quarta-feira, 27 de maio de 2015

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov. Pintado em 1887.
O famoso episódio do Apocalipse é um dos temas mais explorados e temidos pelas pessoas que seguem a fé cristã. O juízo final, como também é conhecido no Novo Testamento, marcaria o fim do mundo dos homens e o retorno de Jesus à Terra para julgar os pecadores. Ao lado da Parúsia, outros eventos sobrenaturais e simbólicos anunciariam o apocalipse, dentre eles a descida do exército celestial de anjos e a cavalgada dos chamados Cavaleiros do Apocalipse. Estes formariam um quarteto, sendo cada um caracterizado por seus ornamentos, armas e montarias.

Os quatro cavaleiros foram descritos pelo Apóstolo João em sua terceira visão profética no livro do Apocalipse (último livro do Novo Testamento). Eles seriam anunciados pelos quatro animais que cingem o trono de Deus após a abertura dos quatro primeiro selos. “Os primeiros quatros selos (6,1-8) tratam de quatro calamidades que assolam a terra. São representados por quatro cavalos (branco, vermelho-fogo, negro e esverdeado). A abertura desses selos respeita o mesmo quádruplo esquema: abertura do selo pelo Cordeiro; voz de comando de um dos quatro Seres Vivos; surgimento do cavalo; descrição do cavaleiro” (Almeida, 2008):

"E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer. E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê. E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada. E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão. E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho. E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra." (Ap 6,1-8).

Como se pode ver na sequência dos eventos o Cordeiro abre os selos, um a um, enquanto os quatro Seres Vivos, sucessivamente, proferem a ordem (“Vem, e vê”) e assim os quatro cavalos apresentam-se, sendo eles marcados por uma cor (Branco, vermelho, negro e amarelo-esverdeado). Os cavaleiros são alegorias às calamidades que assolariam a terra dos homens durante o juízo final, sendo elas a conquista (branco), a carnificina/guerra (vermelho), a fome (preto) e a morte (cinza ou esverdeado).


1 - O cavalo branco:
Vi quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos, e ouvi o primeiro dos quatro Seres Vivos dizer como estrondo dum trovão: “Vem!” Vi então aparecer um cavalo branco, cujo montador tinha um arco. Deram-lhe uma coroa e ele partiu, vencedor e para vencer ainda (Ap 6,1- 2).

A cor branca e a coroa seriam símbolos da vitória, da conquista em guerra. Logo o primeiro cavaleiro a ser anunciado é o da Conquista, o vencedor montado no cavalo branco e portador da coroa. Segundo Almeida (2008), o arco – arma que atinge um alvo longínquo – entregue ao cavaleiro evoca o frequente tema do arco e das flechas de Deus no Antigo Testamento, isto é, seus julgamentos e seus castigos (cf. Dt 32,41-42; Hc 3,8-9; Lm 2,4). O valor semântico do arco e da coroa está claramente ligado à guerra, os quais eram símbolos típicos do potencial guerreiro da época. Além disso, o arco era a arma típica dos guerreiros bárbaros (de acordo autora poderia fazer alusão aos partos que era um povo “hostil” no sudeste da Ásia do Mar Cáspio, onde hoje é o Irã. Eles venceram várias batalhas significativas no ano 53 a.C. e 35 a.C. e em outros tempos derrotaram os romanos no Rio Tigre, em 62 d.C.)

Em algumas interpretações o cavaleiro branco é associado a Cristo e tornou-se uma associação corriqueira que vem dos tempos de Irineu (202 d.C.) e passou por diversos outros autores, chegando, inclusive, à atualidade.

A comparação teria sido fruto de Jesus Cristo representar o sagrado/celestial assim como a cor branca que define a montaria do primeiro cavaleiro. Ao contrário da visão que aponta esse cavaleiro como o anticristo, essa perspectiva coloca-o como o próprio Jesus. Em segundo lugar, o cavaleiro recebe uma coroa, o que está em concordância com Ap 14,14, cujo texto refere-se ao Cristo usando uma coroa. Terceiro, o cavaleiro sai para “vencer!” (conquistar) e no Apocalipse o verbo nikal, “vencer” (conquistar), ocorre normalmente para referências a Cristo e seus seguidores (ALMEIDA, 2008).


2 – O cavalo vermelho:
Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo Ser vivo dizer: “Vem!” Apareceu então outro cavalo, vermelho, e ao seu montador foi concedido o poder de tirar a paz da terra, para que os homens se matassem entre si. Entregaram-lhe também uma grande espada (Ap 6,3-4).

O segundo cavalo e seu montador correspondem notoriamente à guerra e a violência, sua cor vermelha fogo pode estar ligada aos incêndios tragos pelas batalhas ou ao sangue derramado, ou até mesmo aos dois. Seu objetivo era trazer o caos a terra, “o poder de tirar a paz da terra”. Logo a guerra é o evento que precede a ascensão de um novo governo, de um novo poder dominador.


