segunda-feira, 20 de abril de 2015

A Lenda de Nossa Senhora Aparecida


Intercalando elementos místicos e fatos históricos, o presente texto não visa discutir questões religiosas acerca da imagem de Nossa Senhora Aparecida, mas vislumbrar um pouco da história de tão importante personagem da cultura brasileira, demonstrando as questões lendárias que a envolvem de forma a auxiliar em sua difusão. Aos católicos, espero que o texto sirva de contribuição aumentar sua fé e devoção ou ainda como uma homenagem à santa. Aos demais, não católicos, que seja uma fonte com um pouco mais de conhecimento histórico sobre a religiosidade e cultura do povo brasileiro de outrora.

Era outubro do ano de 1717, quando o Conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, veio tomar posse da terra de Piratininga, após ser nomeado Governador da Capitania de Minas Gerais e São Paulo. Após empossar sua terra, o Dom partiu para Minas Gerais, tendo de passar por Guaratinguetá. Sabendo da chegada do importantíssimo governador, os membros da Câmara local iniciaram os preparativos para recepção do homem. As casas foram todas enfeitadas e os pescadores "recrutados" para que arranjassem um grande número de peixes que seriam servidos à comitiva do Conde. Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso eram alguns dos pescadores encarregados pela pesca.

Entre os atuais Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, corria o imponente Rio Paraíba, cruzando o relevo amorreado da região e foi nele que os três pescadores partiram, juntos, em suas canoas e lançaram suas redes nas águas do porto de José Correa Leite e subiram as correntezas, até o porto de Itaguaçu.

Apesar da distância percorrida ser considerável, os desafortunados pescadores não capturaram um peixe sequer. Neste último porto, onde segundo os relatos, os meandros do rio formam uma letra "M", João Alves lançou sua rede de arrasto, na esperança de que ela voltasse cheia. Para o espanto dos três, a rede retornou apenas com um objeto de cor escura, pouco maior que um palmo e completamente sujo. Ao ser lavado, perceberam que se tratava de uma pequena imagem feminina. Suas mãos postas em posição de oração, indicavam que se tratava de uma imagem religiosa, sem sombra de dúvidas, uma escultura de Nossa Senhora da Conceição.

A estatueta, infelizmente, encontrava-se sem a cabeça. Esquecendo-se dos peixes, João atirou sua rede novamente e arrastou-a no fundo do rio, esperando encontrar o restante da peça. Para sua alegria, o pedaço foi capturado. Imagine só o quão mágico deve ter sido este momento para João Alves, um simples pescador católico do século XVIII. Em posse de todas as partes da escultura, o pescador embrulhou-a cuidadosamente em um tecido e guardou.


Logo se recordaram dos peixes que devia ter pescado, mas ainda não possuía nenhum. Não era um período favorável à pesca, mas os pescadores não podiam desistir. Foi enquanto que numa última esperança, João atirou novamente sua rede nas águas e maravilhosamente voltou repleta de peixes. Haviam tantos pescados que tiveram de parar ou poderiam naufragar com o peso. Em seguida, retornaram para suas casas estarrecidos com os acontecimentos daquele dia. Seriam sinais divinos ou apenas um pouco de sorte? Talvez nunca saberemos.

Todavia, a imagem era, de fato, uma representação de Nossa Senhora da Conceição, medindo, como um todo, 40 centímetros de altura e feita de terracota (argila que depois de modelada é cozida em forno apropriado). Com aparência bastante rústica, demonstrada pelos traços talhados de maneira extremamente simples, a imagem de cor escura, provavelmente adquirida após ficar por um longo período em contato com o fundo lamacento do rio Paraíba.

Acredita-se que ela teria, originalmente, uma policromia, isto é, pintada com várias cores, como era tradição na época, porém não há documentos que comprovem. A atual cor acanelada, uma das características mais marcantes da imagem, pode ser produto de uma exposição prolongada ao picumã (fuligem) das chamas de velas e candeeiros.

Seu estilo é considerado seiscentista (século XVII), por diversos especialistas que a analisaram e estudaram-na, entre os quais destacam-se o importantíssimo Dr. Pedro de Oliveira Ribeiro Neto, os monges beneditinos do mosteiro de São Salvador, Dom Paulo Lachenmayer e Dom Clemente da Silva Nigra.


A imagem permaneceu intacta, até o ano de 1978, quando sofreu um incidente que a reduziu a aproximadamente duzentos fragmentos. Foi então enviada ao Professor Pietro Maria Bardi, que na época era diretor do Museu de Arte de São Paulo, que a examinou com o auxilio do Dr João Marinho, colecionador de imagens brasileiras. Seguidamente, foi reconstruída pela artista plástica Maria Helena Chartuni, naqueles tempos, restauradora do Museu de Arte de São Paulo.

