sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Perseu, o algoz de Medusa


Vítima de um Oráculo:
Na cidade de Argos, localizada na península do Peloponeso, um rei chamado Acrísio governava por longos anos. Casado com Eurídice e pai de Dânae, orava aos deuses constantemente esperando que sua esposa lhe concebesse um filho, que pudesse herdar suas terras e o título de rei. Já com a esperança por um fio, Acrísio foi consultar o oráculo a fim de saber se seria ou não abençoado com tão desejado filho. Ao chegar no templo, o oráculo lhe profetizou algo diferente daquilo que buscava: Falava de um neto que herdaria tudo e que ao seu avô daria a morte. Temendo que o oráculo estivesse certo, Acrísio tomou medidas desesperadas - trancou sua filha, Dânae, no topo de uma torre de bronze, onde ninguém teria acesso, somente uma velha empregada que lhe trazia comida.


Lá ficou Dânae, em reclusão, durante anos até que um dia Zeus a visitou na forma de uma "chuva de ouro", introduzindo-se na torre através de uma fresta no telhado. Encantada com aquilo, a jovem ofereceu-o seu amor (em algumas interpretações do mito tal chuva seria o dinheiro fornecido por Zeus a Dânae como pagamento pela noite que tiveram).

Dânae recebendo Zeus na forma de chuva de ouro
Dânae deu a luz a um menino, um semideus, cujo nome seria Perseu. Durante bom tempo a criança foi escondida de Acrísio. Certa vez no silêncio de seu palácio, sob a luz do luar ouviu som estranho, um choro de criança. Foi até a torre e descobriu o neto que lhe foi escondido por meses. Tomado pela fúria e incrédulo na explicação sobrenatural contada por sua filha, o rei mandou executar a empregada, achando que tudo aquilo fora obra de cumplicidade da mesma. Comovido pelo pedido de perdão da filha, o rei não matou o menino, mas pediu ao seu carpinteiro que construísse uma grande arca, onde forçou a mesma a entrar junto com a criança e os atirou ao mar.

Renascido das Águas:
Para o infortúnio de Acrísio as águas de Poseidon foram generosas à mãe e seu bebê, levando a arca que os continha para o litoral de Séfiro, uma das Ilhas de Cíclades. Lá a caixa foi recolhida por Dicte, um pescador que ao retirar suas redes encontrou-a em meio aos peixes e moluscos. Acreditando que ali haveria um tesouro abriu imediatamente, porém deparou-se com uma mulher e um bebê que chorava de fome. Como era um benevolente e de boa índole, incapaz de negar ajuda a uma pessoa necessitada, ofereceu-lhes sua casa como abrigo e lá deu-lhes comida.

Dicte era irmão de Polidectes, o rei da ilha. Certo dia este veio visitá-lo, e ao chegar na casa do humilde pescador viu Dânae, ficando apaixonado por sua esplêndida beleza. Mas Perseu havia crescido e cuidava de sua mãe, levando o rei de Séfiro a crer que somente em sua ausência seria possível investir em sua paixão. Porém, o destino trouxe-lhe uma grande oportunidade. Durante uma festa que realizou em seu palácio o rei recebeu diversos presentes. Perseu então, no auge da festa, sentindo-se mal por não ter um bom presente para o rei, ofereceu-lhe a cabeça de uma Górgona. No primeiro instante o rei não deu importância, mas no dia seguinte refletindo sobre a proposta do jovem encontrou a oportunidade que tanto almejava, pois se o rapaz fosse atrás da criatura sua mãe ficaria só por um bom tempo; tempo o suficiente para conquistá-la. No mesmo dia Polidectes foi ao encontro de Perseu e disse:

- Perseu, creio que ontem me oferecestes um presente pretensioso. Quando irei recebê-lo?

Refém de sua promessa, Perseu foi até sua mãe e se despediu, recebendo um beijo de boa sorte e seu profundo desejo de sucesso na empreitada. Abençoado pela mãe e vítima de uma promessa, Perseu deixou sua casa e foi em busca da Górgona, liberando o caminho de Polidectes até Dânae, como este havia planejado.