A fisionomia do cavaleiro não é apresentada na descrição, porém o fato de lhe ser entregue “uma grande espada” remete-nos às mesmas comparações históricas que foram feitas ao arco e a coroa do primeiro cavaleiro. De acordo com Maria Almeida, “desde o Antigo Testamento fala-se de uma espada escatológica com a qual Iahweh atingirá o Leviatã (Is 27,1) ou Edom (IS 34,5). Mais tarde, nos apocalipses do judaísmo tardio, volta-se a encontrar esta espada nas mãos dos filhos de Israel, tirando finalmente vingança dos inimigos deles (En 90,19.34; 91,12). A imagem pode, porém, conotar o incitamento divino que leva os infiéis a se matarem entre si (cf. En 88,2)”.


3 - O cavalo preto:
Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro Ser vivo dizer: “Vem!” Eis que apareceu um cavalo negro, cujo montador tinha na mão uma balança. Ouvi então uma voz, vinda do meio dos quatro Seres vivos, que dizia: “Um litro de trigo por um denário e três litros de cevada por um denário! Quanto ao óleo e o vinho, não causes prejuízo” (Ap 6,5-6).

O penúltimo cavalo, que é marcado pela cor negra, representa a pobreza, a fome e a miséria. Todavia não é a fome involuntária, causada por eventos naturais, mas sim uma fome intencional, causada por motivos estratégicos. A fome que é acompanhada pela guerra. É por isso que este cavaleiro trás consigo a balança como símbolo da medida e racionalização do alimento. Sua cor negra denota fatalidade. “Um litro de trigo por um denário e três litros de cevada por um denário”. A frase denota o preço abusivo do trigo e da cevada que eram produtos básicos da alimentação popular daqueles tempos. O salário por um dia inteiro de trabalho era um denário, desta forma, trabalhava-se todo um dia para optar por apenas um dos insumos.


4 - O cavalo esverdeado:
Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto Ser Vivo que dizia: “Vem!” Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu montador chamava-se “a Morte” e o Hades o acompanhava. Foi-lhes dado poder sobre a quarta parte da terra, para que exterminasse pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra (Ap 6,7-8).

O quarto e último cavaleiro é sem dúvida o mais emblemático e amedrontador que ao contrário dos outros três não é identificado pelo objeto que carrega, mas sim pelo próprio substantivo, “a Morte”. Ao seu anúncio segue o personagem Hades, símbolo greco-romano para os mortos. Seu cavalo de cor esverdeada conota a cor da putrefação da carne, a cor dos cadáveres e da peste. Ele é uma forma de síntese das atividades dos três cavaleiros precedentes (percebam o plural em “Foi-lhes dado”).

Uma observação interessante realizada pela autora demonstra “o contraste entre o primeiro cavaleiro, ‘nascido para vencer’(v.2), e o quarto, com o nome emblemático de ‘Morte’ (v.8). Quem sabe se queria indicar o modo próprio de vencer matando (‘foi-lhes dado o poder de matar’, v.8)”.

Neste sentido a Morte se utiliza de quatro modos para retirar a vida de suas vítimas, sendo elas a espada (que no caso não é machaira, mas rhomphaira, espada comprida usada para guerra. Aqui se trata da morte provocada pela guerra); a fome como subproduto da guerra, cidades sitiadas, falta de transporte com alimentos; pestilência ou mortandades, as pragas crescem com a pobreza, a fome e as guerras; as bestas feras da terra, que devoram tudo que encontram.

Conclusão:
Desta forma, como mostrado no texto e nas citações retiradas do artigo presente nas referências, os quatro cavaleiros apocalípticos não podem ser analisados separadamente, pois a forma que são apresentados pelo apóstolo João leva-os a uma interdependência, na qual suas missões encontram-se em um sequenciamento. O primeiro é aquele que vem com o arco e a coroa para conquistar; o segundo trás a espada para tirar a paz da terra através da guerra; o terceiro trás a fome como subproduto da guerra; e o último sintetiza as “catástrofes” com a morte pela guerra, fome e as pestes geradas pelos mortos. Assim encerra-se o circulo dos quatro cavaleiros que são uma unidade alusiva ao mundo de violência e desigualdade do contexto histórico da época do império e que é estendida a alegoria bíblica do Apocalipse.


Obs.: O texto foi trabalhado com as informações prestadas no artigo “Os Cavaleiros Apocalípticos” de Maria Aparecida Almeida.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referência:
- ALMEIDA, M. A. A. ; BAGNIEWSKI, A. B. ; COSTA, Júlia Câmara da ; FERREIRA, João Cesário Leonel ; Izidoro, J. L. ; DUARTE, Denis . Os Cavaleiros Apocalípticos. Oracula (São Bernardo do Campo), v. 7, p. 3-16, 2008.

- Novo Testamento - Editora Loyola, SP (2001)

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