Ainda de acordo com os estudiosos supracitados, a imagem foi moldada em argila paulista, da região de Santana do Parnaíba, localizada na atual Grande São Paulo. Porém o segredo maior estava em determinar quem foi o autor da peça, já que não possuía assinatura ou datação. Após um importante estudo comparativo, os peritos chegaram ao consenso de que a pequena estatueta foi esculpida por um discípulo do monge beneditino Frei Agostinho da Piedade, e ainda do seu companheiro de Ordem, Frei Agostinho de Jesus.

As características que marcam o seu estilo são:
- Forma sorridente dos lábios;
- O queixo encastoado, tendo, no centro, uma covinha;
- O penteado, com flores em relevo nos cabelos, broche de três pérolas na testa e porte empinado para trás.

Estatueta Original sem o atual manto azul
Todos estes detalhes se encontram na imagem, intitulada Nossa Senhora da Conceição Aparecida, e, por isso, concluíram os peritos, Dom Clemente da Silva Nigra e Dom Paulo Lachenmayer, que foi esculpida pelo monge beneditino Frei Agostinho de Jesus, ceramista sacro do período seiscentista brasileiro, que viveu entre 1600 e 1661.

Chegando ao Porto, Filipe Pedroso levou a estatueta para sua casa, próximo a Lourenço de Sá, onde a conservou por cerca de seis anos. Já no dia seguinte ao encontro da peça, Filipe começou a construir um oratório no qual colocaria a imagem. Ulteriormente, passando para a região de Ponte Alta, continuou com ela, em sua casa, por mais uns nove anos. Na época em que se mudou para Itaguaçu, deu a imagem a seu filho Atanásio Pedroso. Atanásio, então, iniciou a construção de uma capelinha e, sobre um altar de madeira, colocou a pequena escultura de Aparecida.

A construção da capela, indica que a imagem começou a atrair devotos que iam até o recinto cultuá-la. A partir de então, aos sábados, a vizinhança se juntava para cantar o terço e outras devoções diante daquela a quem, por desconhecerem o nome, passaram a chamar simplesmente de “Aparecida”. Foi nessa capelinha, inclusive, que muitos relatos de acontecimentos estranhos começaram a acontecer.

Certa vez, em uma noite calma e sem vento, o povo estava reunido e rezando. Iluminando a imagem, haviam duas velas de cera da terra. De repente, as duas velas se apagaram. Silvana da Rocha se dirigiu até o altar para reacendê-las. Porém, inexplicavelmente, sem a intervenção de qualquer um deles, as velas se acenderam novamente.

Esses relatos sobrenaturais, provocaram grande espanto na população da região, e a fama da pequena estátua de terracota foi crescendo e ganharam os ventos com velocidade. Diante do crescimento dos adoradores, o então vigário da vila, Padre José Alves Vilela, decidiu oficializar seu culto, organizando a construção de uma capela maior.

Em 05 de maio de 1743, o Bispo do Rio de Janeiro autorizou a construção, exigindo contudo a utilização de material durável e de qualidade, proibindo o consagrado pau-a-pique. Após a outorga do bispo, não faltaram recursos, pois o grande afluxo de pessoas contribuiu para a finalização da capela.

Capela antiga no alto do Morro dos Coqueiros
Entre os incontáveis devotos que se puseram de joelhos diante da Santa Aparecida, conta-se que esteve o próprio imperador Dom Pedro I, quando realizou sua viagem a São Paulo em 1822. Diz-se que ele fez suas preces e prometeu proclamar Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, caso sua excursão fosse exitosa.

Ressalta-se que a data da Proclamação Oficial da Independência do Brasil, dia 08 de setembro de 1822, coincidia com o dia da Solenidade da Natividade de Nossa Senhora. E de fato, Dom Pedro declarou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil.

Em pouco tempo concluiu-se a construção da nova capela, da mesma forma como se difundiram por toda a região Sudeste os prodígios e os milagres da Nossa Senhora, elevando cada vez mais sua fama. Nas paredes da nova capela, foram sendo fixados lembranças de curas, milagres e feitos da Santa.

