segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Lenda dos Três Macacos Sábios


Todos nós, pelo menos uma vez na vida, viu a clássica representação de três macacos sentados, cada um tapando um dos três principais sentidos humanos, a audição, a fala e a visão. Tais macacos são uma expressão pictórica de um antigo provérbio japonês que diz: “não ouça o mal, não fale o mal e não veja o mal”. Este provérbio inclusive é o que dá nome aos macacos que se chamam “Mizaru” (o que cobre os olhos), “Kikazaru” (o que tapa os ouvidos) e “Iwazaru” (o que não fala).

Não se sabe ao certo por quais motivos os macacos tenham sido escolhidos para representar o famoso provérbio, mas sabe-se que o macaco é um animal típico da fauna asiática, aparecendo copiosamente nos folclores japonês, chinês e indiano. Em todas estas culturas, os macacos são considerados animais sagrados, sendo o rhesus (Macaca mulatta), muito famoso na Índia e China, o Hanuman langur na Índia e o Macaco da Neve (Macaca fuscata) no Japão. Na cultura chinesa, inclusive, o macaco foi incluído no zodíaco como a nono animal, entre os outros onze, por volta do ano de 2600 a.C.

Macaca mulatta, Hanuman langur Macaca fuscata, respectivamente.

Observando o quão antiga é a presença do macaco nas culturas asiáticas, pode-se concluir que os mesmos estão presentes no imaginário popular e na vida religiosa desses povos, antes mesmo da chegada das três grandes religiões orientais, a saber: taoismo, budismo e o confucionismo.

Seus fundadores, foram três grandes filósofos importantíssimos para a cultura oriental, embora pouco sejam estudados ou mesmo conhecidos no ocidente. São eles:

- Buda (563-483 a.C), nascido na Índia, pregou seus ideais por quarenta e cinco anos, conquistando seguidores por toda Ásia. Suas ideias fundaram o chamado, budismo que chegou à China no primeiro ou segundo século e no em Japão 538 d.C.. Em 788 d.C., um monge japonês, Saicho (766-822 d.C.) fundou a seita budista Tendai no Japão.

- Confúcio (551-479 a.C) em cerca de 500 a.C escreveu o Livro Chinês dos Ritos ou Li Chi. "Li" significa regulação da conduta, costumes e leis, e "chi" significa livro. Confúcio aconselha "não olhar para o que é contrário aos Li, não ouvir o que é contrário aos Li e não falar o que é contrário aos Li" (pode-se ler nos Analectos de Confúcio XII 1). Confúcio editou o Livro dos Poemas (que data entre 1000 a.C e 600 a.C) que originalmente possuía 3.000 poemas e passou para 300 poemas. Ele disse que os 300 versos podiam ser resumidos em uma única frase: "Não pense em um mau caminho" (II.2).

- Lao Tse (604-531 a.C) um filósofo chinês, fundador do taoísmo, introduziu a tradição popular taoísta, conhecida como a crença ou prática Koshin, que chegou ao Japão a partir de China por monges budistas Tendai no fim do século X. O culto Koshin se espalhou no Japão durante os séculos 10 e 11 e floresceu até 1868. No final do período Muromachi (1338-1573), tornou-se comum a aparição dos três macacos esculpidos em pilares de pedra pelo território japonês durante o ápice da prática Koshin.

Contudo, a imagem clássica, dos três macacos sábios ou místicos, ganhou o mundo a partir do século XVII, quando foram esculpidos no Santuário Toshogu, na cidade de Nikko, no Japão. Nas paredes do templo Sagrado, existem oito painéis que provavelmente foram esculpidos por Hidari Jingoro (1594-1651). Jingoro pode ter incorporado o Código de Conduta de Confúcio em uma história de macacos que descrevem pictoricamente o ciclo de vida do homem. Todavia, como supracitado, os três macacos já haviam aparecido em pedras Koshin, décadas antes das esculturas de Jingoro. Portanto, Jingoro foi apenas o primeiro artista conhecido a exibir as imagens dos três macacos e apresentar uma data exata para suas esculturas, mas este símbolo já existia bem antes.

Três Macacos Místicos do Santuário de Toshogu
Provavelmente, existe na figura dos macacos uma junção de ideias e significações das três religiões citadas acima, em especial o confucionismo, basta conferir os códigos de conduta apresentados por Confúcio no Li Chi. Talvez a menor ligação dos três macacos seja com o budismo, porém não se pode afirmar com convicção, pelo menos com as fontes encontradas.

Atualmente, o provérbio e a imagem dos macacos místicos vem sendo associados à omissão popular diante de certos tabus, tais como os crimes sexuais (estupro e pedofilia), a violência doméstica, a homossexualidade, entre outros. Campanhas de conscientização utilizam deste símbolo para combater a omissão e tentar quebrar estes tabus que são vistos como "coisas más" e que não devem ser discutidos.

Campanha contra o abuso sexual infantil utilizando do simbolismo dos três macacos sábios
Infelizmente, poucas informações a respeito da lenda dos três macacos foram encontradas. Na grande maioria, artigos breves e pouco ricos, o que não possibilitou uma expansão do texto aqui apresentado. Sendo assim, fico devendo maiores informações e peço que, caso alguém saiba algo interessante, não deixe de entrar em contato e compartilhe comigo e com os leitores novidades a respeito do mito.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Fontes Consultadas:

Um comentário:

  1. Anacronicamente, nós , ocidentais, somos levados a observar apenas a imagem dos macacos como "não veja; não fale e não ouça o mal"; entretanto se pensarmos dentro dos preceitos do Taoismo, o contrário é válido: "veja, ouça e denuncie o mal". Para qualquer oriental isto é uma lei do Taoismo. Como no símbolo do ing;yang. Ambas existem e se completam, conforme a situação. O Taoismo nunca foi simples.

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