terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A Lenda do Negrinho do Pastoreio


Indiscutivelmente originária da cultura afro-cristã do Brasil colonial, a célebre lenda do Negrinho do Pastoreio teve sua gênese por volta do século XIX, com base no imaginário rural das terras do sul do país. Eminentemente gaúcha, a lenda ganhou grande notoriedade entre os adeptos do abolicionismo e repercutiu no corpo de ideias que apoiava o fim da escravidão, haja vista sua temática voltada às crueldades realizadas por um senhor de escravos.

O protagonista da lenda é descrito de forma geral, como um pequeno menino escravo de grande beleza e com a pele negra como carvão, ao qual não deram nome nem apadrinhamento. Tal menino, conhecido apenas como Negrinho, dizia ser afilhado da Virgem Maria e nela confiava veemente.

Reza a lenda que um poderoso latifundiário, ou melhor, um estancieiro, como contam os gaúchos, ordenou que um de seus escravos, em questão um garoto negro, pastorear uma tropa de cavalos recém-comprados. No decorrer da noite, em meio ao pasto e após um dia inteiro de trabalho, o garoto descuidadamente adormeceu e nesse meio tempo um dos cavalos escapou. Após voltar à fazenda e contar o ocorrido ao estancieiro, o pobre menino recebeu uma violenta sova de açoite como punição e logo em seguida foi enviado pelo estancieiro à procura do cavalo perdido.

Nesse hiato de busca pelo equino, o menino chegou a encontrá-lo e tentou captura-lo, porém sem êxito, pois a corda que utilizou para laça-lo se rompeu e o cavalo mais uma vez fugiu. Mais uma vez o garoto retornou sem o cavalo e recebeu uma nova surra de chicote. Contudo, par o estancieiro isto não era o suficiente. Como forma de punir de uma vez por todas o descuido do garoto e utiliza-lo como aviso aos demais escravos, o fazendeiro o amarrou em um tronco, ao pé de um formigueiro, aonde as formigas chegariam para se alimentar de suas feridas e devorá-las-iam vivo.

Contudo, no dia posterior, quando o estancieiro retornou para ver o cadáver do menino, ficou assombrado com o que encontrou: em vez de se deparar com o cadáver do escravo, o fazendeiro encontrou o negrinho solto, sem qualquer marca de violência, ao lado da Virgem Maria. Assustado e tomado pelo desespero, o estancieiro se ajoelhou e pediu perdão ao escravo. Este, porém, sem dizer uma única palavra, montou no tal cavalo e, segurando-se nos pelos de sua crina, fugiu da fazenda, levando consigo todos os cavalos do terrível senhor de escravos.

Desde então, o Negrinho passou a cavalgar pelos pampas, pastoreando sua tropa de cavalos. Com base nessa estória, criou-se na região a lenda de que se alguém perdesse alguma coisa de valor ou algum animal, poderia rezar para ele. Desta forma, o negrinho ajudaria o seu devoto a encontrar o objeto perdido e o colocaria em local onde seus donos pudessem vê-los, mas como condição ao auxílio, estes deveriam ascender uma vela para a Virgem Maria.

Aldo Locatelli - Negrinho do Pastoreio, Palácio Piratini

Simões Lopes Neto (1865-1916), escritor que fixou o folclore e as tradições do Rio Grande do Sul em sua obra, apresenta um minucioso registro escrito da lenda do Negrinho do Pastoreio, no livro "Lendas do Sul” e que disponibilizamos abaixo na íntegra:

O Negrinho do Pastoreio por Simões Lopes Neto

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...

Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.

Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...

Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cabos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o — Negrinho. 

A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem. 

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.

*** 
Um dia depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não! Que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro. 

No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande. 

Entre os dois parelheiros, a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...


As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

—Pelo baio! Luz e doble!…

—Pelo mouro! Doble e luz!... 

Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta... 

— Empate! Empate! — gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como numa colhera.

— Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! — gemia o Negrinho. — Se o sete-léguas perde, o meu senhor me mata! hip! hip! hip!...

E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio. 

— Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!. 

E cerrava as esporas no mouro.

Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões… mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pôs-se em pé e fez uma caravolta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz  aberta! E o Negrinho, de em pelo, agarrou-se como um ginetaço. 

— Foi mau jogo! — gritava o estancieiro.

— Mau jogo! — secundavam os outros da sua parceria. 

A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito do pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tíaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem: 

— Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro, Quem perdeu que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei! Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão. 

E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e haguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia. 

*** 
O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda… O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque  e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. 

Na madrugada saiu com ele e quando chegou ao alto da coxilha falou assim:

— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca! 

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando. 

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim. 

Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos  reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas. 

O Negrinho tremia de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e  sossegou e dormiu.  

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias: a estrela-d’alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio, os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou. 

***
O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela acesa em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão; e de cada pingo nascia uma nova  luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam...

Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O 
Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...  

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas. 

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá... 

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou... 

*** 
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o  sangue vivo escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora  Nossa, deu uni suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...

E como já era noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas, e quando elas, raivosas, cobriam todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-la é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.


Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno... 

Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho. 

*** 
A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.


E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pelo e sem rédeas; no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu. 

***
Correu no vizindário a nova do fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo... 

E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!… 

Então, muitos acenderam velas e rezaram o Pai-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver. 

*** 
Todos os anos, durante três dias, o Negrinho, desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se, e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

*** 
Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. 

O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm. 


Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo — Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi... Foi por ai que eu perdi!... 

Se ele não achar… ninguém mais.


Texto e Edição: Áviner Reis, Taberna do Fauno

Referências:
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, O Negrinho do Pastoreio - Universidade da Amazônia.
- Negrinho do Pastoreio: Uma lenda gaúcha – UOL educação

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