Em 1868, dois célebres romeiros visitaram a Capela de Nossa Senhora Aparecida, eram eles: a imperatriz, Princesa Isabel, e seu marido, o Conde Dom Luiz D'Eu. A velha Capela, erguida no topo do Morro dos Coqueiros, recebeu uma nova pintura em vista da ocasião. A festa de Nossa Senhora, naquela época, era celebrada unicamente no dia 08 de dezembro. Com a notícia da vinda dos nobres e das duas Altezas, a população viu-se entusiasmada e dedicou-se às festividades. O Conde e a Imperatriz, assistiram ao último dia da novena e à própria festa da Santa, nos dias 7 e 8 de dezembro daquele mesmo ano.

Tradicionalmente, a Mesa Administrativa da Capela, nomeava anualmente os festeiros que ficariam nos encargos da festa para o ano seguinte. Entretanto, naquele ano, devido à presença da Princesa e do Conde, houve uma sessão da Mesa no próprio dia 08 de dezembro, deliberando, por unanimidade, as Altezas Imperiais como festeiros para o ano de 1869. Desta forma, a Princesa Isabel e o Conde D'Eu foram os últimos festeiros da festa tradicional de Nossa Senhora, pois a partir de 1869 a própria Mesa Administrativa encarregou-se de realizá-la.

Conforme documentado pelo jornal Santuário de Aparecida, de 12 de fevereiro de 1921, Dona Isabel, o Conde d'Eu e sua grande comitiva chegaram à Capela às seis horas da tarde para assistirem à novena da festa de Nossa Senhora. Todos vieram a cavalo. Afirma-se que Dona Isabel presentou a Nossa Senhora com um belo e riquíssimo manto com vinte e um brilhantes no valor de 18 contos de réis. Na solenidade, a princesa foi recebida por crianças muito bem vestidas, no alto da colina, que a saudaram com pétalas de rosas. Isabel entrou na Igreja, orou e na Praça foi recebida pelo escravo conhecido como Antônio trombonista, que ficara aos serviços do Padre Joaquim Pereira Ramos e era famoso por saber tocar trombone com excelência. A Princesa Isabel esteve outra vez mais em Aparecida, no dia 06 de novembro de 1884.

Dentre um dos feitos mais famosos da Santa, datam o ocorrido no ano de 1857, quando um escravo fugido de Curitiba e veio para Bananal, cidade de São Paulo, sendo preso e algemado. Ao passar pela Capela de Aparecida, pediu ao feitor permissão para ver a imagem. O feitor, renitente, negou a princípio, mas condoído, consentiu em seguida. O negro entrou na capela e ajoelhou-se, ergueu os braços acorrentados e orou, faz o seu pedido de clemência, de liberdade e de repente suas algemas se abriram e tiniram no chão da capela. Este foi um dos primeiros milagres reconhecidos de Nossa Senhora. Esta cena encontra-se hoje, pintada no forro da Basílica Nacional, trabalhado em madeira pelo artista Chico Santeira. Uma grande corrente encontra-se na parede da Sala dos Milagres.

Ao lado um vídeo com trecho da novela "A Padroeira", representando o momento da pesca da imagem de Aparecida.

Quando aconteceu o milagre da libertação do escravo Zacarias, muitos outros escravos souberam da notícia e ficaram na esperança, de um dia, também serem libertos. Um outro escravo conseguiu autorização do feitor para entrar na Capela. Da mesma forma, rezou e fez o mesmo pedido, mas sua corrente não se rompeu. Pôs-se de pé, tristemente, por não ter recebido o milagre e descendo a antiga rua da Calçada, atual ladeira Monte Carmelo, viu a comitiva da Princesa. O escravo ajoelhou-se e pediu a bênção e misericórdia de Dona Isabel que comovida ordenou, então, que o escravo fosse posto em liberdade. Assim as algemas caíram novamente, mas pelas ordens daquela que futuramente libertaria todos os escravos brasileiros.

Nas Atas da Capela, datadas em 04 de janeiro de 1750, há o registro de um órgão, um relógio de parede, uma caldeirinha de cobre e um escravo de nome Boaventura, mulato, com cerca de 44 anos, organista. Esse documento aponta que o primeiro organista da Capela Nossa Senhora Aparecida foi um escravo. Quando houve o milagre do escravo Zacarias, o capanga que o acompanhava pediu ao Capelão de Aparecida, Padre Antônio Luiz de França Reis, que lhe desse um atestado sobre o acontecido e o levou ao fazendeiro em Curitiba. Este atônito com o ocorrido, escolheu mais dois escravos, Lúcia Belin e João Belin e fez dos três presente a Nossa Senhora e símbolo de sua devoção. Zacarias, Lúcia e João viveram longos anos neste local, como descreveu Padre Oto Maria em “Pontos Históricos com relação a Nossa Senhora Aparecida”.

