quarta-feira, 29 de julho de 2015

Meio Serpente, Meio Galo: conheça o terrível, Basilisco


Quando vamos falar sobre criaturas mitológicas, rapidamente vem-nos à mente seres bizarros, enormes e detentores de poderes mágicos. Os povos da antiguidade eram os mestres em descrever tais criaturas, em especial os gregos e seus sucessores culturais, os romanos, famosos por suas estórias envolvendo deuses, heróis e, principalmente, monstros, muitos monstros! E havia algo que os gregos também adoravam, o hibridismo. Não o hibridismo ortográfico, mas sim um hibridismo biológico imaginário, uma verdadeira mistura entre animais de espécies diferentes ou mesmo de humanos com animais. Quem aqui nunca ouviu falar nos famosos centauros, metade homem e metade cavalo; ou ainda dos sátiros, humanos com pernas de cabras e por aí vai.

Todavia, existe uma criatura que sempre me deixou muito intrigado desde a infância e sempre despertou meu interesse, o estranhíssimo, Basilisco (em inglês, Cockatrice). Pessoalmente, o Basilisco é uma das criaturas mais espetaculares da mitologia greco-romana, pois ela demonstra como não haviam limites para a imaginação dos povos antigos. Sua origem é de certo modo desconhecida, ou seja, não se sabe o que levou aos antigos gregos a imaginarem mas mitologicamente seu nascimento é atribuído aos ovos de galináceos que foram chocados por sapos ou serpentes. A partir desse choco surgiria uma serpente com uma crista de galo, semelhante a uma coroa, dando-lhe um caráter de superioridade. Porém, a superioridade do basilisco não se restringia à aparência, sendo considerado o Rei das Serpentes propriamente dito.

Os contos envolvendo o basilisco sugeriam a existência de diversas espécies ou tipos, sendo as mais conhecidas aquela que queimava todo indivíduo que se aproximava e uma outra que causava dores e paralisia muscular aos homens que olhassem em seus olhos. Esta última levava as vítimas à morte em questão de segundos já que a dor da paralisia era terrível. Um exemplo muito bem aplicado desta espécie de Basilisco aparece no segundo livro da série “Harry Potter” - A Câmara Secreta – que pode ser considerada bem fiel ao enredo mitológico.

Basilisco da adaptação cinematográfica do livro Harry Potter e a Câmara Secreta
Além da diferença em seus poderes, o Basilisco foi representado ao longo da história humana de várias formas, em algumas semelhante a um galo com corpo e cauda de serpente, em outras como uma serpente alada e com cabeça de galo. Portanto, não há um padrão, sendo comum vermos basilisco das mais variadas anatomias.

Um exemplo dado por Thomas Bulfinch no seu “Livro de Ouro da Mitologia” é o de Ricardo III de Shakespeare, onde Lady Ana, responde aos elogios de Ricardo em referência aos seus belos olhos: “Fossem eles os do Basilisco, para te ferir de morte!”.

Outro fator que dava ao basilisco o título de Rei das Serpentes estava na obediência de todas as serpentes diante de sua presença ou por fugirem quando ouvissem seu grunhido, deixando o caminho livre para seu mestre. Nenhuma serpente ousava enfrentar o basilisco.

Desenho de um basilisco portando uma coroa literalmente (1890)
O naturalista romano, Plínio, descreveu o basilisco da seguinte forma: "Não arrasta o corpo, como as outras serpentes, por meio de uma flexão múltipla, mas avança firme e ereto. Mata os arbustos, não somente pelo contato, mas respirando sobre eles, e fende as rochas, tal é o poder maligno que nele existe." Acreditava-se que, se algum cavaleiro conseguisse ferir ou matar o basilisco também seria morto, pois o veneno do mesmo penetraria a lança ou espada atingindo o herói e até mesmo seu cavalo. No fim das contas, a luta renderia na morte de todos os envolvidos. O veneno do basilisco era tão temido quanto seu olhar. Isto pode ser visto na alusão de Lucano nos seguintes versos:

Ele matou o basilisco em vão,
Deixando-o inerte no arenoso chão.
Corre o veneno através da lança
E mata o mouro, quando a mão alcança.


