terça-feira, 23 de junho de 2015

Uma breve história das Armas de Fogo


O homem, dentre os vários animais que passaram por esse planeta, foi o único capaz de desenvolver armas que não faziam parte de seu corpo. Diferente dos demais mamíferos dotados de garras, dentes afiados e grande força corporal, tiveram de inventar objetos que suprissem essa carência de defesa natural. Ossos, pedras, pedaços de madeira entre muitos outros itens foram utilizados como armas durante a pré-história quando nossa capacidade de confecção de armas ainda era limitada.

Com o passar de milhares de anos, chegou-se ao que chamamos de era dos metais, período esse marcado pela elaboração dos primeiros objetos metálicos. Com o desenvolvimento dessa prática pudemos deixar de lado as velhas armas feitas de pedra e osso. Lanças, flechas e machados passaram a ter pontas metálicas e novas armas surgiram, como as grandiosas espadas. Sem sombra de dúvidas a liga metálica de bronze e o ferro foram os mais importantes elementos dessa nova era armamentista.

Besta de caça romana - Século I e II

Porém a criatividade do homem ainda não fora completamente utilizada e novas armas surgiram. Durante a Idade Média, a Europa viveu um período de estagnação científica, mas no oriente os descobrimentos permaneciam. Na China, em especial, diversos mecanismos foram criados, a famosa bússola que impulsionou as navegações europeias certamente veio de lá; as bestas, armas de madeira que atiravam setas de metal com uma velocidade e precisão superior a dos arcos tradicionais, também vieram da cultura chinesa e chegaram à Europa através do comércio. Contudo, os chineses revolucionariam ainda mais.

No século IX os alquimistas chineses que tentavam criar um elixir da vida, acidentalmente realizaram uma descoberta que mudaria a arte da guerra para sempre: misturaram enxofre, salitre e carvão vegetal, criando uma espécie de areia negra que ao entrar em contrato com o fogo, explodia. Eis que surge a célebre pólvora. A China seria então o berço das armas de fogo e dos fogos de artifício.

Ilustração de um "eruptor", um proto-canhão, utilizado a partir do século XIV pela Dinastia Ming.

Segundo os autores Miguel Onofre Domingues e Madalena Esperança Pina: 

A palavra chinesa para “pólvora” é: Huo Yao / xuou y, significa “fogo da Medicina”, estando a primeira referência às propriedades incendiárias da pólvora descrita num texto “taoista” Zhenyuan miaodao yaolüe (真元妙道要略) de meados do século IX: “aquecidos juntos, enxofre, realgar (derivado do ácido sulfúrico) e salitre com mel originaram chamas e fumo, de tal forma que as suas mãos e rostos foram queimados, e até mesmo toda a casa ardeu”

Um dos primeiros inventos utilizando-se do composto inflamável foram os "flying fires", primeiros projéteis que apareceram por volta de 904-906.

A recém-descoberta pólvora fora muito empregada pelos chineses nas inúmeras batalhas que travaram com os mongóis. Todavia, os primeiros canhões e armas não usavam projéteis, mas vários fragmentos de pedra, estilhaços e labaredas de fogo.
Foguetes chineses na batalha de na batalha de Kai-Keng entre a China e a Mongólia – 1232


Contudo, "o primeiro registro do uso da pólvora a serviço de um exército como propulsora de lanças foi descrito em 1232 na batalha de Kai-Keng entre a China e a Mongólia. (Fig. 3). Os Mongóis após o combate criaram os seu próprios modelos e pensa-se terem sido uns dos responsáveis pela sua disseminação pela Europa a par de Roger Bacon, que importou e melhorou a formula da pólvora – descrita no seu livro “De nullitate magiæ” publicado em 1216."

As primeiras armas a utilizar pólvora como mecanismo de projeção eram triviais e extremamente improvisadas; feitas de bambu, eram preenchidas com o composto explosivo e pedras. Durante as batalhas os soldados acendiam o pavio e o bambu se encarregava de lançar as pedras nos inimigos. A precisão dessas primeiras armas de fogo era horrenda e só eram eficazes a curtas distâncias. Com o tempo, foram-nas aprimorando e desenvolvendo até que por volta do XIII quando os árabes aperfeiçoaram o canhão de madeira inventado pelos chineses. O tubo agora era amarrado por cintas e anéis de ferro.


Já no século seguinte foram desenvolvidos os primeiros canhões de bronze muito mais seguros que os de madeira e bem mais eficazes. O tubo agora completamente fechado não corria o risco de explodir e matar os artilheiros. "O canhão abre caminho para a evolução tanto do armamento pesado quanto do individual", diz o historiador João Fábio Bertonha, da Universidade Estadual de Maringá, Paraná (Retirado da revista Mundo Estranho).

