quarta-feira, 11 de março de 2015

Canoa indígena construída em 1610 é encontrada em Minas Gerais


Uma canoa encontrada em outubro do ano passado no Rio Grande, na divisa entre as cidades de Andrelândia e Santana do Garambéu, no Sul de Minas, é considerada a mais antiga já identificada no estado de Minas Gerais. Um teste realizado com carbono 14 pelo Laboratório Beta Analytics, em Miami, na Flórida (EUA), apontou que o pedaço de madeira enviado para análise, e consequentemente a inteiriça, data de aproximadamente 1610 – cerca de setenta anos antes da chegada dos primeiros bandeirantes à região. Além disso, outro resultado importante divulgado no dia 5 de Março, desta vez a partir de estudo científico do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT-SP), revela que a embarcação foi escavada no tronco de uma Araucaria angustifolia, conhecida popularmente como pinheiro do Paraná.

A canoa tem 9,10m de comprimento e 70cm de largura que está em exposição na sede do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas (NPA) do Alto Rio Grande, foi descoberta pelo pescador Pedro Fonseca e seu filho, Douglas, de 9 anos, que remavam em um fim de semana. Outra canoa semelhante, também conhecida como "piroga (nome utilizado pelos índios), havia sido encontrada em 1999 no Rio Aiuruoca, no limite entre Andrelândia e São Vicente de Minas, e recebeu a datação de 1660, também com radiocarbono.

Entusiasmado com a descoberta, o conselheiro do NPA, engenheiro Gilberto Pires de Azevedo, explica que os povos pioneiros que habitavam a região tinham um contato muito grande com a araucária. “Escavações feitas na década de 1980 por arqueólogos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no sítio da Toca do Índio, na Serra de Santo Antônio, encontraram sementes de pinhão, que, possivelmente, eram consumidas como alimento. Os vestígios mais antigos têm 3.500 anos”, afirma Gilberto.

Rio Grande, nas proximidades da cidade de Liberdade (MG) - Foto: Áviner Reis
Gilberto acrescenta que além da datação, outros aspectos que confirmam a procedência indígena da canoa, tais como ter sido "escavada em um único tronco de madeira pois , não tem sinais aparentes de uso de ferramentas modernas, como serras ou formões, e traz marcas de fogo, indicando a antiga técnica dos índios”.

Graças ao menino, Douglas, que em um domingo de sol forte mergulhou no rio e encostou a mão num pedaço de madeira. Como o nível do rio baixo, devido ao longo período de estiagem o achado foi facilitado. Em seguida comunicou aos pais que foram verificar o relato, descobrindo que a embarcação estava enterrada na areia. Retirar a velha canoa não foi fácil, conforme declarou, na época, o arquiteto José Marcos Alves Salgado, também conselheiro do NPA: foram necessários quatro dias para levar a peça até uma trilha no mato e protegê-la. Na sequência, ela seguiu de caminhão até o Parque Arqueológico da Serra de Santo Antônio, unidade pertencente ao NPA.


Os achados no Sul de Minas, onde foram localizadas três canoas do século 17, sugerem que pode haver outras surpresas, acredita Gilberto, lembrando que os achados arqueológicos se concentram em cavernas, grutas e na terra: “Descobertas desse tipo são muito raras no Sudeste do país e a importância histórica é enorme. É preciso haver mais estudos nos rios da região, ainda nessa época de poucas chuvas”. O conselheiro do NPA adianta que a associação vai construir instalações adequadas para proteger melhor a canoa e garantir mais conforto aos visitantes.

2 comentários:

  1. Seria muito legal poder "desenterrar" mais história do povo dessa terra.

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    1. Chrisóstomo, seria muito interessante mesmo, ainda mais sabendo que a região do Sul de Minas é muito pouco explorada por pesquisadores. Imagine a enorme quantidade de artefatos escondidos por lá! Fiz diversas pesquisas na bacia do Rio Aiuruoca e do Rio Grande, mencionados na notícia e posso te afirmar, tem muito a ser explorado. A região é extremamente rural, existem áreas inteiras de mata fechada. O que falta mesmo é pesquisa e vontade pública.

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