O mesmo Padre Oto Maria encontra-se documentando em o “Santuário de Aparecida”, de 14 de janeiro de 1922, no qual afirma-se que deliberou a contratação de José Pires de Almeida para servir de organista nas missas celebradas aos dias de sábado em louvor a Nossa Senhora, mediante a gratificação de dois mil réis, quando o escravo João Balin, não o pudesse fazê-lo nas tais missas. Segundo relatos, João Belin tocava a ladainha de Nossa Senhora com um dedo da mão direita, enquanto a esquerda fazia ligeiro acompanhamento. Depois era o contrário: apenas tocava o acompanhamento com um só dedo enquanto que a mão direita fazia nascer os mais belos acordes.

Como o número de romeiros e devotos não parava de crescer, julgou-se necessário a construção de um novo templo ainda maior. Foi então que iniciaram a construção supervisionada por Frei Monte Carmelo e no dia 08 de dezembro de 1888 foi inaugurada por Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, Bispo de São Paulo, a “Basílica Velha”.

Em 1894, veio até Aparecida um grupo de padres e irmãos membros da Congregação dos Missionários Redentoristas, para trabalhar no atendimento aos romeiros que acorriam aos pés da Virgem Maria para rezar com a Senhora “Aparecida” das águas.


O jornal "Santuário de Aparecida", de 19 de novembro de 1921, noticiou o falecimento da Princesa Isabel e assim a descreveu homenageando "muito piedosa, um exemplo vivo para seu povo. Ela também foi muito devota de Nossa Senhora Aparecida. Aqui esteve uma vez, cumprindo nessa ocasião uma piedosa promessa a Nossa Senhora; doou também uma coroa de ouro, em 1884. A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi coroada, no dia 08 de setembro de 1904, por Dom José Camargo Barros, com a coroa doada pela Princesa, recebendo, também, o manto azul-marinho. Consta que a coroa de ouro ofertada era em forma de globo com uma cruz, toda cravejada de brilhantes”.

Na data de 29 de abril de 1908, sob um Decreto à igreja de Aparecida o papa a concedeu o título de Basílica. Sua consagração como padroeira do Brasil ocorreu m uma celebração em 31 de maio de 1931, e já naqueles tempos, reuniu, segundo fontes históricas, cerca de um milhão de devotos. Os padres redentoristas, responsáveis pelo Santuário Nacional de Aparecida, foram os grandes incentivadores da construção da Basílica que hoje guarda a imagem que  em 2017 completará trezentos anos desde que foi encontrada.

Em 1936 começaram os estudos e projetos de engenharia para a construção de uma nova sede do Santuário. Dessa vez, planejada em forma de cruz e entrecortada por um “X”, a planta  do novo edifício foi aprovada em 1949. Desde essa data até hoje, operários se revezam em sua construção. O conjunto total abrange 18.000 m² de área coberta. Um projeto ciclópico que teve início em 1955, com a concretagem da nave norte. A basílica em forma de cruz, possui capacidade para abrigar 45.000 pessoas e possui infraestrutura especial para o atendimento de romeiros que procuram o lugar durante todo o ano em busca da Padroeira.

Construção da Basílica
Já no ano de 1967, em comemoração do jubileu dos 250 anos do aparecimento da imagem, o Papa Paulo VI presentou o Santuário Nacional da Padroeira do Brasil com uma Rosa de Ouro, símbolo que era oferecido pela santidade papal em homenagem a personalidades que prestavam relevantes serviços à Igreja, ou para honrar cidades importantes para a Igreja, ou ainda para saudar Santuários extraordinários, como centro de grande devoção. A entrega da honraria aconteceu na manhã do dia 15 de agosto daquele mesmo ano, com a presença de diversas autoridades civis e religiosas, entre elas o presidente militar Artur da Costa e Silva. Atualmente, a Rosa de Ouro encontra-se exposta na Exposição Rainha do Céu, Mãe dos Homens: Aparecida do Brasil no Museu Nossa Senhora Aparecida, no primeiro andar da Torre Brasília.

Em 04 de julho de 1980, o Papa João Paulo II, veio ao Brasil e celebrou uma missa no próprio Santuário, consagrando a Basílica, que recebeu o título de Basílica Menor. Hoje, multidões de peregrinos chegam para visitar aquela que um dia “apareceu” das águas do Paraíba e em 2017 completará trezentos anos. Para uns uma simples estátua de barro, para outros um grande símbolo divino merecedor de respeito e devoção, para o Brasil, um pedaço importante de nossa história e cultura.

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