sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Antoine Calmet: O Primeiro Caçador de Vampiros


Primeira metade do século XVIII, o Iluminismo vivia seu apogeu na Europa, grandes filósofos como Voltaire travavam uma dura batalha entre a razão e a superstição, tentando dizimar os mitos das culturas antiga e medieval que permaneciam profundamente enraizados na cultura popular. A ciência explicativa e baseada em métodos racionais tentava sobrepor-se aos dogmas da igreja e às formulações religiosas. A "bíblia” dos filósofos eram as enciclopédias, enormes livros que compilavam todo o conhecimento produzido pelo homem até então. Mas a batalha contra a religião e as lendas populares estava longe de ser vencida.


Nessa mesma época de fervor científico, surgiram, no ano de 1732, boatos oriundos do leste europeu de que os mortos estavam retornando. Esses homens sem vida atacavam os animais e os moradores de vilarejos, sugando-lhes o sangue até torná-los enfermos e depois morrerem. Após serem reconhecidos pela polução, os assassinos hematófagos eram desenterrados, julgados, empalados com estacas, arrancavam-lhes a cabeça e, por fim, incineravam-nos.
Fonte: HerbertW
Tais criaturas foram descritas e chamadas de “Vampiros”, pela primeira vez, na revista Le Glaneur Hollandais, onde eram descritos como criaturas que assolavam as regiões da Hungria, Romênia, Eslováquia, Alemanha, Bálcãs e Tcheca, chegando inclusive às áreas limítrofes da Polônia e da Rússia. O relato da revista trazia o caso de um sujeito conhecido como Arnold Paul, que foi dado como morto após acidentar-se na Sérvia, contudo, teria voltado do mundo dos mortos para atacar as pessoas, gerando “uma epidemia de vampirismo que se arrastou durante anos”¹. Seu cadáver foi analisado por médicos militares que afirmaram não haver sinais de corrupção. Para sanar o cadáver, os médicos decidiram atravessá-lo com uma estaca e, ao fazê-lo, o morto gritou e sangrou vividamente, mas somente após atear fogo ao mesmo, seu corpo foi finalmente extinto.

O relato deixou os iluminista encafifados: seria tudo aquilo uma doença desconhecida ou mera superstição? Para solucionar o caso, as mentes racionalistas convocam Antoine Calmet, ou simplesmente Dom Calmet, o primeiro caçador e investigador de vampiros que se tem notícia.
As lendas sobre as criaturas sugadoras de sangue, agora chamadas de vampiros, não eram nenhuma novidade, pois povoavam o imaginário europeu desde antiguidade. Contudo, elas foram sendo esquecidas com o passar dos séculos e até o século XVIII estavam bastante desacreditadas. O renascimento do mito nessa época foi no mínimo interessante, o que causou reboliço entre os intelectuais iluministas. Dentre esses intelectuais, Don Calmet decidiu encarar tal empreitada e iniciou uma investigação racional e científica sobre o caso de Arnold.

Todavia, não era apenas pela ciência que Calmet topou averiguar sobre o vampirismo, haja vista que ele era também clérigo e via-se muito interessado com as questões teológicas que envolviam esses mortos que retornavam à vida. Sendo assim, sua pesquisa servia a dois propósitos: desconstruir científica e, principalmente, religiosamente a lenda de que era possível a volta dos mortos sob a forma de vampiros. Desta forma, reafirmaria os dogmas cristãos utilizando metodologias racionalistas.

Antoine Calmet conviveu por um bom tempo com mentes iluministas e com elas aprendeu alguns métodos de pesquisa utilizados na época. Utilizando-se destas técnicas, sua investigação objetivava debater, a princípio, as “impossibilidades metafísicas da existência destes seres: depois apresentar as provas científicas que caracterizariam estes enganos”¹. Os resultados de seus vários anos de pesquisa foram divulgados em 1751, em um documento intitulado “Tratado sobre a aparição de espíritos e sobre os vampiros ou os revividos da Hungria, da Morávia, etc.” e que ocasionaram grande alvoroço entre seus contemporâneos, pois Calmet deixou toda a averiguação sobre os vampiros inconclusa, isto é, não afirmava nem desmentia a existência dos mesmos. Assim, a sociedade setecentista passou a crer que eles verdadeiramente existiam.


