quinta-feira, 23 de abril de 2015

Cavalhadas: Uma herança medieval no Brasil


1 - Introdução:
Desde o Império Romano os desfiles com equinos fazem parte das festividades pagãs, comemorações de momentos históricos e vitórias militares. A tradição foi se estendendo significativamente e a importância cada vez maior da cavalaria nos exércitos, fez com que se fortificassem os jogos equestres em festas populares.

Durante a Idade Média, novas formas desses jogos surgiram, dentre elas destacaram-se as justas e os torneios a cavalo, nos quais os cavaleiros se digladiavam em arenas e estádios, tanto por motivos meramente esportivos quanto para exibições de valentia, honra e perícia. Tais torneios misturavam a tradição cavaleira cristã com as apresentações dos gladiadores romanos.


Acredita-se que esta tradição surgiu - ou pelo menos reforçou-se - com Carlos Magno no século IX, espalhando-se por toda a Europa cristã em poucos séculos. Na península ibérica, especialmente em Portugal, os jogos com equinos apareceram juntamente com a formação do reino, sendo um elemento indispensável nas festividades populares, religiosas e guerreiras.

2 – Transferência para o Brasil:
Com a vinda dos portugueses para a colônia brasileira foi inevitável a transferência desses ritos e festas, que a partir do século XVI e XVII já estavam enraizadas nos festivais populares, primordialmente àqueles de cunho religioso. Dentre as apresentações equestres temos a Cavalhada, que se divide em dois tipos: o primeiro seria na forma de jogos com equinos (conhecidas também como “chegança” ou “mourama”), na qual os cavaleiros participam de provas específicas demonstrando suas habilidades de montaria; dentre elas pode-se destacar aquelas “em que os participantes devem atingir alvos previamente colocados em campo (bonecos, cabeças de papelão) e recolher pequenas argolas penduradas numa trave, tudo isso durante rápido galope” (MACEDO, 2000). O segundo que também traz o nome de “Cristãos e Mouros” em Portugal e Pirenópolis, “Cristianos y moros” na Espanha e América Espanhola, apresenta-se como um “teatro”, mais voltado ao campo do rito, no qual os cavaleiros simulam as batalhas travadas entre mouros e cristãos; uma referência direta à cultura e à história da Ibéria medieval - locus das épicas batalhas travadas entre os dois povos.


Esta tradição, sem dúvida robustecida pela histórica Reconquista Cristã, é lembrada através da teatralidade das etapas em que o processo histórico desdobrou-se. Primeiramente tem-se a proposta de batismo oferecida pelos cristãos, a recusa dos mouros, a batalha seguida de uma vitória cristã, a submissão e conversão dos derrotados.

A dramatização da Reconquista serviu também como uma forma de lembrar que a religião de Cristo prevaleceu, e isto era para os portugueses, que durante séculos de sofreram grandes perdas nas guerras contra os mouros, uma consolação e ao mesmo tempo uma recordação da pátria, uma “reafirmação da identidade nacional e religiosa ao atualizar um fato marcante de sua história (...). É também evidente seu caráter étnico, na medida em que a vitória dos cristãos será assimilada à supremacia dos ibéricos em face dos islâmicos provenientes do Norte da África”. Na colônia esse caráter de preeminência cristã é retomado pelo dever de catequizar os índios pagãos do novo continente.

A situação ritualística é assim descrita por José Rivair Macedo: “a dramatização tem início com a apresentação dos grupos e a troca de embaixadas, na qual o emissário do rei cristão propõe aos mouros que aceitem o cristianismo, e, mediante a negativa, declara-lhes guerra. A luta se desenvolve mediante a exibição de diferentes evoluções executadas pelos participantes, com a subsequente tomada de um castelo. Os beligerantes vestem trajes adornados - os cristãos, com cores azuis, e os mouros, vermelho ou cor-de-rosa. Os animais também aparecem enfeitados, alguns com estrelas e outros com a lua crescente. As armas são lanças, espadas de madeira, garruchas ou pistolas, sendo as últimas progressivamente abandonadas em alguns lugares. A evolução dos movimentos é permeada por insultos e desafios verbais, por música e bailados. Ao final, os mouros são invariavelmente vencidos, acabando por aceitar o batismo e converter-se”.

Entretanto, a elucidação supracitada é apenas uma generalização do evento, que possui suas nuances de acordo com a época, o local e as tradições populares. Algumas dessas variações dizem respeitos a elementos como vestimenta, construção de castelos de madeira ou papelão, menção a Carlos Magno, etc.


De modo geral, o rito das Cavalhadas está presente nas regiões rurais de praticamente todo o território brasileiro, excluindo-se apenas o estado de Amazonas. Em contrapartida há registros de sua prática em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Paraná e, nomeadamente, nos Estados da região Nordeste. No Rio Grande do Sul, elas foram praticadas até as primeiras décadas do século XX. As variações por região e Estado também são bem expressivas.

O evento costumeiramente acompanha as festividades dos Santos Populares ou Juninas (São João, São Pedro, Santo Antônio) e da Festa do Divino Espírito Santo, sendo tipicamente antecedida por uma missa e/ou procissão.

3 – Considerações:
Podemos considerar então, com esse breve artigo sobre as Cavalhadas, que o medievo esteve, está e provavelmente estará presente na cultura brasileira desde sempre, mesmo que de forma indireta, tornando-se impossível desassociar certas práticas e costumes de nossa nação com as tradições que ocorreram entre os séculos V e XV na chamada Europa medieval.


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências:
- BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Cavalhadas de Pirenópolis – um estudo sobre representações de cristãos e mouros em Goiás. Goiânia: Oriente, 1974. 208p.
- MACEDO, José Rivair . Mouros e cristãos: a ritualização da conquista no Velho e no Novo Mundo. In: Francisco das Neves Alves. (Org.). Brasil 2000 - Quinhentos anos do processo colonizatório: continuidades e rupturas. Rio Grande, RS: Fundação Universidade Rio Grande, 2000, v. 01, p. 09-29.

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