Foi então, após o advento dos canhões, que surgem as primeiras armas de fogo individuais portáteis, no século XV. Segundo Domingues, "a primeira arma de fogo individual usada na Europa teve origem na Hungria, com o nome de arcabuz, sendo que um em cada três soldados do exército Austro-Húngaro possuía um arcabuz". As primeiras armas utilizadas eram conhecidas como espingardas e atiravam um projétil por vez. Sua recarga era lenta e a pontaria terrível, embora fossem menos eficazes que arcos e bestas, causavam muito espanto nos exércitos inimigos, especialmente quando estes não as conheciam. O estrondo do tiro e a fumaça gerada pela combustão da pólvora eram verdadeiras armas psicológicas, causando mais medo do que danos físicos nos adversários.

Acabuzeiros espanhóis do século XVI
Existem duas teorias que tentam elucidar a chegada das armas de fogo na Europa no século XIII: para alguns pesquisadores elas entraram como produto no comércio realizado na famosa Rota da Seda. Outros acreditam que tenham sido implementadas pelos russos que entraram em contato com os mongóis que, por sua vez, haviam-nas adquirido dos chineses.

“As armas de fogo orientais não desembarcaram somente na Europa: também em meados do século XIII seu uso se disseminou entre os árabes. No entanto, alguns estudiosos afirmam que armamentos alimentados com pólvora já eram usados pelos islâmicos desde a Batalha de Ain Jalut, em 1260.” (Trecho retirado de “De onde veio... a arma de fogo – História Viva”)



No século XV surgem os arcabuzes. Inventados na primeira metade de 1400 pelos artesãos do Sacro Império Romano-Germânico, sendo uma das primeiras armas pessoais portáteis da época. Pesavam pouco mais de 5 kg e calibres em torno de 15 e 20 mm. Seus tiros podiam atingir mais de 500 metros de distância, mas raramente eram empregadas em longas distâncias, já que sua acurácia era irrelevante a partir dos 150 metros.

Conforme os autores supracitados, no final do século XV as armas de fogo eram apenas um complemento aos besteiros, mas em 1550 a sua importância estratégica tinha suplantado o uso da besta como arma principal de guerra, quer nos campos de batalha europeus quer nos do Novo Mundo. O mosquete, que sucedeu ao arcabuz, foi uma das primeiras armas de fogo usadas em larga escala pelos soldados de infantaria entre os séculos XVI e XVIII. A arma era carregada pela boca com pólvora e por aí era igualmente colocado o projéctil. O sistema de disparo consistia em mechas incendiárias. O alcance máximo que um mosquete poderia alcançar era de cerca 90 a 100 metros.


Os arcabuzes chegaram também ao Brasil e demais países da América durante as grandes navegações, sendo amplamente implementados nas conquistas dos conquistadores portugueses e espanhóis. Foram cruciais na conquista dos impérios asteca e incas que sequer utilizavam armas de metal.

Além do arcabuz, havia também o mosquete, uma espécie de evolução do primeiro e que era mais utilizado pelos exércitos do século XVI e XVII. Era mais pesado que o arcabuz, em torno de 10kg. Para utiliza-lo “o soldado precisava introduzir o pavio e a bala pela boca do cano. Como a operação demorava alguns minutos, depois do primeiro tiro era muito mais fácil usar a espada. Mas a pistola não demorou a ser inventada, a partir de um mosquete reduzido. Ela passou, então, a ser usada nas guerras, como arma reserva, o último recurso de defesa em situações de emergência”. Foi utilizado concomitantemente ao uso das bestas, até que sua evolução no século XVIII a substituiu inteiramente.

Mosqueteiro inglês - Século XVIII
A partir do século das luzes as armas de fogo ganharam maior prestígio e status e tornaram-se as principais armas das guerras modernas. Aos poucos foram aposentando as espadas e lanças, inserindo-se facas e pequenas lâminas nas pontas das mesmas, que ficaram conhecidas como baionetas.

Nos séculos seguintes o advento dos rifles de repetição e revolveres as armas de fogo consolidaram-se de uma vez por todas e as armas brancas tornaram-se meros itens complementares nos exércitos.

Abaixo um infográfico com as principais armas utilizadas em território norte-americano e suas respectivas datas de atuação até o século XIX.


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências:
As Primeiras Lesões por Armas de Fogo– novo paradigma para o cirurgião militar – Ambroise Paré - Miguel Onofre Domingues e Madalena Esperança Pina

Um comentário:

  1. Meu Parabéns pelo blog, diferente de alguns sites com muita superficialidade aqui você entra de cabeça nas lendas e histórias, trazendo um conteúdo riquíssimo. Por favor não pare de postar, você está fazendo um excelente trabalho

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