Na luta contra os vampiros, os aldeões da Europa oriental “profanavam” e queimavam corpos de cristãos, de modo a evitar que estes tornassem vampiros. Tal prática chamou a atenção da igreja católica que, inicialmente, indicou o padre Giuseppe Davanzati para investigar sobre e dar a cabo essa prática hedionda. Davanzati estudou a problemática ao longo de meia década e escreveu a tese Dissertazione sopra I Vampiri, divulgada em 1744, na qual o autor concluía o absurdo em torno da lenda dos vampiros que eram meros produtos do imaginário popular e que não haviam motivos para exumar e queimar corpos.

Entretanto, a dissertação de Giuseppe não obteve repercussão, pois ele inspirou-se especialmente em argumentos religiosos e pouco científicos. Desta maneira, em resposta ao descrédito da população e dos intelectuais, Dom Calmet foi convocado. Após muita pesquisa, Calmet publicou a obra “Dissertação sobre as aparições de anjos, demônios e espíritos, e sobre os revividos e vampiros da Hungria, da Boêmia, da Moravia e da Silésia” (Dissertation surles apparitions des anges, des demons et des espirits, et sur les revenans ent vampires de Hongrie, de Bohême, de Moravie et de Silésie). A obra consistia em uma grande compilação de relatos de vampirismo ocorridos na Europa Central. Sua repercussão foi tamanha, que a obra foi reeditada em 1751 com um novo título: “Tratado sobre a aparição de espíritos e sobre os vampiros ou os revividos da Hungria, da Morávia, etc”.


Entre os intelectuais iluministas e outros clérigos sua obra foi tratada com zombaria, pois estes diziam ser sua pesquisa inútil e fútil. Em contrapartida, para aqueles que acreditavam em vampiros, seu trabalho, que antes deveria servir para desacreditar as lendas, acabou tendo efeito inverso e reforçou ainda mais a crença, tendo vista que suas conclusões, em geral, foram dúbias. O autor dizia que não haviam provas contra nem a favor do vampirismo.

“[...] Dá-se a estes revividos o nome de Oupires ou  Vampiros, ou seja, sanguessugas, e deles contam-se particularidades  tão singulares, tão detalhadas e cobertas de circunstâncias tão  prováveis e com tantas informações jurídicas que quase não se pode  recusar a crença destes países: que estes revividos parecem realmente  sair dos seus túmulos e produzir os efeitos que são publicados” (CALMET, 1751, p.VI)”.¹

Dentre os casos pesquisados pelo clérigo, há a descrição de como identificar um vampiro e os procedimentos necessários para derrotá-lo. Para exterminar um vampiro, corriqueiramente, a população cravava no cadáver uma estaca, para mantê-lo preso à sepultura, quando isso não era o suficiente e o morto voltava a perturbar a população, queimavam-no. Um caso citado por Calmet é o de um pastor da aldeia de Blow que retornava dos mortos para chamar alguns indivíduos que morriam após oito dias. Para acabar com a ameaça, a população realizou a técnica da estaca, que no entanto não funcionou e por fim, arranjaram uma carroça na qual transportaram o corpo para fora da aldeia e queimaram o mesmo. Durante o processo de incineração o cadáver manifestou-se com gritos e agitou os membros.

No decorrer de sua tese, Antoine descreve vários relatos sobre vampirismo – jornais, diários, testemunhos e críticas de seus colegas, mas não encontra uma conclusão. Sua indecisão e ineficiência em comprovar a veracidade ou inexistência de vampiros levou o debate para diversos centros de conhecimento da Europa Ocidental, abrasando ainda mais o assunto. A temática chegou inclusive a grandes pensadores e filósofos da época, que na tentativa de desmistificar estas lendas, que para eles eram superstições do povo ignorante, acabaram surtindo efeito contrário: os vampiros tornaram-se ainda mais famosos, dominando toda a Europa e aos poucos ganharam o mundo.

Publicado por: Áviner Reis, Taberna do Fauno 

Nota: 1 – Trechos compilados diretamente do referencial

Referencial:
- Don Calmet, o primeiro caçador de Vampiros da História, por Maytê Regina Vieira (Professora de História pela FAFIUV - União da Vitória, Paraná, Pesquisadora em História dos Vampiros e História do Imaginário, Mestre pela UDESC).

Um comentário:

  1. Antoine Calmet, o Van Hellsing mais fail de toda a história.

    Ótimo texto, eu sequer sonhava com a existência dessa figura. Adorei :)

    ResponderExcluir