segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Mandrágora: Uma planta Lendária e Misteriosa


Durante toda a história da humanidade as plantas e vegetais foram utilizados nas atividades médicas, as quais possuíam diferentes efeitos medicinais e terapêuticos. Porém, desconhecia-se o motivo pelos quais estas plantas podiam gerar curas ou soluções para problemas fisiológicos dos mais simples aos mais complexos. Essa incapacidade do homem dos tempos antigos em explicar as composições químicas que levavam tais plantas a possuírem efeitos diversos sobre o corpo humano, fez-lo criar explicações sobrenaturais e místicas envolvendo as plantas medicinais.

Dentre essas plantas “mágicas”, encontra-se a Mandrágora, planta da família das solanáceas, caracterizada pelo caule muito curto, com uma roseta de folhas, de cujo centro alteiam-se hastes de flores de coloração entre o violeta e o azul ². Provavelmente você deve se lembrar da cena do filme ou das páginas do livro "Harry Potter e a Câmara Secreta", onde os alunos estão em uma aula de herbologia com a professora Sprout e devem desenterrar mandrágoras escandalosas capazes de derrubar todo indivíduo que ouvir o seu grito. Ou ainda do filme "O Labirinto do Fauno", dirigido por Guilhermo Del Toro, onde a planta é colocada pela protagonista, Ophelia, debaixo da cama de sua mãe que sofre com as dores de uma gestação difícil. 


Pois é, essas são algumas das propriedades estranhas atribuídas à planta de nome científico Mandragora officinarum, nativa das terras aclimatadas pelo Mar Mediterrâneo, que foi considerada mágica por muitos séculos graças às suas diversas características singulares e por suas possíveis virtudes medicinais. Além da espécie supracitada, existem outras tais como Mandragora autumnalis, Mandragora turcomanica e Mandragora caulescens.

Antes mesmo dos antigos manuscritos orientais e das escrituras sagradas do Velho Testamento, já se faziam referências à mandrágora que se tornou ainda mais famosa durante a Antiguidade e Idade Média, quando a prática da magia e da bruxaria se tornaram mais populares. Entre os bruxos a mandrágora destacava-se por seus efeitos narcóticos e pelo aspecto antropomórfico de sua raiz, isto é, seu formato contorcido e ramificado assemelhava-se às formas do corpo humano, o que colaborou ainda mais para a difusão de seu consumo. Segundo Glória Maria Della Libera Pratas, "a raiz, frequentemente bifurcada, possui contornos de uma forma humana — mais especificamente, a de uma mulher — e, sendo grossa e carnuda, assemelha-se a um par de pernas". Na obra de Paracelso, Teoria da Assinatura dos Corpos, as raízes da mandrágora eram consideradas ótimas para a saúde do corpo e para o bem-estar da alma, graças às suas características morfológicas.


De acordo com a lenda, a mandrágora nascia no chão aos pés de pessoas que morreram enforcadas, sendo produto do contato entre o solo e a baba expelida pela vítima. Até mesmo a forma de coletar a planta era cercada de misticismos e superstições. Conforme a lenda, uma das maneiras mais eficazes de se conseguir as raízes de uma mandrágora consistia em amarrar os ramos aéreos da planta na coleira de um cão faminto e açoitá-lo com afinco. O animal desesperado pela fome e pela dor usaria toda sua força para se livrar da tortura e arrancaria a planta por inteira, mas logo em seguida cairia morto.

Tal versão sobre a extração da mandrágora é oriunda da obra "Enquiry Into Plants II" de Teofrasto, filósofo grego que escreveu o primeiro tratado sobre plantas. Segundo ele o herborista só poderia desenterrar a planta à noite, após se inclinar em direção do sol poente e homenagear as forças telúricas. Então deveria desenhar três círculos ao redor da planta usando uma espada de ferro virgem. Em seguida, voltado para o oeste a fim de evitar feitiços, ele deveria cortar porções das raízes secundárias. Posteriormente, não deveria proceder pessoalmente à colheita pois, no momento em que era arrancada, a planta lançava um grito que matava ou enlouquecia aquele que o ouvisse. Dessa maneira, após tapar cuidadosamente os ouvidos com cera, o herborista amarrava um cão à planta e atirava-lhe um pedaço de carne um pouco além do seu alcance. O cão corria e caía morto. Porém a mandrágora seria arrancada com êxito.

Ilustração do manuscrito do séc XV "Tacuinum Sanitatis" demonstrando os procedimento realizados na extração da mandrágora

A extração das propriedades da mandrágora poderia ser feita com suas folhas e/ou raízes dissolvidas ou amassadas em leite ou álcool. Seus efeitos poderiam ser afrodisíacos, analgésicos, alucinógenos ou narcóticos.

A mandrágora é mencionada ainda em obras milenares como a Bíblia, em Gênesis 30, 14-17, trecho que indica que seu uso é marcado essencialmente por seu poder afrodisíaco. 
• Gênesis 30.14: “Foi Rúben nos dias da ceifa do trigo, e achou mandrágoras no campo, e trouxe-as a Lia, sua mãe. Então, disse Raquel a Lia: Dá-me das mandrágoras de teu filho”.
• Cântico dos Cânticos 7.13: “As mandrágoras dão cheiro, e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos, novos e velhos; ó amado meu, eu os guardarei para ti”.


Assim como no trecho bíblico de Gênesis, os frutos da mandrágora, também conhecidos como "maçã do amor", atribuía-se a ela as virtudes da fecundidade e da fertilidade, o que levou Maquiavel à utilizar seu nome na intitulação de sua peça de teatro. Durante a Idade Média, tal mito de que a mandrágora era capaz de trazer a fecundidade às mulheres inférteis, difundiu-se sobremaneira, de forma que muitos vigaristas e charlatões passaram a buscar pela planta para a fabricação de poções ou alegavam utilizá-la em remédios milagrosos.

Ao longo da história, diversos autores clássicos, como Sócrates, Demóstenes, Macróbio e Teodoreto, escreveram sobre os efeitos soníferos e anestésicos desta planta. Atualmente, estudiosos do campo da Biologia, Medicina e Química, apontam para a presença de alcaloides que conferem propriedades alucinogênias à Mandragora officinarum, o que explica sua ampla utilização pelos povos antigos.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Bibliografia:
- Solanáceas e Rituais de Bruxaria. - Sabrina T. Martinez¹, Márcia R. Almeida¹, Angelo C. Pinto¹. ¹Instituto de Química, Departamento de Química Orgânica, Centro de Tecnologia, UFRJ, Rio de Janeiro, RJ.

- Mandrágora: raiz humana da esperança, remédio para o amor - Glória Maria Della Libera Pratas²
²Teóloga, mestranda em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).

Mandrágora: uma planta "humana" e "mágica", lendária e com história - Renata Silva em Ciência 2.0

Um comentário:

  1. aqui no Brasil existe essa planta,e como conseguir, mudas ou sementes

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