quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Touro de Bronze (Touro de Fálaris)


Como sabemos, desde os primórdios de nossa espécie, o homem veio criando tecnologias e máquinas para matar seu semelhante. Elaboramos desde simples lanças feitas com madeira e pedra, até engenhosos maquinários com o melhor da tecnologia de suas épocas. Não há dúvidas de que a evolução desses objetos tenha atingido níveis alarmantes, como as armas de destruição em massa. Contudo, todos eles, dos mais rudimentares aos mais sofisticados, foram inventados com um único propósito: tirar vidas.

Mas para muitos não bastava tirar a vida de outros indivíduos, a morte deveria ser um "espetáculo": lento, doloroso e cruel. Com isso, criaram aparelhos de tortura horrendos, que eram capaz de trazer às suas vítimas mortes extremamente dolorosas. E o pior de tudo, haveria alguém assistindo tudo aquilo e aproveitando cada segundo do "show". Dentre esses métodos e aparelhos de tortura mais cruéis já utilizados pelo homem está o Touro de Bronze, também conhecido como Touro de Fálaris, cuja invenção é atribuída ao tirano Fálaris de Agrigento na Sicília, no século VI antes de nossa era. Outro nome comum para o objeto é Touro Siciliano devido ao seu local de origem.



Além de Fálaris, houve um artista/arquiteto que realizou tal obra, sendo conhecido como Perilo de Atenas. Dizem que após terminado o Touro, Perilo entrou no objeto para mostrar ao tirano como o mesmo funcionava, porém Fálaris traiçoeiramente trancou o arquiteto dentro do Touro e acendeu uma fogueira logo abaixo. Em poucos instantes o pobre Perilo estava a ser tostado e inalava a fumaça produzida por sua própria carne queimando. Para fugir de tal fumaça o único meio era respirar por uma tubulação em espiral que havia próximo a região interna da boca do animal de bronze, sendo esta por sua vez programada para emitir um som semelhante ao de um berrante, simulando o mugir de um bovino.

O destino de Perilo é incerto, alguns acreditam que o próprio arquiteto foi vítima de sua invenção. Outros dizem que Perilo ainda foi retirado com vida, mas seus ferimentos eram tão intensos que o jogaram de um abismo para que não soubessem do ocorrido. Já uma terceira versão diz que Perilo foi retirado vivo e posteriormente teve seu momento de vingança durante um levante contra o governo tirânico de Fálaris, no qual Perilo e outros revoltosos pegaram o monarca, prenderam-no no interior do Touro e o executaram em praça pública. Posteriormente, a esfinge foi atirada ao mar, para que nunca mais fosse encontrada.


O mecanismo por trás da terrível máquina era bem simples, apenas alguns elementos básicos disponíveis na época foram utilizados, contudo seus efeitos eram assombrosos. O Touro era basicamente uma caixa de bronze, uma liga metálica muito comum no período em que foi criado, que é um excelente meio de propagação de calor, esquentando rapidamente. Seu interior era oco e feito sob dimensões adequadas para comportar uma pessoa de estatura padrão. Ali dentro havia uma tubulação muito bem trabalhada que estava ligada à saída de ar na boca da estátua. Ao mesmo tempo haviam dois orifícios que simulavam as narinas do bovino e por onde a fumaça gerada sairia semelhante à respiração de um touro furioso.

Às vezes é complicado imaginar como algo tão bem elaborado poderia ser usado para um objetivo tão nefasto, porém a realidade era esta: por trás do belo monumento em forma de touro havia um terrível instrumento de tortura.

A válvula contida na tubulação assemelhava-se à de um trompete, o que fazia com que os gritos da vítima fossem emitidos pelo lado de fora numa frequência semelhante ao de um mugido. Enquanto as paredes de metal barravam as ondas sonoras originais.

Após colocada uma pessoa lá dentro, nada ela havia de fazer, a não ser esperar pela morte, pois logo abaixo da barriga da estátua seria acesa uma fogueira e esta aqueceria o bronze, gerando um verdadeiro forno e a superfície em contato direto com as chamas tornar-se-ia uma frigideira. Outra questão interessante seria o tempo gasto até que pessoa dentro do touro morresse ou desmaiasse por desidratação, que estava em torno de dez minutos. Durante este tempo, a vitima ficaria agonizando e alimentando a sonoridade do objeto de metal, fazendo com que este parecesse estar vivo.


O mais impressionante era que a esfinge de bronze era utilizada em reuniões e jantares da elite local, enquanto o tirano Fálaris e seus convidados apreciavam uma boa refeição, ao lado da mesa estaria o touro, e lá dentro uma pessoa estava a berrar durante a queima de seu corpo. Para disfarçar o cheiro de carne queimada, eram adicionados ao interior da esfinge, ervas e plantas aromáticas, fazendo com que o cheiro da fumaça lançada pelo touro parecesse mais um incenso do que o cheiro de carne torrando.

O Touro naquela época era um símbolo do poder absoluto, o poder atribuído aos reis e tiranos, por isso certos seres como o Minotauro eram tão corriqueiros na mitologia greco-romana.

Quanto ao destino do Touro, existe a versão citada anteriormente, onde este foi jogado ao mar e uma segunda versão, em que após a cidade-Estado de Agrigento ser tomada por Himilcar, dentre os objetos pilhados estava o touro que foi levado para Cartago. Timeu, um historiador clássico que descreveu a batalha que levou a derrota de Cartago perante Roma, afirmava que o touro jamais existira, todavia, quando esta mesma cidade foi pilhada por Cipião Emiliano, um dos objetos devolvidos a Agrigento era o Touro.

Por fim, pode-se dizer que instrumentos de tortura não são invenções típicas da Idade Média, ou mais especificamente do tribunal da Inquisição como imaginamos. Métodos piores e tão perversos quanto aqueles usados pela Igreja foram criados na antiguidade, sendo o Touro de Bronze um enorme exemplo disso.

Uma vítima morria dentro do Touro, para que o mesmo adquirisse vida...


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Fonte:
Documentário - Máquinas Mortais - History Channel

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