quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Berserkers: a encarnação da fúria


Não é novidade alguma dizer que os vikings vêm ganhando a cultura pop nos últimos anos e conquistando cada vez mais fãs e admiradores. Na internet, surgiram dezenas ou mesmo centenas de páginas e sites sobre a cultura dos célebres piratas medievais e estas aumentam seus seguidores diariamente. Contudo, em muitos casos, essa difusão massiva de informações acabam por criar inverdades e confusões entre os leitores, formando, consequentemente, uma visão equivocada de vários fatos. Um famoso exemplo disso na cultura viking, são os elmos com chifres e asas, já desmentidos pela historiografia e arqueologia, mas que permanecem vivos entre o imaginário popular.

Outro aspecto muito difundido sobre os nórdicos era sua ferocidade em batalha. A inexistência de medo da morte entre os seguidores de Odin, transformavam-nos em máquinas de guerra poderosíssimas. Os exércitos nórdicos, ainda contavam com seus navios, conhecidos como drakkar (dragão), que permitiam a eles navegar em diversos tipos águas, desde oceanos turbulentos a rios rasos. Mas há um tema que ainda é muito pouco debatido entre as páginas que se destinam à vikingologia informal: os berserkers. Talvez você tenha se perguntado, o que raios são esses berserkers? Ou ainda, o que há de errado com eles? Bom, já vou te explicar.

Segundo o especialista em história da Escandinávia medieval, Johnni Langer¹, berserkers são uma espécie de guerreiros de elite que compunham uma parcela das tropas nórdicas. Mas qual o significado desse nome? Atualmente, existem duas explicações para este nome. A mais coerente diz que seria “camisa de urso” (do nórdico bear), e a outra “sem camisa” (do nórdico bare). Seja qual for a origem exata da palavra, ambas conferem uma coerência à terminologia.

Sabe-se que a principal característica dos berserkers era a fúria descontrolada que exibiam durantes as batalhas, atacando seus inimigos sem qualquer misericórdia. Desta forma, a ligação com o urso (camisa de urso), é uma significação clara com o simbolismo que tal animal possuía para as antigas tribos germânicas. Já a segunda explicação (sem camisa), deriva dos relatos de os berserkers não utilizarem proteções durante as batalhas.

É interessante notar que, antes mesmo dos vikings ganharem os livros de história, outras sociedades fundamentadas na arte da guerra louvavam guerreiros com estas mesmas características. Um exemplo disso é relatado pelo cronista romano Tácito que mencionou, entre as tribos germânicas, guerreiros que se enquadram nas descrições dos berserkers.
 
Desenho de uma placa de bronze descoberta em Öland, na Suécia. Estão representados um berserker à direita utilizando a pele de um urso (ou lobo) e à esquerda Odin


Muitos estudiosos, desde o século XVIII, buscam uma explicação para o comportamento violento dos berserkers. Conhecido como berserkergang tal comportamento foi explicado por várias teorias, sendo uma das mais famosas, aquela formulada após 1960, na qual se alegava que a “tropa de elite” viking utilizava cogumelos alucinógenos, como o Fly acaris, muito usado entre os xamãs da Lapônia ou ainda bebidas alcoólicas. Entretanto, vários experimentos e exames químicos foram realizados com voluntários que toparam reproduzir cenas de batalha sob o efeito dessas drogas e os resultados foram contraditórios à teoria: os efeitos colaterais foram negativos (tonturas, náuseas e vômito), atrapalhando significativamente o desempenho dos voluntários. Desta forma, tais teorias foram descartadas.

Mas os estudiosos não pararam de pesquisar, pois a questão ainda os incitava: afinal de contas, o que causava toda essa ira nos berserkers? Para respondê-la, duas novas teorias foram formuladas e correlacionadas. Johnni Langer, as explicam em seu artigo “Fatos e lendas sobre os Berserkers” da seguinte forma:

1 - “A primeira é relacionada ao culto do antigo deus Odin. Segundo o cronista islandês Snorri Sturluson, os berserkers eram devotados fiéis a esta divindade. Seria, portanto, a sua fé em um deus xamânico, que privilegia a magia, o êxtase e a metamorfose humana em animais, que explicaria esse comportamento: “os homens de Odin avançam para as frentes sem armaduras, onde tão loucos como cachorros ou lobos, mordem seus escudos, e são tão fortes quanto ursos ou bois selvagens e matam pessoas com um golpe, mas nem o ferro nem o fogo os detém”, na famosa descrição de Snorri da Saga dos Ynglingos (escrita no século 13 d.C.).