Perseu com a cabeça de Medusa
Em busca das Górgonas:
Górgona era o nome usado para designar três terríveis criaturas irmãs que assombravam os homens da Grécia Antiga: Medusa (“a ladina”), Esteno (“a forte”) e Euriale (“a que corre o mundo”). Tais monstros eram caracterizados pelas centenas de serpentes que saíam de seus crânios, ocupando o lugar dos cabelos, além de rostos deformados. No entanto, Perseu escolheu apenas Medusa como alvo, haja vista que as outras duas eram imortais. Mesmo assim, não seria uma tarefa fácil, pois o olhar de Medusa podia transformar qualquer mortal em pedra.

O herói, em busca de auxílio, foi até os domínios das Greias, três velhas feiticeiras e irmãs mais velhas das górgonas. Embora elas não fossem solícitas, Perseu teve de pensar uma maneira de arrancar informações delas, pois as mesmas se recusaram a todo momento em fornecê-las. Com astúcia, o jovem arrancou o único olho e o único dente que as Greias tinham e compartilhavam entre si, ameaçando jogá-los no mar. Temendo a perda de ambos, as irmãs finalmente aceitaram dar as informações pedidas: "É com as ninfas que você vai encontrar os instrumentos necessários à sua vitória. Elas têm sandálias aladas que o farão correr velozmente, um saco para pôr a cabeça da Górgona e um capacete, oferecido por Hades, que torna invisível quem o usa. Se você se comprometer a devolver nossos objetos, todos estes ser-lhe-ão emprestados."

Medusa de Bernini
Após receber tais informações, o filho de Zeus foi atrás das ninfas para reivindicar os objetos prometidos pelas Greias. Antes de encontrá-las seu pai, Zeus, com pena do filho, enviou Atena e Hermes para ajudá-lo em sua perigosa aventura. Atena entregou-lhe um escudo poderosíssimo feito de bronze e Hermes uma faca em forma de foice, cuja lâmina era tão afiada quando as armas de Hefesto.

Em seguida, após receber os objetos, encontrou as ninfas e contou a elas sua terrível tarefa, pedindo-as que o ajudasse e contando o que as Greias o haviam dito. As ninfas vendo o quão terrível era tarefa do rapaz entregaram-lhe os objetos. Perseu agora equipado com o escudo de Atena, a foice de Hermes, as sandálias aladas, o elmo da invisibilidade de Hades e o saco para guardar as cabeça de Medusa, seguiu em direção ao local onde as górgonas habitavam. Ao voar sob o local, viu ao decorrer da viagem vestígios do poder das criaturas: homens e animais petrificados ladeavam a estrada e em meio às estátuas avistou algo lhe chamou atenção - um círculo formado por estátuas, onde no centro as Górgonas dormiam.



Dirigindo-se até elas, o herói evitava qualquer olhar para suas faces horrendas, andando de costas viradas e vendo tudo através do reflexo do escudo de Bronze, foi quando a górgona Medusa se mexeu. Temendo um possível ataque por trás Perseu apertou bem o cabo da adaga-foice e com um giro rápido talhou em um único golpe o pescoço da criatura que teve a cabeça arrancada. Ainda sem olhar para as outras górgonas e para a cabeça de Medusa, pegou-a pelos cabelos ofídicos e pôs no saco. Neste mesmo instante algo prendeu a atenção do herói que via brotar do chão, no local aonde foi derramado o sangue da Górgona, um belíssimo cavalo alado que saiu voando em disparada. O farfalhar das asas de Pégasos, todavia, foi alto o suficiente para despertar as outras duas górgonas que ao verem a irmã morta gritaram furiosamente em busca do assassino. Para sorte de Perseu o elmo de Hades funcionara perfeitamente e o tornara invisível; tendo a cabeça de Medusa em mãos o semideus não hesitou em fugir dali.

Com suas sandálias aladas, viajou pelo mundo antigo, sobrevoando diversos países e ilhas que ouvira em lendas e belas histórias. Quando sobrevoava o litoral da Etiópia avistou uma figura branca aparentemente sentada num rochedo que recebia fortes ondas.

