sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Castelo da Torre de Garcia D'Ávila


1 – Introdução:
Em geral, atribui-se o período Medieval somente à historiografia do Velho Mundo, mais enfaticamente à Europa, continente esse que desenvolveu uma cultura singular durante os séculos V e XV. Contudo, uma outra linha histórica sugere que a Idade Média não se desintegrou quando Constantinopla foi tomada pelos turco-otomanos. O medievo permaneceu vivo por muitos séculos na vida dos europeus e sua mentalidade permanece até hoje enraizada em algumas comunidades do mundo. Inclusive, muitos elementos da era medieval também chegaram às Américas dentro da bagagem cultural que os navegantes ibéricos trouxeram.

É com base nessa perspectiva, que criamos aqui na Taberna Do Fauno tópico intitulado “O Medievo no Brasil” que embora tenha sido pouco explorado pela dificuldade de pesquisa, artigos de grande importância para o conhecimento de qualquer brasileiro. O primeiro deles, "Cavalhadas: uma herança medieval no Brasil", refere-se à prática das cavalhadas, tradição dos países ibéricos durante a era medieval que foi difundida pela colônia brasileira e é praticado até atualidade.

Desta forma, não é de se espantar que os portugueses também trouxeram para o Brasil, elementos ainda mais marcantes da cultura medieval, tendo inclusive, construído um castelo no Nordeste do Brasil, monumento este que foi considerado como o único exemplar medieval em toda a América, muito embora haja inúmeras discussões e controvérsias entre os historiadores. O presente artigo é uma compilação de informações retiradas e adaptadas das fontes explicitadas nas notas e nas referências bibliográficas.


2 – O Castelo:
Conhecido como Castelo ou Casa da Torre de Garcia D’Ávila, o único monumento de traços medievais construído em terras americanas, encontra-se no litoral norte do Estado da Bahia. Suas majestosas ruínas denominadas também de Torre de Garcia D'Avila, Torre de Tatuapara, Solar da Torre ou ainda Solar de Tatuapara, ficam a cerca de 80 km ao norte de Salvador, e 55 km do Aeroporto Deputado Luís Eduardo Magalhães, acompanhando-se pela Estrada do Coco, Município de Mata de São João, próximo à Praia do Forte.

O Castelo da Torre de Garcia D'Avila é considerado a primeira grande edificação portuguesa construída no Brasil. O castelo data de 1551 e como já foi dito é “exemplar único de Castelo em estilo medieval construído na América, conforme Borges de Barros, e foi a sede do maior latifúndio do mundo”.¹

A esplêndida Casa da Torre foi, e ainda é, objeto de grande vislumbre para historiadores e turistas que visitam a região, tendo sido estudada por pesquisadores de diversas áreas e conturbado a imaginação de muitas pessoas que atribuíram-lhe simbologias e produções imaginárias. Talvez esse esforço imaginativo de certos pesquisadores, tenham levado a caracterizá-lo como um monumento medieval, enquanto outros discordam plenamente dessa perspectiva. Segundo Pessoa (2003, p.60)

“Entre lendas, fantasias e especulações que cercam o local, só muito recentemente iniciaram-se estudos arqueológicos mais consistentes sobre a construção e o seu entorno, de forma que talvez se torne possível visualizar com maior segurança os aspectos próprios da vida na sede dessa grande propriedade (...)”

Vale destacar que o castelo fica em uma localização estratégica, numa colina elevada, com visão para o mar. Tal posicionamento era de suma importância, pois além da função administrativa, o castelo possuía funções militares, sendo um pequeno forte que contribuía para a defesa da região contra possíveis ataques vindos do oceano.


3 – O proprietário:
"Garcia d’Ávila (c.1528 - 1609) viveu muito tempo como agricultor e criador em Rates, em Portugal e amigo de Tomé de Sousa (algumas versões o apontam como pai de Garcia), gozava de larga estima por parte do pai deste – o Prior. De sua imaginação jamais saiu a lembrança da Vila portuguesa e tanto é assim que ao fundar sua torre dera-lhe o nome de S. Pedro de Rates".²

Garcia desembarcou na Bahia em março de 1549, junto a Tomé de Sousa - primeiro governador geral do Brasil, sendo designado, em primeiro de junho, como "feitor e almoxarife da Cidade do Salvador e da Alfândega".

A princípio, como muitos funcionários da coroa, Garcia D’Ávila foi subordinado a Tomé de Sousa, do qual foi criado e recebeu “proteção”. Naqueles tempos, os pagamentos raramente eram realizados em moeda e o primeiro salário de Garcia foi efetuado com duas vacas e a partir delas iniciou sua vida de sucesso na colônia.

Pelo empenho enérgico, durante a construção da Capital, Garcia d'Ávila foi ressarcido com terras de Sesmarias, acolhendo-se primeiramente em Itapagipe, em seguida em Itapoã e por fim em Tatuapara, tornando-se o primeiro bandeirante do Norte.

“Ao morrer, em 22 de maio de 1609, era Garcia d'Ávila o maior potentado da Colônia e, como vereador do Senado da Câmara, foi considerado uma das mais importantes individualidades políticas do seu tempo”¹.



