quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O que foi a "Era Viking"?


1- Introdução:
Era Viking é o nome dado ao período em que os povos escandinavos iniciaram um notório processo de migração e/ou invasão das regiões a sul e a oeste da Escandinávia e, especialmente, do Atlântico Norte. Tal período se deu, aproximadamente, entre os anos 800 e 1050, quando os escandinavos migraram do norte Europeu de uma maneira jamais vista, tanto nos períodos anteriores quanto posteriores. Os Noruegueses, em particular, viajaram e colonizaram todo o Atlântico Norte, partindo da Noruega para as Ilhas Faroé, Islândia, Shetland, as ilhas escocesas, regiões da Irlanda, Groenlândia e todo o caminho para a costa leste da América do Norte. Já os Danos (ou dinamarqueses), destacaram-se na invasão da Inglaterra e causaram grandes impactos sobre o desenvolvimento político e social da Bretanha. Algumas partes da França também sofreram influências do expansionismo viking. Os Suecos viajaram para o leste, basicamente para negociar com os povos ao longo dos rios russos, chegando até o mundo bizantino e islâmico. Estabeleceram em Kiev, sob o nome de Rus, gerando os primeiros traços do que futuramente seria a Rússia.

O motivo de os escandinavos terem mudado o mapa político e social da Europa de maneira tão profunda ainda está em discussão. As primeiras ideias sobre tamanha expansão advém da teoria de que a Escandinávia sofreu uma explosão demográfica, o que “abarrotou” a região de pessoas e essas foram obrigadas a buscar por novas terras. Outra explicação sugere que após sofrerem por alguns anos com adversidades climáticas ou pestes, péssimas colheitas induziram os povos escandinavos a uma nova forma de ganhar a vida - através dos saques, da pirataria e do comércio. Porém, muitos historiadores descartam tal teoria. 

Atualmente, pesquisadores trabalham com uma perspectiva diferente. Ao invés das guerras por novas terras ou viagens comerciais, os especialistas acreditam que o desenvolvimento de novas técnicas navais foram as responsáveis por levar os escandinavos a saírem da sua terra natal. Um fator formidável pode ter sido o desenvolvimento de um novo tipo embarcação que os escandinavos passaram a construir: navios longos, estreitos e rasos, que não necessitariam de portos especiais para o desembarque, podendo também atracar tanto em praias e rios profundos, quanto em locais rasos e pedregosos. Alguns modelos menores, muito utilizados em rios no leste, poderiam ser arrastados ou mesmo manobrados dentro dos próprios cursos d’água.


Nos últimos cinquenta anos, estudos vêm mitigando aquela visão típica que criaram dos vikings assassinos, devastando aldeias, matando crianças e velhos, estuprando mulheres e queimando casas. O que mais tem despertado o interesse dos pesquisadores é o modo de vida dos vikings nos momentos de paz, no comércio, na agricultura, isto é, o trabalhador Viking. Obviamente, durante a Era Viking os escandinavos, passaram por ambas as atividades, desde guerreiros saqueadores a camponeses agricultores. Um bom exemplo disso é o medo que os homens do norte geraram em outros os povos cristãos, aparecendo em muitos documentos e crônicas, especialmente das regiões anglo-saxãs (Inglaterra e a Irlanda), como bárbaros cruéis. Stefan Brink, acredita que nenhum grupo viking que viajava a fins comerciais geraria tamanho temor. Até os dias de hoje a palavra “Viking” é, no mundo anglo-saxão, associada aos piratas e os homens violentos da Idade Média.

Hoje tem-se voltado o foco aos estudos dos vikings fora dos campos de batalha, especialmente nas suas atividades diárias e no comércio, pois estes aspectos foram negligenciados na história durante muito tempo. Como sabemos a história é moldada de acordo com as características de quem a escreveu; e durante a Idade Média, um período repleno de confrontos políticos e sociais, onde a grande preocupação dos nobres era garantir sua hegemonia, e dos camponeses era sobreviver, pouco importava o modo de vida dos homens nórdicos. Isso pode ter contribuído e muito para a visão “demoníaca” transferida pelos vikings, que estavam, de certo modo, esquecidos e num dado momento saem de suas terras devastando aldeias e cidades. Outro exemplo, dado por Stefan, no uso da história em ideologias de determinado período, é o da Alemanha nazista que se focava na imagem do viking guerreiro, pagão e defendendo suas crenças. Já na Europa pós-guerra, cansada de violência e mortes, isto se inverte e a imagem dos escandinavos em momentos de paz seria mais bem-vinda, especialmente nas décadas de 50 e 60 em diante, quando o fenômeno da mundialização do mercado estava se formando, o viking comerciante se destacou.


2 - A Era Viking:
O período histórico “Era Viking” é uma construção realizada a posteriori. Os vikings não tinham, é claro, nenhuma noção de que estavam vivendo na Era Viking, e menos ainda de que estavam contribuindo para a formação daquele período histórico. Mas como todo e qualquer período histórico, este deveria apresentar um início e um fim. Geralmente, os pesquisadores escolhem eventos marcantes para determinar o início e o término do período. Em relação à Era Viking dois monumentais 'eventos' foram eleitos para estrutura-la. Por tradição o início da Idade Viking foi criado no ano 793, no qual os Vikings atacaram e saquearam o mosteiro de Lindisfarne, perto da costa de Northumberland (Nortúmbria) e mencionado nas crônicas anglo-saxônicas. Da mesma maneira, por tradição, o fim da Era Viking foi definido em 1066, com a batalha de Stamford Bridge, perto de York, quando o rei Inglês Haroldo, venceu um grande exército de homens do norte, que estavam sob o comando do rei Haraldr Harðráði. Os documentos medievais dizem que após esta derrota, os escandinavos não mais preocuparam os britânicos. A era Viking estava terminada. No entanto, isto é o que está escrito nos manuscritos da época, pois na realidade os vikings continuaram a realizar atividades e saques de menor importância. Em 1070 o Rei dinamarquês Sven Estridsson voltou para a Inglaterra para reclamar a coroa, mas o novo rei da Inglaterra, William, conseguiu frustrar seus planos enviando Sven de volta para a Dinamarca no mesmo ano. Knut, filho de Sven, foi à Inglaterra em 1075, com uma frota dinamarquesa.


Uma questão historicamente importante que levou os Escandinavos a viajarem para fora da Escandinávia por motivos mercantis, obviamente, foi a expansão geral do comércio, que teve lugar no início do século VIII, o que levou ao surgimento de muitas cidades, ou entrepostos, como Dorestad, Quentovic, Hamwic, York, Ipswich, entre outros. Na Inglaterra, bens e dinheiro em abundância, além de grandes quantidades de moedas sceattas, cunhadas pelos frísios, provavelmente, atraíram o interesse de piratas e saqueadores. À luz destas circunstâncias, novos estudos têm puxado para “trás” o início da Era Viking, para cerca de 700. Por outro lado, uma outra extremidade para o fim da Idade Viking tem sido discutida, e esta foi a introdução da nova religião cristã e substituição das antigas tradições pagãs. E junto à Igreja veio uma nova administração e forma de governo baseado na alfabetização. Tal processo de Cristianização da Escandinávia pode - com bons argumentos – ser considerado o verdadeiro fim Era Viking, haja vista o fato de os escandinavos não terem mais praticado e/ou compartilhado sua antiga cultura e tornaram-se como os demais europeus cristãos, cultivando um estilo de vida típico do mundo feudal.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referência: BRINK, Stefan; PRICE, Neil. The Viking World. 01 ed. London/ New York: Routledge, 2008.

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