Guerreiro viking mordendo escudo

2 - “A segunda explicação para o frenesi dos berserkers e em consequência, no seu sucesso perante as batalhas, advém de causas puramente psicológicas. O pesquisador Peter Woodward, no programa Conquista da BBC, testou essa teoria. Em primeiro lugar, o tipo de equipamento mais usado por estes guerreiros era o machado, uma arma somente de ataque e sem defesa operacional, como a espada. Um soldado na frente de batalha, sem nenhum tipo de proteção (armadura ou escudo), gritando, urrando, dançando e atirando o próprio corpo contra os inimigos sem nenhum medo, causa um efeito psicológico devastador: é a agressão em estado puro, terrivelmente assustadora. Esse estilo suicida extremista fez os berserkers entrarem para a história da guerra”.

Essas explicações, contudo, elucidam apenas o comportamento desses guerreiros furiosos no campo de batalha. Como seria, então, o cotidiano dos berserkers e sua vida em sociedade? De modo geral, eles foram indivíduos de muito prestígio social e eram admirados pelos demais guerreiros e líderes. Durante muito tempo foram empregados em exércitos como uma tropa especial, como foi o caso de Bizâncio que os contrataram como mercenários (guarda varangiana). Ainda tiveram grande importância em exércitos na Rússia. Para a classe aristocrática, que constantemente envolvia-se em guerras e precisava de bons soldados, os berserkers eram essenciais, possuíam grande valor, adquirindo, inclusive, um elevado status social. Nos excursões voltadas aos saques a à pilhagem, sempre haviam alguns berserkers prontos para a matança. De modo geral, do ponto de vista bélico, eles eram essenciais. 

Em contrapartida, para o homem do campo, o simples camponês ou pequeno agricultor, os berserkers eram vistos como uma ameaça. Sua instabilidade psicológica, de certa forma, acabava por isola-los da maioria da sociedade. Sendo assim, os berserkers naturalmente eram pessoas mais solitárias, com poucos amigos e às vezes eram expulsos das comunidades onde viviam, em especial por assassinato.


O exemplo citado por Langer é o relatado na Saga de Egil Skallagrímsson. Guerreiro este, cujos antepassados também foram berserkers, (o pai: Skallagrím, careca feia, e o avô, Kveldi-Úlf, lobo do entardecer), levou uma vida repleta de violência, chegando ao ponto de assassinar uma criada em sua própria casa após uma acesso de fúria descontrolado. Entende-se, então, que os berserkers não ficavam possessos somente em situações militares, mas com seus próprios conterrâneos e parentes, sendo receados entre os próprios nórdicos.

Atualmente, estes guerreiros encontram-se presentes na cultura pop, habitando jogos de videogame, quadrinhos, filmes e séries. Um exemplo bem ilustrativo é o personagem Rollo, irmão do protagonista Ragnar, da célebre série Vikings do History Channel. Em alguns episódios, Rollo aparece em cenas de batalha sem proteções corporais e portando apenas um grande machado. Além disso, possui um relacionamento complicado com os demais personagens da série, tendo um comportamento bastante insensato e imprevisível ao longo da trama.


Notas: 1 - Pós-Doutor em História Medieval pela USP (2006-2007). Atua principalmente nos seguintes temas: história e cultura na Era Viking e na Escandinávia Medieval, Mitologia nórdica, sagas islandesas, Literatura nórdica medieval, história do paganismo escandinavo, História da Arqueologia e Astronomia, Arqueoastronomia e Etnoastronomia da Escandinávia Medieval.

Referenciais:
Fatos e lendas sobre os Berserkers – Johnni Langer
Fúria e sangue: os berserkers – Johnni Langer
Berserker - Encyclopedia Britannica

2 comentários:

  1. Supervaleu! Tenho uma história no tema fantasia e abordo mitologia nórdica/escandinava, sempre preciso estar estudando e agora me vinheram os bersekers e quero entender bem para poder trabalhar, você me ajudou muito. Sério, obrigado porque não estava facil encontrar tanta coisa sobre o assunto.

    ResponderExcluir
  2. Gostei bastante do post, me identifiquei em algumas partes kkkkk.

    ResponderExcluir