerado uma tumba real, provavelmente a de Aretas IV, é coberta por uma urna e tudo é talhado na massa de arenito.” (Jacek Rewerski, 2007).

Mapa do Oriente Próximo e localização de  Petra
Saindo do caminho tortuoso entre os blocos de rocha, chega-se a uma paisagem singular, marcada por uma depressão cercada por montanhas rochosas, mostrando-nos a grande segurança da região e sua formidável geografia que garantia muita resistência a investidas militares.

Contudo, há um relato único de domínio da fortaleza de Petra, segundo Diodoro Ateneu, um general sucessor de Alexandre, o Grande, ganhou a fortaleza em 312 a.E.C. num dia em que a cidade se encontrava desprotegida, pois somente crianças, mulheres e idosos se encontravam lá, já que os homens haviam ido participar da panegíria, feira regional que ocorria sazonalmente. Ao fim do dia, quando os homens que estavam na feira retornaram a batalha se iniciou. Os invasores foram expulsos.


O idioma falado pelos habitantes era o aramaico, mas com o grande fluxo de caravanas de mercantes dos mais variados locais, outras culturas foram anexadas e hoje temos documentos locais escritos em grego e até latim.

Já no ano 50, após o nascimento do messias católico, a cidade teria alcançado seu ápice populacional: cerca de 20 mil habitantes. “Esse número foi estimado com base em documentos e nas construções extremamente sofisticadas. Foram encontrados diversos templos – alguns deles com a altura de edifícios de 17 andares –, cerca de 3 mil sepulturas, casas e espaços comunitários”, assegura Markoe. Todavia, muitos pesquisadores ainda subestimam a quantidade de habitantes que ali poderiam viver, haja vista que a água era um grande fator limitante, já que apesar de presenta não era abundante e as fontes mais próximas situavam-se há quilômetros de distância. “Sabíamos que eles eram mestres em reter a água da chuva, mas, em 2002, foi encontrado um reservatório do tamanho de uma piscina olímpica bem no centro de Petra”, diz Markoe. “Estimamos que o sistema de aqueduto possa ter carregado 40 milhões de litros de água potável por dia.”

Palácio das tumbas reais
Entre os séculos III a II a.E.C. apareceram, na estrada de Petra a Gaza, a primeira inscrição de um rei nabateu chamado Aretas. No ano de 168 a.E.C, tal rei já sustentava o título de “Tirano dos Árabes”. Dentre outros grandes personagens, outro de enorme destaque foi Obodas I que em 93 a.E.C, derrotou, em Golã, o primeiro rei dos judeus, Alexandre Janeu. Após oito anos, participou também de outro enclave militar, onde o rei sírio Antíoco XII no Neguev, foi morto. Tais façanhas garantiram-lhe o renome de Nabateu de Ilaha, que significa deus, sendo divinizado pela população nabateia. A partir do reinado de Obodas, Petra se tornou uma verdadeira potência no Oriente Próximo.

Entretanto, tal crescimento e a influência do reino nabateu na região do Oriente Próximo não era favorável a Roma que a via como uma pedra no seu colonialismo. A influência nabateia foi tão relevante que em 31 a.E.C. o rei Malichos, incendiou dezenas de barcos que Cleópatra tentou enviar do Mediterrâneo para o canal de Suez, na batalha de Actium. Seis anos após tal batalha, o imperador romano Augusto se inimistaria com os nabateus, haja vista sua preocupação em controlar o comércio na região da Arábia Feliz. Deste modo, o Obodas I, o rei da Nabateia, enviou uma legião comandada por Syllaios (ministro do rei) para o governador romano do Egito, Aélio Galo. Ao passar pelo Egito a falta de água, e o desvio das rotas comerciais, as tropas nabateias ficaram enfraquecidas. A partir deste ocorrido, Petra jamais se recuperou.