4 – Arquitetura do Castelo da Torre:
“A primeira etapa da construção do Castelo tem suas paredes de tijolos e é composta de uma Capela sextavada e abobadada, em estilo medieval canônico, e salas contíguas recobertas por cúpula e abóbada de aresta com arcos diagonais, iguais às do Paço de Sintra, em Portugal. O Castelo, segunda etapa da construção, foi construído em alvenaria de pedra e se desenvolve simetricamente em torno de um pátio de honra, em estilo renascentista, onde uma escadaria dupla conduzia ao primeiro pavimento. Uma terceira fase da construção, datada do início do século XVIII, também em pedra, amplia o Castelo”.¹

Castelo de Garcia d'Ávila – Visão Aérea das Ruínas
5 – A Fundação Garcia D'Ávila:
“A Fundação Garcia D'Ávila, nascida em 1981, hoje é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), responsável por profundas intervenções nos setores Educacional, Ambiental, Histórico-Cultural e Social na região de Praia do Forte, proporcionando uma melhor qualidade de vida para aquelas populações através do desenvolvimento sustentado, pilar fundamental da conversão do indivíduo em cidadão. A Fundação também é responsável pela restauração, preservação e manutenção da Casa da Torre”.³

“A edificação, tombada pelo IPHAN em 1937, está inserida no Parque Histórico e Cultural, do qual também fazem parte o Sítio Arqueológico, a área no entorno destinada à realização de eventos e um Centro de Visitação com 1.700m²,onde está exposta a maquete do Castelo e instalados salões para exposições, loja, salas para reunião, audiovisual e áreas administrativas”.³


6 - Conclusões:
Muitos historiadores questionam a tese que conferem um caráter medieval ao Castelo da Torre, afirmando que são obras do imaginário dos pesquisadores que tentam estender o medievo às Américas. Embora muitos pesquisadores tenham um posicionamento contrário ao apresentado ou a qualquer tipo de tentativa historiográfica de estender a Idade Média para o novo mundo, acredito que, neste caso, seja sensato pensarmos por um viés mais cultural do que estrutural, econômico ou mesmo temporal. 

A Idade Média não deixou de existir em uma data específica. Processos culturais duram séculos e construções sociais não desaparecem pelo simples fato de terem mudado de local ou de época. De modo geral, o Castelo de Garcia pode ser sim considerado um castelo aos moldes medievais com base na arquitetura e na forma como foi construído, ainda que não seja um exímio castelo medieval. Não só ele, mas existem muitos resquícios, especialmente culturais, nas Américas, que são uma herança medieval, mesmo que frágil. Um exemplo muito interessante é a grande religiosidade das zonas rurais, os mitos e lendas, a crença em seres fantásticos, certamente são heranças de um pensamento medieval.

Enfim, tratando-se de uma ciência humana, onde sujeito (homem) acaba por se inserir no objeto (humanidade/sociedade), a história felizmente (ou infelizmente), é passível de várias interpretações que acabam por influenciar os resultados da pesquisa. Desta forma, torna-se complexo sentenciar a validade das afirmações favoráveis à caracterização do Castelo de Garcia como um monumento medieval, porém não podemos discordar que as semelhanças existem e que independente da visão adotada, tal edifício sobrevive por quase 500 anos, tornando-se um belo resquício da vida dos primeiros colonizadores, devendo ser preservado e ainda muito estudado.


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Notas:
1 – Trechos compilados do site: www.casadatorre.org.br
2 – In: BARROS, Francisco Borges de. O Castelo da Torre de Garcia d’Ávila. BAHIA. Annaes do Archivo Público BA Bahia. Volume XXIV.
3 – Trechos compilados do site: www.fgd.org.br

Referências:
PESSOA, Ângelo Emilio da Silva. As ruínas da tradição: 'A Casa da Torre' de Garcia D' Ávila - família e propriedade no nordeste colonial. 2003. Tese (Doutorado em História Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-03102005-103312/>.

5 comentários:

  1. Muito bom o post. O povo acha que só existem coisas legais lá fora e é legal saber de coisas bacanas que existem no Brasil. Outra coisa legal é vc citar fontes e fazer seu texto e não ficar copiando coisas da internet.

    ResponderExcluir
  2. Um artigo para entretenimento, mas com seriedade e metodologia científica. Muito bom!

    Já considerou escrever um artigo também sobre a Fortaleza dos Reis Magos, em Natal? Embora não seja um forte medieval da forma como está no imaginário popular, há elementos que podem ser identificados como medievais (a presença de ameias, por exemplo, embora no caso da Fortaleza dos Reis magos elas servissem mais pra canhões do que pra arqueiros...).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nunca havia lido ou ouvido algo sobre essa fortaleza, meu caro. Irei dar uma pesquisada e quem sabe posso escrever um artigo. Agradeço os elogios e a sugestão. Abraço.

      Excluir
  3. preciso saber quais foram os casais que ja moraram no castelo garcia d´vila

    ResponderExcluir