domingo, 24 de maio de 2015

A Lenda da Mula-Sem-Cabeça


1- Introdução:
Construído a partir de uma sociedade marcadamente rural, fundamentada na religiosidade católica e miscigenado às culturas indígenas, o folclore brasileiro pós-colonial desenvolveu-se através de mitos e lendas, onde o sagrado e o profano eram os limites entre o bem e o mal. Em muitos dos mitos, a tradição católica sobressai à indígena e vê-se uma incrível demonstração da enorme influência da igreja na vida da população brasileira. Entre essas lendas totalmente embasadas no fervoroso catolicismo brasileiro e nas superstições típicas das regiões rurais, está a Mula-Sem-Cabeça, a qual o presente texto pretende explanar de maneira um tanto breve, devido à escassez de uma bibliografia confiável sobre a mesma.

Como supracitado, não existem muitas fontes escritas disponíveis sobre a lenda da Mula-Sem-Cabeça, nas quais pudesse basear informações confiáveis, haja vista o baixo número de artigos e livros que visam explanar a temática. Com base nisso, reuniu-se no presente texto as informações convergentes em diversas fontes consultadas e, com isso, tentou-se formular um artigo breve, porém sólido sobre o mito da Mula-Sem-Cabeça.


2 - A Lenda:
De acordo com a maioria das fontes, a lenda da Mula-Sem-Cabeça surgiu com base nas tradições mitológicas europeias, nas quais eram comuns criaturas híbridas, isto é, metade humano e metade animal. A "escolha" da mula como animal protagonista da lenda provavelmente remonta à larga utilização do mesmo pela população do período colonial. Esses muares de baixa estatura e de grande resistência física, capazes de carregar grandes quantidades de produtos por longas distâncias, em muitos casos eram muito mais prestativos que os equinos de grande porte, inclusive foram muito utilizados pelos famosos tropeiros, que rasgavam o vasto território brasileiro com suas mercadorias. Portanto, por ser um animal extremamente familiar e comum no cotidiano, a mula tornou-se o principal elemento do mito. Outra versão do mito aponta para uma origem européia e que nasceu por volta do século 12, podendo ter sido inspirado no fato de os clérigos usarem a mula como meio de transporte antigamente. Essa lenda também é comum na Argentina e no México.


Em consonância à tradição rural, temos o catolicismo e seus simbolismos que foram de suma importância para a consolidação da lenda. Não há lugar no Brasil que não tenha ouvido falar da mula que expele fogo pelas narinas e assombra povoados nas noites de sexta-feira. Mas o que levava ao aparecimento das Mulas-Sem-Cabeça?

Segundo a maioria das fontes, a Mula-Sem-Cabeça era produto de uma maldição recebida por uma mulher que se atreveu a manter relações sexuais com um padre. Como pode-se ver, a figura do padre, como um homem sacro, não podia ser misturada aos pecados das pessoas comuns e quando isso ocorria, algo ruim deveria acontecer. Em algumas lendas, a mulher que se deitava com um padre seria amaldiçoada juntamente com a criança, caso ela engravidasse. Se o bebê fosse um menino, tornar-se-ia um lobisomem. Caso desse a luz a uma menina, transformar-se-ia, na vida adulta, assim como a mãe, uma Mula-Sem-Cabeça.


Apesar de haver um consenso na forma como a Mula-Sem-Cabeça era "concebida", algumas descrições da mesma variam de região para região. Em alguns casos é descrita como um animal, no qual a cabeça realmente inexiste e em seu lugar emana um grande fogaréu que ilumina as noites de sexta-feira. Em outras versões, é descrita como uma mula aparentemente comum, mas que expele fogo pelas narinas e boca, ou ainda pelos olhos, além de ter os cascos das patas em chamas.


Vale ressaltar que em todas as variantes da lenda, a transformação da mulher pecadora que burlou a lei do celibato sempre se dá em três períodos específicos: noites de lua cheia, à meia-noite das quintas para as sextas-feira ou ainda nas Sextas-feiras Santas.

Mesmo que não possua cabeça, dizem que quando a Mula-Sem-Cabeça relincha, ouve-se também os soluços e gemidos de dor da mulher amaldiçoada. Para acabar com o encanto, é preciso que alguma pessoa de grande destreza e coragem, consiga remover o freio de ferro que se encontra na boca da mula, solução essa um tanto contraditória, pois como foi dito, em certas versões do mito, o animal não possui cabeça. Outra forma de acabar com o terrível castigo da mulher, seria se o padre com a qual se relacionou, amaldiçoasse-a sete vezes durante uma missa. Contudo, se o padre não o fizesse com muita fé a maldição permaneceria e a hóstia sagrada sumiria de suas mãos durante a consagração, denunciando a todos os presentes na missa de que aquele padre estava ligado à Mula-Sem-Cabeça.

A ferocidade e a violência são outras duas características muito difundidas sobre essa criatura assombrosa. Dizem que a Mula-Sem-Cabeça não perdoa ninguém, atacando todos aqueles que cruzam seu caminho, deferindo coices e pisoteando suas vítimas até seu corpo não apresentar nenhum sinal de vida. Além disso, aqueles que juram tê-la visto, afirmam que ela destrói tudo o que estiver em sua frente, galopando e pisoteando com suas patas flamejantes.

É interessante destacar também, que existe na mitologia catalã uma criatura bastante semelhante à Mula-Sem-Cabeça brasileira, a chamada Muladona, que inclusive pode ser sua predecessora mitológica. Conta-se que a Muladona (Mulher-mula) seria uma donzela que por não ser religiosa e irreverente aos assuntos sagrados, foi transformada em mula para pagar por seus pecados. Desde então, passou a cavalgar pelas montanhas e a assombrar os viajantes que cruzavam as regiões montanhosas da Catalunha. Embora tivesse corpo de mula, sua crina era longa e sedosa, como os cabelos de uma mulher e seu rosto possuía traços femininos, mais humanos do que bestiais. Em algumas representações da criatura também são comuns serem vistos seios.

A "Muladona" representada em um texto do século XVIII.
3 - Conclusão:
Como o mito da Mula-Sem-Cabeça foi difundido essencialmente pela tradição oral, pouco se tem documentado sobre suas possíveis aparições, o que contribui para a informalidade das informações aqui prestadas. Sendo assim, ao contrário de outros mitos e lendas do folclore brasileiro que eu pude trazer à Taberna Do Fauno com maiores detalhes e informações mais concretas, peço a vocês, amigos leitores, que compartilhem nos comentários qualquer fonte que tenham conhecimento e traga novas informações possivelmente negligenciadas neste artigo.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno




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