sexta-feira, 24 de julho de 2015

Os 700 de Téspias


Introdução:
A História, assim como todas as demais formas de ciência, é passível de falhas e negligências humanas, algumas são involuntárias, enquanto outras são recheadas de pretensões e interesses. Muita das vezes o pesquisador quer se afirmar e aproveita-se de determinadas situações para garantir tal afirmação e consequentemente aceitação no mundo científico.

Durante séculos tais problemas vêm assolando a produção científica de todo o mundo, em especial as falhas involuntárias, inerentes às convicções do pesquisador. Existem trabalhos sobre povos tradicionais como os ameríndios, em que termos como rudimentar e primitivo conotam algo negativo e atrasado, contrário à civilização ocidental, vista como progressista e revolucionária.  Este é apenas um pequeno exemplo dentre outros milhares.

Em eventos de grande importância histórica, as disparidades de interpretações entre os estudiosos são muito constantes, mas a contradição é algo intrínseco à ciência e talvez sem a mesma o meio científico inexistisse.

Enfim, essa introdução servirá de base para abordamos um dos acontecimentos históricos mais importantes da história ocidental: a Batalha de Termópilas. Certamente, não viveríamos hoje numa democracia (por mais falha que esta seja), muito menos em uma sociedade de filosofias livres e modos de vida variados. A resistência grega foi indubitavelmente um dos maiores feitos da antiguidade, senão o maior. Mas você deve estar se perguntando ainda o que todo este discurso sobre erros e negligencias científicas tem a ver com as Guerras Médicas.

Termópilas, Espartanos e Téspios:
Primeiramente vamos nos localizar no espaço e no tempo. Viajemos para a Grécia há cerca 2500 anos, mais precisamente no fim do século V antes da era cristã. O que havia naquela época? Resumindo, podemos dizer que haviam diversas cidades-Estado independentes, com suas políticas, economias e culturas específicas. Ao lado da influência de Atenas, havia Esparta, as quais dividiam o mundo grego. De um lado a cidade dita democrática que presava pela liberdade de escolha e expressão, por outro a cidade militarizada, hierárquica e monárquica. Em suma, teríamos duas grandes cidades que influenciavam outras menores, mas não menos importantes.

Vamos agora às guerras contra os medos (ou persas), que se travaram nesse mesmo fim de século. Muitos citam a importância de Atenas e Esparta nesse conflito que livrou o mundo ocidental do despotismo Persa. Certamente Termópilas ficou conhecida como a batalha onde os 300 espartanos comandados pelo grandioso rei Leônidas, resistiram gloriosamente ao ataque de milhares de Persas, dando tempo para que as outras cidades se preparassem para uma batalha ainda maior que definiria os vencedores e vencidos.

Mas perguntamos agora, e os 700 téspios? Se você se perguntou “Que téspios?” provavelmente foi vítima de uma historiografia negligente, pois além dos 300 espartanos que ficaram para a morte, outros 700 guerreiros oriundos da cidade de Téspias resistiram ao lado dos homens de Esparta. Muitos desconhecem tal fato, haja vista a importância que se dava a cidade de Esparta, muito mais influente que Téspias. Desta forma, ficou muito mais “heroico” falar das três centenas de espartanos do que dos téspios.


Ilustração representando um hoplita téspio
A diminuta cidade-Estado de Téspias foi ignorada pela história durante muito tempo, embora ela tenha perdido quase todo seu exército em nome da civilização grega, os espartanos (que perderam apenas 4% do seu exército) foram quem ganharam toda a glória da batalha. “A posterioridade lembra os 300 espartanos; poucos se recordam que mais que o dobro de téspios morreu no mesmo dia. Muito mais justo seria se associássemos o último combate nas Termópilas com os 700”, afirma o historiador estadunidense Victor Davis Hanson.

Segundo Heródoto “os aliados se retiraram por obediência a Leônidas. Os téspios permaneceram voluntariamente, declarando-se dispostos a não abandonar jamais Leônidas e os espartanos e pereceram com eles. Eram comandados por Demófilo, filho de Diadromas”.

As baixas em Termópilas foram desastrosas para Téspias que por ser uma cidade menor e mais pobre acabou destruída, posteriormente, nas mãos dos persas, já que se encontrava no caminho dos invasores, ao contrário de Esparta que estava mais ao sul.

Com o fim dos conflitos e a vitória grega, a gloriosa cidade Téspias, situada a oeste de Tebas na base do monte Hélicon, foi reconstruída e pode novamente se dedicar às atividades que exercia anteriormente, e também teve tempo para realizar suas devoções ao deus Eros, sua divindade favorita.



Conclusão:
Retomando: Esparta corria menos perigo de invasão pois não estava na rota dos persas; seu exército era muito mais bem treinado e profissional que das outras cidades e seus sacrifícios em Termópilas correspondiam a cerca 4 ou 5% do seu exército total. Téspias era uma cidade menor e menos abonada; seus guerreiros não eram grandes profissionais e muitos eram cidadãos comuns; sua localização fazia parte do caminho a ser percorrido pelas tropas médicas; suas baixas na batalha corresponderam a quase todo seu exército e ainda foi destruída pelos homens de Xerxes, sendo reconstruída somente no fim das guerras.

Por fim, perguntamos novamente, e os negligenciados e esquecidos 700 Téspios? Com quem a glória da Batalha de Termópilas deveria ter ficado? Por que eles foram tão ignorados? Bom, pelo que podemos ver o sacrifício espartano, embora importantíssimo, não foi nada se comparado ao de Téspias. E você amigo leitor, acha que esta batalha que definiu a história da Grécia devia ser lembrada sobre qual nome? 300 de Esparta, 700 de Téspias ou ambos?

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências:
- Batalhas Decisivas – Termópilas – History Channel
- A Última Batalha dos 300 – History Channel
- Revista Galileu – 2007
- A “reforma hoplita” e o desenvolvimento da cidadania na Grécia Arcaica - Diogo Pereira da Silva
- Dispositivos Táticos na Segunda Guerra Púnica e a Questão do Militarismo Cívico na Obra de Políbio - Uma Reflexão Acerca do Limite Normativo do Modelo Ocidental de Guerra - Henrique Modanez De Santanna

Imagens:
http://www.deviantart.com/art/Greek-Phalanx-201284564
http://hehasawifeyouknow.tumblr.com/post/66075483227/clearairturbulence-thespian-warrior

Um comentário:

  1. Isso é interessante nem imaginava isso , muito bom .O pessoal quando faz filmes e livros só pensam no dinheiro e escondem a verdade.

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