Já no governo de Pompeu, com a criação da província da Síria em 64 E.C. e de Trajano que ordenou ao governo que fizesse da Nabateia mais uma província romana. Foi quando Roma assumiu o poder local e a região de Petra ganhou o título de metrópole sob os mandos do império romano.


A possibilidade de uma ocupação romana forçada é descartada pela maior parte dos estudioso, pois o fenômeno de romanização se deu basicamente por pressão econômica e como os nabateus eram, mais do que tudo, comerciantes, rapidamente abraçaram a devastadora economia romana.

Há um parágrafo em que Jacek Rewerski exemplifica tal união de culturas através do templo de Qasr al-Bint, que antes da invasão romana era dedicado, possivelmente, à deusa Al-Uzza. Posteriormente, com a romanização o mesmo foi restaurado e tornou-se uma provável casa da moeda na região. “Seus três arcos, de padrão greco-romano e decorados com motivos geométricos e zoomórficos, são um exemplo sugestivo da fusão dessas culturas” diz Jacek. Outro exemplo plausível dessa união foi o teatro construído pelos nabateus, durante o século I, próximo à Câmara do Tesouro, que após a remodelação romana tornou-se extremamente semelhante aos edifícios, da mesma época, encontrados hoje na Itália.
Tammuz dePetra - Espírito divino da vida para os nabateus - um dos antigos deuses árabes
Já no século III, Petra se via abandonada pelas caravanas comerciais e perdia gradativamente seu poderio econômico. No período bizantinouma diocese utilizou a cidade como local de pregação usando o templo como catedral.

Petra veio definitivamente à falência em 363 quando um forte terremoto destruiu grande parte da capital. Durante as Cruzadas, os exércitos de Balduíno chegaram a ocupar as ruínas. Em 1127, três fortins foram erguidos, cujos resquícios ainda subsistem. Mas o comparecimento dos cruzados foi breve. Em 1276, Petra foi mais uma vez citada após uma excursão do sultão mameluco Baybars. Essa foi sua última referência, até sua redescoberta em 1812. Deste modo, o ocidente perdeu todo contato, ou mesmo a memória, da cidade dos nabateus que permaneceu mais de cinco séculos perdida no deserto.

Edifício Al-Deir, utilizado conhecido como Monastério por um bispado bizantino que se instalou em Petra
Há quem diga também, que o início do declínio de Petra seja fruto de uma seca que assolou a região pouco depois da ocupação romana. Mas nada foi comprovado.

Hoje Petra é um verdadeiro tesouro arqueológico e uma das atrações turísticas mais esplendorosas da Jordânia. Como um verdadeiro memorial ao passado glorioso da região, suas ruínas continuam a encantar estudiosos e turistas de todo o planeta, talvez por seus mistérios ou por suas belezas, mas certamente por sua história que apesar de ainda não ser compreendida com plenitude, nos fornece um pouco mais sobre os grandes feitos da humanidade.

Curiosidade:
A maior participação de Petra na cultura ocidental contemporânea, deu-se no filme Indiana Jones e a Última Cruzada, servindo de cenário para as aventuras do arqueólogo estadunidense.



Notas:
* a.E.C = Antes da Era Comum
1 - Glenn Markoe é historiador da Universidade de Cincinatti, nos Estados Unidos, e um dos curadores da exposição Petra: A Cidade Perdida de Pedra, no Museu de História de Nova York. Suas citações transcritas no textos foram retiradas do site Guia do Estudante da Editora Abril.
2 - Jacek Rewerski é pesquisador e professor do Centro Nacional da França para a Pesquisa Científica.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências:
Documentário O planeta Humano - BBC

2 comentários:

  1. mto legal, ótimo trabalho de informação!

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  2. boa matéria postada, gostei muito de ler, boas fotos ilustrando a postagem, sem contar a foto onde vemos os atores HERRISON FORD, John Rhys-Davies E SEAN CONNERY ..parabéns..

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