Como a mitologia foi difundida para outros povos, o mito de um ser tão fantástico não podia deixar de fantasiar outras histórias, chegando até mesmo aos contos dos santos, onde um cavaleiro iluminado pelo poder de Deus fez a serpente cair morta no chão pelo poder de sua lança ungida (alguma semelhança com São Jorge?).

Os grandes poderes dos basiliscos foram relatados por vários sábios como Galena, Aviceno, Scaliger entre outros. Embora alguns duvidassem de certas parte da lenda, a grande maioria a atestavam como verdadeira. O médico letrado, Jonston, observa que seria impossível o poder do basilisco matar sua presa com um único olhar, pois se isso fosse verdade ninguém teria sobrevivido para contar a lenda. Porém ele desconhecia o fato de que os “caçadores de basiliscos” levavam consigo um espelho ou superfície refletora, para que a criatura morresse ao ver a própria imagem.

Entretanto todo ser, possui sua fraqueza, até mesmo o basilisco. As lendas dizem que poderio dos basiliscos não era páreo para um animal: a doninha. Este sim era o inimigo eterno do “Rei das Serpentes”. Não havia basilisco que fizesse uma doninha tremer. Brigas sangrentas eram travadas entre os dois animais. A doninha quando era mordida, fugia para algum local onde houvesse algum pé de arruda, e a ingeria, para que pudesse curar-se do veneno. A arruda era a única planta que não murchava diante do basilisco e por isso era atribuída como única forma de curar tal veneno e ainda de proteção contra os olhos da serpente. Talvez daí surgiu a superstição popular de que arruda é um excelente amuleto contra mau olhado de pessoas invejosas.

Uma doninhas lutando contra um basilisco - Ilustração atribuída a Wenceslas Hollar. Observe com a doninha encontra-se envolvida em um ramo de arruda
Outro animal que espantava o basilisco era o galo ou as aves de rapina. Talvez seja pelo fato de estas aves, assim como as doninhas, terem as serpentes como uma das principais presas em sua cadeia alimentar. Alguns atribuem tal medo do basilisco pelos galos, pois estes nasciam dos ovos dos mesmos e sentiam-se inferiores e submissos.

Quando morto, o basilisco era muito útil, sendo sua pele ou carcaça colocada no templo de Apolo, ou em casas particulares para espantar aranhas, pássaros e pragas, como corvos e andorinhas. Um exemplo disso era o templo de Diana que repelia qualquer andorinha ou pássaro que sobrevoasse por perto.

Estátua de um basilisco em castelo medieval na Croácia

Por fim, vale frisar que o aspecto geral de um basilisco é semelhante a uma serpente gigante (quando digo gigante, refiro-me ao tamanho incomum, maior que dos demais ofídios) ou de uma criatura híbrida com características tanto de ofídios quanto galináceos. Seus olhos possuíam cores fortes e penetrantes como laranja, amarelo e vermelho. Seus dentes eram relativamente pequenos, mas suas presas era enormes sendo as fontes do poderoso veneno que percorria seu corpo. Seus movimentos eram ligeiros e não demonstrava qualquer contração muscular ao se mover (mais uma vez destaco o Basilisco de Harry Potter, especialmente, aquele apresentado no filme, onde a movimentação se faz extremamente fiel aos dizeres mitológicos).

Enfim, cabe a nós imaginar o que serviu de inspiração para a criação de tal mito. Seria uma espécie extinta de serpente? O temor natural dos humanos para com as serpentes, aliado a um relato exagerado do mesmo? Ou seria apenas a invenção de um adulto para assustar crianças? Talvez jamais descobriremos, mas de uma coisa temos certeza: basiliscos não existem, porém muitas pessoas adotaram sua posição com exímia perfeição!

Basilisco por Boris Vallejo
Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Bibliografia:
O Livro de Ouro da Mitologia – Thomas Bulfinch
Contos e Lendas da Mitologia Grega – Claude Pouzadoux

Imagens:
http://arvalis.deviantart.com/
http://www.ultanya.com/
http://villains.wikia.com/wiki/Basilisk_(Harry_Potter)
http://www.comicartfans.com/
https://videogamesoftheoppressed.wordpress.com/

2 comentários:

  1. Uma das criaturas fantásticas mais impressionantes.
    Gostei do blog. Adoro histórias com criaturas assim.
    Abraços Cláudia Miqueloti.

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