Sandálias Aladas
O encontro com Andrômeda:
Ao aproximar-se da forma entre os rochedos Perseu distinguiu uma mulher, que por um instante pensou ser uma estátua, mas ao reparar melhor seu rosto, viu-lhe escorrer lágrimas. Quanto mais fixava o olhar na moça mais ele se comovia com sua aparência desoladora, aflorando dentro de si um sentimento que jamais havia sentido. Foi então, que desceu e resolveu perguntá-la o motivo de tamanha tristeza e o porquê dela estar ali enfrentando a fúria dos ventos e das ondas contra seu corpo. Envergonhada pelo estado que se encontrava e pela roupas maltrapilhas, a moça respondeu de maneira acanhada que ali estava por culpa de sua mãe que, tomada pelo orgulho, disse ser mais bela que qualquer uma das ninfas marinhas, filhas de Poseidon. O deus, por sua vez, irritado com a afronta enviou um monstro para atacar o litoral da cidade e como forma de acabar com as morte a ofereceram como sacrifício ao deus dos mares.

Perseu tomado por uma mistura de piedade e paixão disse que libertaria a moça de seu terrível destino, caso a mesma prometesse casar-se com ele. Observando a bondade do rapaz e a saída para seu triste destino, a bela jovem consentiu o pedido e naquele mesmo instante um colossal monstro marinho surgiu das águas, avançando em direção à sua oferenda. Prontamente o herói atacou, no entanto, suas investidas sobre a criatura não surtiam efeito, pois os golpes de Perseu não perfuravam suas escamas. Foi neste momento que surgiu no horizonte uma forte luz, era o sol nascente, que projetou uma enorme sombra do herói sobre as rochas, confundindo o monstro marinho que, ao perseguir a imagem projetada, abriu caminho para que o herói pudesse cravar sua espada na fresta entre as escamas do animal. O único e fatal golpe fez o monstro sumir nas profundezas do mar, enquanto Perseu segurava Andrômeda desmaiada em seus braços.

Andrômeda
Após libertar a moça, voltaram para a cidade onde a família desta vivia e contaram todo o ocorrido aos seus pais. Perseu e Andrômeda se casaram ali mesmo. Uma grande festa foi realizada pelos pais da moça que ao mesmo tempo comemoravam o casamento e a libertação da filha. Logo após o matrimônio o casal foi para Séfiro.

Chegando à ilha, ambos depararam-se com uma situação caótica: Polidectes tentava tomar Dânae por esposa à força. Perseu indignado com a atitude daquele que o fez arriscar sua vida e tomado pelo sentimento de vingança, retirou do saco o presente prometido ao rei e direcionou-lhe o olhar da face mórbida e deformada da górgona, transformando-o em pedra. Após o incidente e com a paz reinando novamente reinando em Sefiro, Andrômeda e seu marido rumaram para a Argos.

Perseu usando a cabeça da górgona contra Polidectes e seus soldados
O retorno a Argos:
Durante a viagem para sua cidade natal, Perseu e Andrômeda pararam em uma cidade, onde estava ocorrendo um grande festejo. Lá estavam sendo praticados também os jogos olímpicos e, como um bom atleta, Perseu se inscreveu. Chegara então o momento de Perseu em uma disputa de lançamento de discos. Ele se preparou, concentrou-se e lançou o disco com força, porém, algo saiu errado: talvez muita força fora aplicada durante o lançamento ou um vento interferiu na trajetória do objeto que veio a acertar um pobre espectador. Contudo, este infeliz indivíduo não era um qualquer, era Acrísio rei de Argos e avô de Perseu. O oráculo havia mais uma vez adivinhado o futuro e a profecia fora concluída, mesmo diante de todos os esforços do rei em se livrar dela. Perseu entristecido com o acidente realizou uma espetacular cerimônia para o funeral de seu infeliz avô.

Sem filhos homens que pudessem herdar o trono e tendo como único herdeiro direto o neto, Acrísio deixou o trono a Perseu que se tornou o novo rei de Argos. Diz a lenda que alguns anos após a subida ao trono de Argos, Perseu fundou a famosíssima cidade de Micenas.

Micenas e Argo
Autor/Edição: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências: 
O Livro de Ouro da Mitologia - Thomas Bulfinch 
Contos e Lendas da Mitologia Grega - Claude Pouzadoux
www.mundodosfilósofos.com

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