terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Presas de Narvais eram vendidas como chifres de Unicórnios


Durante séculos, os europeus da Idade Média até o século XVII acreditavam na existência de Unicórnios. Diversos naturalistas e historiadores inseriam o animal em seus livros de história natural como se o animal fosse real, sendo detentor de poderes mágicos, seu chifre possuía propriedades incríveis, tais como: detectar e neutralizar venenos. Desta forma, não era de se espantar que alguns charlatões ou mesmo mercadores supersticiosos, vendessem chifres de outras criaturas alegando pertencerem a unicórnios.

Muitos monarcas e nobres da época procuravam por tal artefato e pagam caro para possuí-lo, muito embora nunca tivessem visto o animal. Com a ajuda dos bestiários feitos por renomados estudiosos e os mercadores trapaceiros, o unicórnio ganhou o imaginário dos europeus, mas o auge de seu mito se deu em 1576, quando o marinheiro inglês, Martin Frobisher, navegando pelo Atlântico Norte, em busca de uma rota marítima que levasse ao Oceano Pacífico, encontrou, na costa do Canadá um objeto estranho e misterioso: caído na beira da praia, um "chifre" totalmente branco, muito comprido e com formato espiralado.

La dama y el unicornio (Século XV) - Museu de Cluny

Para Frobischer sem sombra de dúvidas associou o objeto aos chifres de unicórnios e retornou com ele para a Inglaterra. Lá ele encontrou uma compradora: a própria rainha Elizabeth I. Estima-se que ela lhe deu 10 mil libras pelo chifre, o que equivaleria a 500 mil libras nos dias de hoje.

Alguns historiadores afirmam que os vikings também traziam exemplares de presas de narval para vender aos nobres europeus, muito embora muitos deles conhecessem a verdadeira origem do "chifre", mas continuaram divulgando a lenda do equino chifrudo para manter o produto com preço elevado.

No entanto, a verdade só veio à tona em 1638, quando o cientista dinamarquês, Ole Worm, provou de forma conclusiva que aquele artefato nunca foi o tão aclamado chifre do cavalo mitológico. Na verdade era uma espécie de presa, isto é, um dente super desenvolvido, de um tipo de baleia que habitava o mar ártico: o Narval (Monodon monoceros).

Durante séculos pesquisadores tentaram explicar a função do enorme dente dos narvais e diversas hipóteses surgiram. Uma delas sugeria que a presa servia para capturar peixes, mas não conseguiram explicar como a baleia transferia o alimento para a boca.


Uma outra teoria afirmava que as presas eram utilizadas para fazer furos no gelo, para que a baleia pudesse respirar. Como o narval é um mamífero e vive nas regiões árticas, perpassa por mares congelados o tempo todo e utilizaria a presa para perfurar o gelo e capturar o oxigênio. Contudo, a teoria foi descartada, pois a maioria das fêmeas não possuem tais presas, o que as levaria à morte.

Foi então que no século XIX que o naturalista Charles Darwin apresentou uma função mais simples ao dente do narval, comparando-o ao chifre dos veados, isto é, ele desempenhava função de estabelecer dominância (machos com presas grandes têm uma chance maior de acasalar com fêmeas) e poderia ser usado como arma em um possível combate.

Todavia, tais teorias foram perdendo credibilidade e atualmente as novas técnicas de microscopia permitiram estudar a presa do narval detalhadamente e revelaram uma nova função para o super dente: detecção de mudanças na temperatura e salinidade da água. Assim como nossos dentes, as presas dos narvais são repletas de poros, os chamados túbulos, no entanto estes não são cobertos por uma camada de esmalte que o protege do ambiente externo. Tais presas guardam um fluido e um nervo em sua base, o que permite ao animal detectar as mais ínfimas mudanças na temperatura e na salinidade da água, fatores que são fundamentais para a formação do gelo. Com isso o narval pode saber onde pode encontrar gelo ou mar aberto e escolher a melhor rota para realizar sua migração. No entanto, os cientistas ainda não encontraram uma explicação para a inexistência dessas presas em algumas fêmeas.

As presas podem ficar sujas de algas e os machos as esfregam, uma contra a outra, para limpá-las.
Outra questão que permanece inexplicada é o porque da presa crescer em espiral. Provavelmente pelo fato de a torção aumentar a superfície de contato e expor mais nervos, aumentando a sensibilidade. Talvez ajude por ser mais hidrodinâmico, forçando a água a se mover em espiral para diminuir o arrasto quando o animal nada para frente. 

De qualquer forma, hoje sabemos que a presa do narval não detém propriedades mágicas e que os unicórnios não passam de mitos... ou que ainda não foram descobertos...

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

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